COMETA
Tanto se tem falado em cometas, que me seria lícito meter também o bedelho
em assuntos astronômicos. Recordarei apenas cousas aqui passadas em tempos
idos. Não podem, pois, causar pânico as seguintes notas:
Há no museu do Instituto Histórico um curioso quadro, em cuja parte inferior
ocorre a seguinte inscrição manuscrita: “Figura do cometa, que apareceu no Rio
de Janeiro, no ano de 1843, desenhada por José dos Reis Carvalho, mestre de
desenho da Academia de Marinha, como se apresentou à vista pelas sete horas da
tarde, primeiro dia de sua aparição. Ele o observou de sua casa situada na face
esquerda do Rocio (olhando para oeste) defronte da rua do Tesouro, e lhe
adicionou a perspectiva dos edifícios que ficavam também a oeste na direção
das visuais dirigidas ao cometa”.
Pelo que se nota, devia ser belíssimo espetáculo, apreciado durante um mês
pelos contemporâneos das revoluções de S. Paulo e Minas Gerais, do processo de
quatro senadores, das gôndolas e tílburis, do azeite de peixe e do padre Feijó.
Sustos e temores também o tal cometa produzira. Uns prontos para morrer se
confessavam e comungavam. Outros até chegaram a fazer testamento.
Sobre o cometa que nos visitou em 43 escreveu uma memória Maximiano Antonio
da Silva Leite, sócio correspondente do Instituto Histórico. Antes de citar
trechos desse trabalho publicado no tomo 5.º da Revista do Instituto,
darei biográficos sobre o autor. Nasceu no último quartel do século 18 e
faleceu, diz o dr. Sacramento Blake, no Rio de Janeiro a 20 de agosto de 1844.
Estudos na antiga Academia Militar, e sendo capitão do 3.º batalhão da brigada
de marinha, foi nomeado lente de Matemáticas da mesma Academia de Marinha a
16 de dezembro de 1822. Mais tarde, a 26 de abril de 1824, foi transferido para
a cadeira de Artilharia. Foi jubilado a 18 de janeiro de 1844.
Adverte o autor que, por falta de instrumentos, não pode determinar com
precisão as diferentes posições em o céu e por isso se deve considerar
aproximação tudo quanto passou a dizer. Guiou-se também por informações.
Escreveu sobre a matéria por instância do cônego Januário da Cunha Barbosa.
Começou o cometa a ser visto em 28 de fevereiro. Pessoa de sua confiança
assegurou a Maximiano que apreciara o fenômeno cerca do meio dia. Tinha-o visto
distante do sol cousa de um côvado, e apresentava a figura do tamanho de uma
bola de bilhar, tendo uma pequena cauda. Nos dias 1, 2, 3 e 4 de março ninguém
falou mais em cometa.
Em 5 de março (dia em que se fez à vela a esquadra brasileira composta de uma
grande fragata e duas corvetas, afim de conduzir a princesa contratada esposa
do imperador do Brasil, o senhor d. Pedro II) o céu esteve encoberto e, por
isso, não lhe dei atenção; mas, algum tempo depois do sol posto, dissipando-se
as nuvens para a banda do oeste, imenso número de pessoas o viram, e então já
estava mais afastado do sol; pois a cabeça dele, segundo alguns, pôs-se depois
das 7 horas; disseram outros que não perceberam a cabeça. A sua cauda era muito
grande, e, segundo notei, nos dias seguintes ocupava no céu um espaço de mais
de 50 graus, delgada para a cabeça e alargando para cima, de maneira que me
pareceu ter a figura de um trapézio, bem terminado até quasi à extremidade
superior, pois aqui começava a desvanecer-se em flocos, mas alargando
uniformemente. A sua superfície era lisa e sem poros, exceto na dita extremidade
superior; a sua cor era de pérola e representava a imagem de um imenso fogo
visto de longe. Eu nunca vi cauda semelhante.
A bordo da nau Pedro Segundo, surta neste porto, foi observada a
cabeça a Oés-Sudoeste magnético, e a cauda dirigindo-se por entre Leste e
Leste-Nordeste, às 7 3/4 horas da tarde, tempo médio, e que não tardou a pôr-se.
No dia 6 as nuvens não permitiram ver. Em 7 e 8 foi visto a Oés-Sudoeste.
Em 9, 10 e 11 não pôde o cometa ser observado.
Em 12 foi visto claramente: a cor da cauda mais fraca, mas a extensão da mesma
grandeza. A cabeça mais a Leste e mais ao Norte. A cabeça foi observada a
O 1/4 às 9 horas, tempo médio, e desapareceu pouco depois.
Em 13 a cauda vai perdendo a cor. Conserva a mesma extensão. A cabeça caminha
para o N e para E.
Em 15 e 16 desapareceu mais tarde. Cita o autor observações até 2 de abril.
A 5 deste mês nada mais foi visto.
Entra em seguida o professor Maximiano em algumas consequências destas
observações, tirando delas várias deduções. “Constou por notícias vindas de
Lisboa, publicadas no Jornal do Comércio, de 1 de maio, que fora visto
naquela cidade ao Sul do Tejo, um cometa, em 10 de março deste mesmo ano, porém
como não se diz a paragem do céu em que foi visto, não podemos afirmar se era
este o mesmo que observamos no Rio”.
Passados 16 dias depois do desaparecimento do cometa, isto é, em 20 de abril,
pelas nove horas da noite, viu-se nesta cidade um extraordinário meteoro que
muito espantou; assemelhava-se ao fogo expelido por uma pistola de fogo
artificial, com cor algum tanto amarelada e esclareceu muito a cidade por
espaço de um minuto e extinguiu-se. O seu curso foi de Leste para Oeste, pela
mesma paragem onde se tinha visto a cauda do cometa, e daqui veio dizerem que
o cometa tinha retrocedido e aberto uma grande boca de fogo em cima da cidade.
A noite estava escuríssima. Não se via estrela alguma. Não chovia.
Há na referida memória, escrita em 28 de junho de 1843, um
Post scriptum. Cita um correspondente do Times que observou
o mesmo cometa visto no Rio de Janeiro no Observatório de Kensington. Tal
meteoro foi também apreciado em quase toda a Europa.
Acerca do cometa de 1843 ocorrem ainda no mesmo tomo 5.º da
Revista observações feitas em Buenos Aires, por Felipe Senillosa e
d. Vicente López, associados ao engenheiro Romero. Tais estudos constam do
n. 3.593 de 24 de agosto de 1843 do Diário de La Tarde, de Buenos Aires,
enviado graciosamente ao Instituto Histórico por d. Thomas Guido, encarregado
de negócios e representante de seu país na corte do Rio de Janeiro. Este
interessante artigo foi publicado com anotações também de Maximiano Antonio
da Silva Leite.
Sobre o fenômeno meteorológico, de que ora me ocupo, o notável matemático
Pedro de Alcântara Bellegarde calculou a órbita. Suas observações figuram na
Minerva Brasiliense, sob o título Astronomia. Admitindo a
hipótese de que a cauda do cometa de 43 pudesse ter tocado a terra, asseverava
que, “se este fenômeno teve lugar, ele nos confirma na opinião de que uma
substância tenuíssima, como é a cauda de um cometa, não pode reagir naturalmente
sobre a nossa atmosfera.
Com efeito, uma substância tão pouco densa que deixa passar através de muitos
milhares de léguas, a imagem das mais pequenas estrelas sem alteração sensível,
deve ser dotada de uma densidade e portadora de uma quantidade de movimento
tão pequena, que o efeito de seu choque sobre a massa da terra deve ser
inapreciável”.
Quando apareceu este cometa (de 43) chegou aqui a nova do descobrimento de um,
em outubro, pelo astrônomo Laugier, de Paris. Julgou-se ser o mesmo. Aumentava
o interesse de tal identidade a semelhança, que no princípio pretendia Laugier
achar no cometa por ele descoberto com o que foi visto na China em 1301.
Laugier provou depois o seu engano. Quanto ao nosso, conclue Bellegarde, os
seus elementos provam exuberantemente que não era nenhum dos dois.
Na sua Dedução Cronológica, o general Abreu e Lima, com relação ao
assunto destas notas escreveu: “No dia 28 de fevereiro de 1843 apareceu de dia
à simples vista um imenso cometa caudal muito perto do sol; porém não foi mais
visto de dia, até que no dia 5 de março, em que saiu a divisão naval, que foi
buscar a futura imperatriz do Brasil, tornou a aparecer, logo à noite, com sua
majestosa cauda, apresentando uma coluna luminosa de 42 graus, quase metade do
quadrante. Esta cauda dirigia-se de OSO a ENE. Apresentava na sua parte superior
uma curva mui sensível, cuja convexidade se voltava para o Noroeste. Foi visível
por mais de um mês.”
Sobre o cometa Laugier foi também publicado no Jornal do Comércio,
de 9 de março de 1843, extenso artigo assinado por Sautier De Sauve e datado
de Genebra.
De tudo resulta que, como hoje, o aparecimento de um hóspede viajante suscitou
aqui observações feitas com os poucos meios de que dispúnhamos.
Mais feliz que o de Halley, o viajante de 1843 teve para cantá-lo um grande
poeta. Em vez de versos chatos e gaiatos entoados pelo pessoal da armada, teve
a mimosa e sugestiva inspiração poética que se lê na
Minerva Brasiliense. É da lavra de Dutra e Mello, genial mancebo
falecido aos 23 anos de idade e autor de Uma Manhã na Ilha dos Ferreiros.
Termina assim:
Oh! quem diz que não são místicos do Eterno!
Oh! quem diz que um tal astro ser não possa
O Anjo do sistema que passeia
Visitando os domínios que dirige?
Quem dir que não será cárcere errante
Cheio d’almas de réprobos dum mundo
Vivo, morto e julgado antes do nosso?
Ninguém; certo, ninguém. — Tais conjecturas
São como outras quaisquer soltas ao vento.
Deixemos, pois, vagar na imensidade
Globos que se revolvem:
Procuremos achar-lhes os caminhos,
E vejamos na prática os acertos
Como se cumprirão. — Nem mais devemos. —
Ide, pois, astros pálidos, girando
Solitários no ar. — O Anjo do Globo
Acenando co’a mão queira arredar-vos.
Sábado, 21 de maio de 1910.