O Globo Repórter sobre o “fim do mundo”, exibido em 10 de fevereiro de 2012, me fez lembrar uma característica antiga do programa: a tendência, em algumas edições, de apresentar fenômenos naturais e temas científicos ao lado de interpretações místicas ou esotéricas. Algo semelhante já podia ser observado na edição dedicada ao cometa Halley, em 1985.
Nesta edição, grande parte do programa foi dedicada a astrólogos, adeptos de interpretações esotéricas e pessoas que se preparavam para supostas catástrofes associadas ao ano de 2012. Entre os entrevistados estava um morador de Alto Paraíso de Goiás (GO), apresentado como engenheiro eletrônico, que atribuiu a atividades solares a possibilidade de ocorrência de terremotos, furacões e tsunamis.
A relação entre atividade solar e terremotos já foi objeto de alguns estudos científicos, mas permanece controversa e não existe um mecanismo causal estabelecido que permita atribuir terremotos à atividade solar. No caso dos furacões, sua formação e intensificação estão relacionadas principalmente às condições atmosféricas e oceânicas. Tsunamis, por sua vez, são produzidos predominantemente por grandes deslocamentos de água causados por terremotos submarinos e, com menor frequência, por deslizamentos, erupções vulcânicas e impactos.
Se uma relação física robusta entre atividade solar e esses fenômenos fosse demonstrada, naturalmente seria um resultado científico de grande relevância e precisaria ser apresentado com dados, análise estatística e publicação submetida à avaliação da comunidade científica.
O problema, portanto, não é apresentar crenças ou interpretações alternativas em uma reportagem. O problema surge quando afirmações extraordinárias são colocadas ao lado de explicações científicas sem que fique suficientemente clara a diferença entre uma hipótese testada cientificamente, uma especulação e uma crença.
Abaixo, segue o episódio do Globo Repórter em questão. Jornalistas não precisam ser cientistas, mas programas dedicados a temas dessa natureza se beneficiariam muito da participação regular de consultores científicos capazes de avaliar afirmações técnicas e colocá-las no devido contexto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário