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sábado, 15 de agosto de 2026

12P/Pons-Brooks após o outburst de novembro de 2023

Imagem RGB do cometa 12P/Pons-Brooks obtida em 19/11/2023 UT, no Observatório Otívar, na Andaluzia, Espanha. A composição foi feita a partir de uma sequência BVR, usando o filtro R no canal vermelho, o filtro V no canal verde e o filtro B no canal azul.

A imagem registra o cometa poucos dias após o forte outburst iniciado em 14/11/2023 UT. Relatos observacionais indicam que esse evento produziu uma coma brilhante e em expansão, com estruturas complexas de poeira ao redor do núcleo. Na composição RGB, a coma aparece extensa e difusa, com forte condensação central. Nota-se também uma feição escura e curva emergindo da região interna da coma, visível como uma espécie de “sombra” ou arco de menor brilho, possivelmente associada à distribuição anisotrópica do material ejetado e à presença de estruturas de poeira formadas durante a fase pós-outburst.






domingo, 19 de julho de 2026

Cometas 12P/Pons–Brooks e 168P/Hergenrother após episódios de outburst

Imagens RGB produzidas a partir de observações CCD realizadas com telescópios robóticos localizados na Espanha, mostrando os cometas 12P/Pons–Brooks e 168P/Hergenrother após episódios de outburst.

Embora os dois eventos tenham a mesma classificação geral, o comportamento fotométrico das comas foi distinto. No 12P, os índices de cor B−V e V−R apresentaram variações acompanhadas de grande dispersão. O índice B−V não exibiu uma tendência monotônica clara, enquanto V−R sugeriu uma fase temporariamente mais avermelhada.

No 168P, observado entre 6 de outubro e 4 de novembro de 2012, os índices B−V e V−R permaneceram praticamente constantes e sistematicamente mais vermelhos que os valores solares, apesar da forte diminuição do brilho após o outburst.

Imagem RGB do cometa 12P/Pons–Brooks obtida em 25 de julho de 2023

12P/Pons–Brooks — Imagem RGB obtida em 25 de julho de 2023 (UT), no Observatório Otivar, Andaluzia, Espanha.

Imagem RGB do cometa 168P Hergenrother obtida no Observatório do Teide em 13 de outubro de 2012
168P/Hergenrother — Imagem RGB obtida em 13/10/2012 UT no Observatório Slooh, Ilhas Canárias, Espanha. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

C/2024 G3 (ATLAS)

O cometa ATLAS foi registrado na Ponta de Humaitá, em Salvador, no dia 20 de janeiro de 2025. As imagens foram obtidas entre 21h51min e 22h16min UT utilizando uma câmera Canon Rebel T100. As imagens 2 a 6, apresentadas a seguir, são o resultado do alinhamento e soma de cinco sequências corrigidas para poluição luminosa com o software Sequator. As especificações técnicas da primeira imagem de cada sequência estão detalhadas nas respectivas legendas.

De acordo com o COBS, a magnitude visual total do cometa foi estimada em 3,0, o que o tornava fracamente visível a olho nu em áreas urbanas com altos níveis de poluição luminosa.

O núcleo do cometa possui um raio mínimo estimado em 3,2 km, considerando que não seja hiperativo.

Imagem do cometa às 21:51 UT

1) Primeira detecção do cometa. Imagem única obtida às 21:51 UT, com 2 s de exposição, distância focal 55 mm, obturador f/5.6 e ISO 500.

Imagem do cometa às 21:58 UT

2) 21:58 UT, 2 s de exposição, distância focal de 55 mm, obturador f/4.5 e ISO 640. Imagens ligeiramente fora de foco.

Imagem do cometa às 22:01 UT

3) 22:01 UT, 2 s de exposição, 32 mm de distância focal, obturador f4.5 e ISO 1250.

Imagem do cometa às 22:02 UT

4) 22:02 UT, 2 s de exposição, 32 mm de distância focal, obturador f/5 e ISO 800.

Imagem do cometa às 22:05 UT

5) 22:05 UT, 10 s de exposição, 18 mm de distância focal, obturador f/4 e ISO 125.

Imagem do cometa às 22:06 UT

6) 22:06 UT, 10 s de exposição, 18 mm de distância focal, obturador f/4 e ISO 250.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Outburst do cometa 12P/Pons-Brooks

Sequência de imagens obtidas com telescópios de 0,5 m de abertura do Observatório Slooh, localizado no Monte Teide (Espanha), antes e após um outburst do cometa Pons-Brooks, provavelmente iniciado em 14 de novembro de 2023 TU. As imagens foram capturadas no filtro R nas seguintes datas: 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 28 de novembro e 03 de dezembro de 2023 TU, respectivamente.








sábado, 25 de março de 2023

Hercóbulus

Ciência e Misticismo

A crença na existência de um corpo celeste denominado Hercóbulus (ou Hercólubus) aparece em certos meios esotéricos e pseudocientíficos. Não existe, contudo, evidência astronômica que sustente a existência desse objeto ou uma suposta aproximação da Terra.

Em 1984, duas equipes de pesquisadores propuseram uma hipótese para explicar uma aparente periodicidade de aproximadamente 26 milhões de anos nas extinções registradas no passado geológico da Terra. A hipótese envolvia uma companheira distante do Sol, posteriormente denominada Nêmesis, em uma órbita muito excêntrica, com semieixo maior de aproximadamente 88.000 unidades astronômicas, ou 1,4 ano-luz. Durante as passagens pelo periélio, esse objeto poderia perturbar gravitacionalmente cometas da Nuvem de Oort, aumentando temporariamente o fluxo de cometas em direção ao Sistema Solar interior.

A hipótese de Nêmesis nunca foi confirmada. Além das dificuldades dinâmicas do modelo, levantamentos modernos do céu em infravermelho impõem limites muito fortes à existência de grandes corpos desconhecidos nas regiões externas do Sistema Solar. O levantamento WISE, por exemplo, não encontrou objetos do tamanho de Saturno ou maiores até cerca de 10.000 U.A., nem objetos maiores que Júpiter até aproximadamente 26.000 U.A.

Um exemplo de estrela de massa muito baixa nas proximidades solares é DENIS-P J104814.7−395606.1, uma anã de tipo espectral próximo de M9 localizada a cerca de 13 anos-luz. Sua massa é estimada em aproximadamente 0,08 massa solar. A detecção de objetos desse tipo ilustra a capacidade dos levantamentos astronômicos de identificar estrelas muito pouco luminosas nas proximidades do Sol.

Não há evidências observacionais nem soluções orbitais reconhecidas na literatura astronômica que sustentem a existência do chamado Hercólubus. As alegações de que um grande planeta, cometa ou estrela estaria atualmente se aproximando da Terra sem ser detectado são incompatíveis com as observações astronômicas disponíveis. Hercólubus é, portanto, um conceito de origem esotérica, e não um objeto reconhecido pela astronomia.


Nuvem de Oort e o Cinturão de Kuiper

Nuvem de Oort-Öpik e órbitas elípticas, parabólicas e hiperbólicas de alguns cometas hipotéticos. Fonte: Bergamini, D.: 1970, O Universo, Biblioteca da Natureza Life, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, p. 69.

Durante as primeiras décadas do século XX, diversos pesquisadores investigaram os efeitos das perturbações gravitacionais planetárias sobre as órbitas dos cometas. Esses trabalhos foram fundamentais para compreender a origem das órbitas quase parabólicas e aparentemente hiperbólicas observadas em alguns desses objetos.

Strömgren (1914) mostrou que várias órbitas cometárias aparentemente hiperbólicas deixavam de sê-lo quando eram calculadas as órbitas originais, isto é, as trajetórias dos cometas antes de sofrerem perturbações significativas dos planetas gigantes. Os trabalhos posteriores realizados em Copenhague ampliaram o número de órbitas originais calculadas com precisão.

Em 1948, Sinding reuniu resultados para 21 cometas de longo período cujas órbitas originais haviam sido determinadas. Esses dados, juntamente com os estudos de difusão orbital realizados por Van Woerkom (1948), forneceram parte da base observacional utilizada por Jan Oort em seu trabalho de 1950.

A ideia de um reservatório distante de cometas já havia sido proposta por Ernst Öpik em 1932. Oort, entretanto, apresentou em 1950 uma forte evidência observacional para sua existência a partir da distribuição das energias orbitais de cometas de longo período.

Oort analisou 19 órbitas originais consideradas suficientemente precisas e verificou uma concentração acentuada de valores de 1/aorig próximos de zero, correspondente a órbitas com semieixos maiores muito grandes. Ele concluiu que os cometas novos de longo período provinham principalmente de distâncias da ordem de 50.000 a 150.000 U.A. do Sol.

A partir desses resultados, Oort propôs a existência de uma extensa nuvem aproximadamente esférica de cometas envolvendo o Sistema Solar. Sua estimativa original indicava uma população da ordem de 1011 cometas de tamanho observável e uma massa total da ordem de alguns centésimos a um décimo da massa da Terra. As órbitas desses corpos seriam continuamente modificadas por perturbações gravitacionais de estrelas próximas e, como se reconheceu posteriormente, também pela maré gravitacional da Galáxia.

O conceito de cometas dinamicamente novos e velhos está relacionado à história orbital desses objetos. Um cometa dinamicamente novo está fazendo sua primeira passagem, ou uma de suas primeiras passagens significativas, pela região planetária após ter sido enviado da Nuvem de Oort. Um cometa dinamicamente velho já passou anteriormente pela região dos planetas e sofreu perturbações gravitacionais e efeitos físicos decorrentes de passagens anteriores pelo Sistema Solar interior. Portanto, um cometa dinamicamente velho não é necessariamente um cometa de curto período.

Imagem CCD do centauro (2060) Chiron, indicado pelo círculo verde, obtida em 05/05/1999 no Observatório do Pico dos Dias, em Brazópolis, Minas Gerais. Chiron descreve uma órbita caótica entre as regiões orbitais de Saturno e Urano. Os centauros são geralmente considerados uma população transitória proveniente principalmente da região transnetuniana, cujas órbitas foram modificadas por encontros gravitacionais com os planetas gigantes.

Referências

Betzler, A. S.: 1998, Um estudo dos cometas Hale-Bopp e Chiron, Projeto de Final de Curso para a Obtenção do Título de Astrônomo, UFRJ-CCMN/Departamento de Astronomia, Rio de Janeiro, p. 18, 30.

Edgeworth, K. E.: 1949, MNRAS 109, 600.

Fernández, J.: 1980, MNRAS 192, 481.

Jewitt, D. & Luu, J.: 1993, Nature 362, 730.

Kuiper, G. P.: 1951, in Astrophysics: A Topical Symposium, J. A. Hynek ed., McGraw-Hill, New York, p. 357.

Oort, J. H.: 1950, Bull. Astron. Inst. Netherl. 11, 91.

Oort, J. H. & Schmidt, M.: 1951, Bull. Astron. Inst. Netherl. 11, 259.

Öpik, E. J.: 1932, Proc. Amer. Acad. Arts Sci. 67, 169.

Sagan, C. & Druyan, A.: 1985, Cometa, Livraria Francisco Alves Editora S.A., p. 300–301.

Strömgren, E.: 1914, Publ. Obs. Copenhagen 19.

Strömgren, E.: 1947, Publ. Obs. Copenhagen 144.

Van Woerkom, A. J. J.: 1948, Bull. Astron. Inst. Netherl. 10, 445.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

252P/LINEAR

Registro do cometa LINEAR obtido no loteamento Santo Antônio, em Amargosa (BA). As imagens foram capturadas com uma câmera Nikon D80 em 22-03-2016, entre 06h47min e 07h07min UT. A figura (b) é o resultado da soma de nove fotografias, cada uma com 15 segundos de exposição, ISO 1600, obturador f/5,3 e objetiva de 40 mm. As fotografias foram alinhadas e somadas com o software Sequator.

A magnitude do cometa devia ser próxima de cinco na ocasião do registro, segundo observadores da REA-Brasil.

O núcleo deste cometa deve ter um raio de 0,33 km, assumindo que não seja hiperativo. Este foi o menor objeto do sistema solar que consegui registrar até o momento usando uma simples máquina fotográfica.



(a) - Identificação das constelações presentes na imagem (b)
pelo Astrometry.com.


(b) - Um zoom de 250 x do Google Chrome facilita a
 visualização do objeto (seta).


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

C/2022 E3 (ZTF)

Registro do cometa ZTF realizado no bairro Santo Antônio (indicado pela seta), no centro histórico de Salvador. As imagens foram capturadas com uma câmera Canon Rebel T100 no dia 05/02/2023, entre 22h29min e 22h33min UT. A figura (a) resulta da soma de 10 fotografias, cada uma com 15 segundos de exposição, ISO 800, obturador f/3.5 e lente grande-angular (18 mm). As imagens foram alinhadas, somadas e corrigidas para poluição luminosa utilizando o software Sequator.

De acordo com o COBS, a magnitude visual total do cometa devia ser em torno de 5,9, o que está próximo do limite de detecção da minha câmera, dado o ambiente urbano.

O núcleo deste cometa deve ter um raio mínimo estimado em 2,3 km, assumindo que ele não seja hiperativo.

(a) Um zoom de 250× no Google Chrome facilita a visualização do objeto (seta).

(b) Identificação das constelações presentes na imagem (a) pelo Astrometry.net.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

A Composição Química do Cometa 96P/Machholz: Devemos Confiar em Tudo o Que Lemos na Internet?


Diversos canais de divulgação científica na internet apresentaram duas hipóteses para explicar por que o cometa Machholz 1 exibe abundâncias de cianogênio e carbono inferiores às observadas em uma amostra homogênea, criada e atualizada há décadas por pesquisadores do Lowell Observatory (EUA). A primeira hipótese propõe que o cometa tenha se formado em uma região distinta do Sistema Solar, diferente daquela onde se originou a maioria dos cometas da amostra. Essa possibilidade deve ser analisada com cautela, pois há sempre o risco de viés observacional. Tal viés pode estar relacionado à seleção dos objetos estudados, já que astrônomos tendem a observar cometas mais brilhantes, o que favorece a obtenção de dados de melhor qualidade.

A segunda hipótese sugere que o cometa Machholz 1 seja de origem interestelar, ou seja, que tenha se formado fora do Sistema Solar. Embora essa ideia seja instigante, ela permanece altamente especulativa, pois é extremamente difícil determinar a origem interestelar de um cometa periódico apenas com base em sua órbita atual. Além disso, os sistemas exoplanetários provavelmente se formam de maneira semelhante ao nosso, compostos pelos mesmos elementos, ainda que em proporções levemente distintas. Diferenças significativas, como as sugeridas por hipóteses que associam a formação de planetas gigantes a estrelas com alta metalicidade, são exceções e não justificam conclusões precipitadas.

É fundamental manter uma postura crítica diante do que é veiculado na internet. Jornalistas não são cientistas e não têm a obrigação de ser. Além disso, declarações de astrônomos podem, por vezes, ser interpretadas fora de contexto.



Periélio do cometa Machholz 1 registrado através da câmera C3
do satélite SOHO da NASA/ESA.

domingo, 19 de dezembro de 2021

C/2021 A1 (Leonard)

Imagem do cometa Leonard obtida com uma câmera Canon Rebel T100 em 18 de dezembro de 2020 (UT), na Ponta de Humaitá, em Salvador, Bahia. O objeto não era visível a olho nu devido à intensa poluição luminosa no local de observação.

Ao aplicar um zoom de 400% no Google Chrome sobre a imagem, é possível visualizar o aspecto nebular do objeto.

Estima-se que o núcleo desse cometa possua um raio mínimo de 2 km, assumindo que ele não seja hiperativo.


Cometa (seta) - 22h 09m UT - 10 s de exposição, grande angular de
29 mm, obturador f/4.5 e ISO 800. O objeto brilhante é o planeta Vênus.

Autor do blog durante a obtenção das imagens.

Ascenção da Lua com 98,9% de sua superfície iluminada.
A edificação é a 
Igreja e Mosteiro de Nossa Senhora do Monte Serrat.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Observações do Grande Cometa de 1843 no Rio de Janeiro

Artigo do historiador carioca José Vieira Fazenda sobre o Grande Cometa de 1843 no Rio de Janeiro

O artigo, publicado originalmente no jornal A Notícia em 21 de maio de 1910, perto do auge do brilho do cometa Halley, e republicado pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo 95, Volume 149, em 1943, oferece um relato detalhado das observações do Grande Cometa de 1843 no Rio de Janeiro. José Vieira Fazenda descreve minuciosamente a morfologia e a posição do cometa no céu, fornecendo informações valiosas sobre sua aparência e trajetória.

Além das observações científicas, o artigo inclui um poema de Antônio Francisco Dutra e Melo, que captura a majestade do cometa e sua impressionante presença no firmamento. O texto de Fazenda, enriquecido pela arte poética, oferece uma visão compreensiva e poética da importância desse evento astronômico, refletindo a emoção e o impacto que o Grande Cometa de 1843 teve sobre os observadores da época.

Representação do Grande Cometa de 1843 segundo Rubens de Azevedo
Cometa de 1843 segundo o professor Rubens de Azevedo.
Ilustração extraída do livro O Cometa de Halley (Editora do Brasil, 1985).

COMETA

Tanto se tem falado em cometas, que me seria lícito meter também o bedelho em assuntos astronômicos. Recordarei apenas cousas aqui passadas em tempos idos. Não podem, pois, causar pânico as seguintes notas:

Há no museu do Instituto Histórico um curioso quadro, em cuja parte inferior ocorre a seguinte inscrição manuscrita: “Figura do cometa, que apareceu no Rio de Janeiro, no ano de 1843, desenhada por José dos Reis Carvalho, mestre de desenho da Academia de Marinha, como se apresentou à vista pelas sete horas da tarde, primeiro dia de sua aparição. Ele o observou de sua casa situada na face esquerda do Rocio (olhando para oeste) defronte da rua do Tesouro, e lhe adicionou a perspectiva dos edifícios que ficavam também a oeste na direção das visuais dirigidas ao cometa”.

Pelo que se nota, devia ser belíssimo espetáculo, apreciado durante um mês pelos contemporâneos das revoluções de S. Paulo e Minas Gerais, do processo de quatro senadores, das gôndolas e tílburis, do azeite de peixe e do padre Feijó.

Sustos e temores também o tal cometa produzira. Uns prontos para morrer se confessavam e comungavam. Outros até chegaram a fazer testamento.

Sobre o cometa que nos visitou em 43 escreveu uma memória Maximiano Antonio da Silva Leite, sócio correspondente do Instituto Histórico. Antes de citar trechos desse trabalho publicado no tomo 5.º da Revista do Instituto, darei biográficos sobre o autor. Nasceu no último quartel do século 18 e faleceu, diz o dr. Sacramento Blake, no Rio de Janeiro a 20 de agosto de 1844. Estudos na antiga Academia Militar, e sendo capitão do 3.º batalhão da brigada de marinha, foi nomeado lente de Matemáticas da mesma Academia de Marinha a 16 de dezembro de 1822. Mais tarde, a 26 de abril de 1824, foi transferido para a cadeira de Artilharia. Foi jubilado a 18 de janeiro de 1844.

Adverte o autor que, por falta de instrumentos, não pode determinar com precisão as diferentes posições em o céu e por isso se deve considerar aproximação tudo quanto passou a dizer. Guiou-se também por informações. Escreveu sobre a matéria por instância do cônego Januário da Cunha Barbosa.

Começou o cometa a ser visto em 28 de fevereiro. Pessoa de sua confiança assegurou a Maximiano que apreciara o fenômeno cerca do meio dia. Tinha-o visto distante do sol cousa de um côvado, e apresentava a figura do tamanho de uma bola de bilhar, tendo uma pequena cauda. Nos dias 1, 2, 3 e 4 de março ninguém falou mais em cometa.

Em 5 de março (dia em que se fez à vela a esquadra brasileira composta de uma grande fragata e duas corvetas, afim de conduzir a princesa contratada esposa do imperador do Brasil, o senhor d. Pedro II) o céu esteve encoberto e, por isso, não lhe dei atenção; mas, algum tempo depois do sol posto, dissipando-se as nuvens para a banda do oeste, imenso número de pessoas o viram, e então já estava mais afastado do sol; pois a cabeça dele, segundo alguns, pôs-se depois das 7 horas; disseram outros que não perceberam a cabeça. A sua cauda era muito grande, e, segundo notei, nos dias seguintes ocupava no céu um espaço de mais de 50 graus, delgada para a cabeça e alargando para cima, de maneira que me pareceu ter a figura de um trapézio, bem terminado até quasi à extremidade superior, pois aqui começava a desvanecer-se em flocos, mas alargando uniformemente. A sua superfície era lisa e sem poros, exceto na dita extremidade superior; a sua cor era de pérola e representava a imagem de um imenso fogo visto de longe. Eu nunca vi cauda semelhante.

A bordo da nau Pedro Segundo, surta neste porto, foi observada a cabeça a Oés-Sudoeste magnético, e a cauda dirigindo-se por entre Leste e Leste-Nordeste, às 7 3/4 horas da tarde, tempo médio, e que não tardou a pôr-se.

No dia 6 as nuvens não permitiram ver. Em 7 e 8 foi visto a Oés-Sudoeste. Em 9, 10 e 11 não pôde o cometa ser observado.

Em 12 foi visto claramente: a cor da cauda mais fraca, mas a extensão da mesma grandeza. A cabeça mais a Leste e mais ao Norte. A cabeça foi observada a O 1/4 às 9 horas, tempo médio, e desapareceu pouco depois.

Em 13 a cauda vai perdendo a cor. Conserva a mesma extensão. A cabeça caminha para o N e para E.

Em 15 e 16 desapareceu mais tarde. Cita o autor observações até 2 de abril. A 5 deste mês nada mais foi visto.

Entra em seguida o professor Maximiano em algumas consequências destas observações, tirando delas várias deduções. “Constou por notícias vindas de Lisboa, publicadas no Jornal do Comércio, de 1 de maio, que fora visto naquela cidade ao Sul do Tejo, um cometa, em 10 de março deste mesmo ano, porém como não se diz a paragem do céu em que foi visto, não podemos afirmar se era este o mesmo que observamos no Rio”.

Passados 16 dias depois do desaparecimento do cometa, isto é, em 20 de abril, pelas nove horas da noite, viu-se nesta cidade um extraordinário meteoro que muito espantou; assemelhava-se ao fogo expelido por uma pistola de fogo artificial, com cor algum tanto amarelada e esclareceu muito a cidade por espaço de um minuto e extinguiu-se. O seu curso foi de Leste para Oeste, pela mesma paragem onde se tinha visto a cauda do cometa, e daqui veio dizerem que o cometa tinha retrocedido e aberto uma grande boca de fogo em cima da cidade. A noite estava escuríssima. Não se via estrela alguma. Não chovia.

Há na referida memória, escrita em 28 de junho de 1843, um Post scriptum. Cita um correspondente do Times que observou o mesmo cometa visto no Rio de Janeiro no Observatório de Kensington. Tal meteoro foi também apreciado em quase toda a Europa.

Acerca do cometa de 1843 ocorrem ainda no mesmo tomo 5.º da Revista observações feitas em Buenos Aires, por Felipe Senillosa e d. Vicente López, associados ao engenheiro Romero. Tais estudos constam do n. 3.593 de 24 de agosto de 1843 do Diário de La Tarde, de Buenos Aires, enviado graciosamente ao Instituto Histórico por d. Thomas Guido, encarregado de negócios e representante de seu país na corte do Rio de Janeiro. Este interessante artigo foi publicado com anotações também de Maximiano Antonio da Silva Leite.

Sobre o fenômeno meteorológico, de que ora me ocupo, o notável matemático Pedro de Alcântara Bellegarde calculou a órbita. Suas observações figuram na Minerva Brasiliense, sob o título Astronomia. Admitindo a hipótese de que a cauda do cometa de 43 pudesse ter tocado a terra, asseverava que, “se este fenômeno teve lugar, ele nos confirma na opinião de que uma substância tenuíssima, como é a cauda de um cometa, não pode reagir naturalmente sobre a nossa atmosfera.

Com efeito, uma substância tão pouco densa que deixa passar através de muitos milhares de léguas, a imagem das mais pequenas estrelas sem alteração sensível, deve ser dotada de uma densidade e portadora de uma quantidade de movimento tão pequena, que o efeito de seu choque sobre a massa da terra deve ser inapreciável”.

Quando apareceu este cometa (de 43) chegou aqui a nova do descobrimento de um, em outubro, pelo astrônomo Laugier, de Paris. Julgou-se ser o mesmo. Aumentava o interesse de tal identidade a semelhança, que no princípio pretendia Laugier achar no cometa por ele descoberto com o que foi visto na China em 1301. Laugier provou depois o seu engano. Quanto ao nosso, conclue Bellegarde, os seus elementos provam exuberantemente que não era nenhum dos dois.

Na sua Dedução Cronológica, o general Abreu e Lima, com relação ao assunto destas notas escreveu: “No dia 28 de fevereiro de 1843 apareceu de dia à simples vista um imenso cometa caudal muito perto do sol; porém não foi mais visto de dia, até que no dia 5 de março, em que saiu a divisão naval, que foi buscar a futura imperatriz do Brasil, tornou a aparecer, logo à noite, com sua majestosa cauda, apresentando uma coluna luminosa de 42 graus, quase metade do quadrante. Esta cauda dirigia-se de OSO a ENE. Apresentava na sua parte superior uma curva mui sensível, cuja convexidade se voltava para o Noroeste. Foi visível por mais de um mês.”

Sobre o cometa Laugier foi também publicado no Jornal do Comércio, de 9 de março de 1843, extenso artigo assinado por Sautier De Sauve e datado de Genebra.

De tudo resulta que, como hoje, o aparecimento de um hóspede viajante suscitou aqui observações feitas com os poucos meios de que dispúnhamos.

Mais feliz que o de Halley, o viajante de 1843 teve para cantá-lo um grande poeta. Em vez de versos chatos e gaiatos entoados pelo pessoal da armada, teve a mimosa e sugestiva inspiração poética que se lê na Minerva Brasiliense. É da lavra de Dutra e Mello, genial mancebo falecido aos 23 anos de idade e autor de Uma Manhã na Ilha dos Ferreiros. Termina assim:

Oh! quem diz que não são místicos do Eterno!
Oh! quem diz que um tal astro ser não possa
O Anjo do sistema que passeia
Visitando os domínios que dirige?
Quem dir que não será cárcere errante
Cheio d’almas de réprobos dum mundo
Vivo, morto e julgado antes do nosso?
Ninguém; certo, ninguém. — Tais conjecturas
São como outras quaisquer soltas ao vento.

Deixemos, pois, vagar na imensidade
Globos que se revolvem:
Procuremos achar-lhes os caminhos,
E vejamos na prática os acertos
Como se cumprirão. — Nem mais devemos. —
Ide, pois, astros pálidos, girando
Solitários no ar. — O Anjo do Globo
Acenando co’a mão queira arredar-vos.

Sábado, 21 de maio de 1910.

Reprodução do artigo histórico sobre o Grande Cometa de 1843
Página do artigo histórico sobre o Grande Cometa de 1843
Página do artigo histórico sobre o Grande Cometa de 1843
Página do artigo histórico sobre o Grande Cometa de 1843
Página final do artigo histórico sobre o Grande Cometa de 1843

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Tentativa de registro do cometa C/2020 M3 (ATLAS)

Tentativa de registro do cometa ATLAS no Santo Antônio, Centro Histórico de Salvador, em 15/11/2020, entre 01h16 e 01h23 UT. As imagens foram obtidas com uma câmera Canon EOS Rebel T100, equipada com uma lente de 55 mm, utilizando abertura f/5,6 e ISO 1600.

A Figura (a) resulta da soma de 20 fotografias, cada uma com 15 segundos de exposição, correspondendo a um tempo total integrado de 300 segundos. As imagens foram alinhadas, somadas e corrigidas do gradiente do fundo de céu com o software IRIS.

O cometa não é perceptível na Figura (a) na posição indicada pela efeméride do site Heavens-Above, apresentada na Figura (b). A observação foi realizada em uma região urbana com forte brilho de fundo do céu e, por se tratar de um objeto difuso, a luz do cometa estava distribuída por uma área relativamente grande. Nessas condições, o contraste da coma em relação ao fundo de céu provavelmente foi insuficiente para permitir sua detecção, mesmo após o alinhamento e a soma das imagens.


Figura (a) – Soma de 20 exposições de 15 s. A posição prevista do cometa é indicada pelo círculo.

Figura (b) – Posição prevista do cometa segundo o site Heavens-Above.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

C/2020 F3 (NEOWISE)

Imagens do cometa NEOWISE obtidas com uma câmera Canon Rebel T100 em 27-07-2020 UT, na Ponta de Humaitá, na cidade de Salvador (Bahia).

O núcleo deste cometa deve possuir um raio mínimo de 2,8 km admitindo-se não ser hiperativo.

a) Cometa (seta) - 21h 25m UT - 15 s de exposição, grande angular de
18 mm, obturador f/7 e ISO 800. As localidades de Mar Grande e Itaparica, 
na Ilha de Itaparica, correspondem aos pontos luminosos no horizonte.
 
b) Análise astrométrica da imagem a) efetuada pelo software
online "astrometry.net".


c) Cometa (seta) - 21h 31m UT - 15 s de exposição, grande angular de
18 mm, obturador f/10 e ISO 1600. O cometa apresentava magnitude próxima 
de cinco (5).

d) Soma da imagem a) com outra do mesmo campo obtidas instantes 
depois. As imagens foram alinhadas, somadas e corrigidas de poluição
 luminosa com o software Sequator.


sexta-feira, 19 de junho de 2020

BVR photometry of comets 63P/Wild 1 and C/2012 K1 (PANSTARRS)

No dia 17 de junho foi publicado o artigo "BVR photometry of comets 63P/Wild 1 and C/2012 K1 (PANSTARRS)" na revista "Astrophysics and Space Science". Neste trabalho, fizemos uma analíse de dados obtidos com telescópios em três continentes. Muitas imagens previamente divulgadas neste blog dos cometas 63P e K1 foram usadas neste trabalho. Obtivemos os períodos de rotação nuclear, nível de coesão estrutural, parâmetros morfológicos e cores das comas destes dois cometas.  O resumo do artigo é apresentado abaixo:

"We analyzed BVR photometry of comets 63P/Wild 1 and C/2012 K1 (PANSTARRS) imaged between March 2013 and May 2014 with telescopes ranging from 0.20 m to 2.0 m aperture in Australia, Europe, and the United States. We found R-band nuclear magnitudes H0=16.3±0.6 and 12.52±0.02 for comets 63P and K1, respectively. With a geometric albedo of 0.04, the nuclei have radii of 1.5±0.4 and 8.67±0.08 km, respectively. Using the Lomb-Scargle periodogram, we found that the most likely rotation periods of these nuclei are 14±2 h and 9.4±0.4 h, with peak-to-peak light curve amplitudes of 0.85±0.01 and 0.4±0.2 magnitudes, respectively. The inner coma of both comets was probably optically thin and in steady state during our observations. The average normalized reflectivity gradient S' of the coma of 63P and K1 is 10±15 (1σ) and 8±7%/100 nm in the spectral range between 440 and 647 nm, indicating that both comets are statistically redder than the Sun. The Kruskal-Wallis H-test indicates that the distribution of the B-V, V-R, and B-R color indices of the objects is similar, indicating some similarity in the physical or mineralogical properties of the comas of these comets."

Curvas de luz rotacionais do cometas 63P e K1.


Você pode encontrar algumas imagens usadas neste artigo nos seguintes links: 63P (1 e 2) e K1 (1, 2 e 3).

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Viação Cometa

A Viação Cometa S.A. é uma empresa de transporte rodoviário de passageiros cuja origem remonta à década de 1940. Segundo a própria empresa, o nome “Cometa”, adotado em 1948, foi inspirado em um desenho de cometa que já existia na lateral dos ônibus da Empresa Auto Viação São Paulo-Santos, adquirida no ano anterior. A origem desse desenho, porém, não é esclarecida. É tentador imaginar alguma relação com o Grande Cometa do Sul (C/1947 X1), objeto excepcionalmente brilhante que se tornou visível no Hemisfério Sul em dezembro de 1947, justamente nesse período. Trata-se, entretanto, de uma hipótese, e não de uma associação documentalmente comprovada.

Utilizei recentemente os serviços da empresa e algo me chamou a atenção: uma de suas classes de ônibus recebe o nome “Halley”. Apesar da referência ao cometa mais famoso da história da astronomia, a imagem utilizada no veículo é, na realidade, do cometa C/1995 O1 (Hale-Bopp), cuja aparição em 1997 foi muito mais espetacular do que a passagem do Halley em 1986.

A fotografia do Hale-Bopp utilizada pela empresa foi muito provavelemente obtida por Erich Kolmhofer e Herbert Raab em 4 de abril de 1997, no Observatório Johannes Kepler, em Linz, Áustria.

A escolha é curiosa, mas compreensível. Embora o Hale-Bopp tenha sido visto por milhões de pessoas e tenha sido um dos grandes cometas do século XX, o nome Halley possui um reconhecimento histórico muito maior. Assim, o ônibus acaba reunindo o nome do cometa mais famoso com a imagem de um dos mais espetaculares de tempos recentes.


Ônibus da Viação Cometa fotografado em 02-01-2020, na rodoviária de Araraquara (SP).

domingo, 29 de setembro de 2019

BVR broadband photometry of comets 1P/Halley and 4P/Faye

Na última segunda-feira, 23 de setembro de 2019, o artigo "BVR broadband photometry of comets 1P/Halley and 4P/Faye" foi aceito para publicação na revista "New Astronomy". Este trabalho é o resultado de uma parceria bem-sucedida entre mim e Orahcio Felício de Sousa, ambos professores da UFRB. Fiquei extremamente feliz com esta publicação, pois tive a oportunidade de contribuir com o estudo de dois cometas importantes para a história da astronomia.

Edmund Halley previu, em 1705, que o cometa 1P retornaria ao sistema solar interior com décadas de antecedência. O cometa Faye foi o primeiro a ser observado pelo Hubble Space Telescope, numa passagem próxima da Terra (0,6 ua) em 1991.

Neste trabalho, nós pudemos correlacionar observações visuais e fotométricas do cometa Halley feitas por observadores brasileiros e estrangeiros, algo surpreendentemente inédito na literatura, apesar do volume de dados coletados pelo PBOCH (Programa Brasileiro de Observação do Cometa Halley).

O resumo melhorado do trabalho é apresentado a seguir:


"We have analyzed the visible broadband photometry data of comets 1P/Halley and 4P/Faye obtained during their perihelion transits in 1986 and 1991, respectively, at the Sanglokh Observatory (Tajikistan) and the European Southern Observatory (Chile). Application of the Lomb-Scargle periodogram to the magnitudes in the V-band and the B-V color index shows that the most probable periodicities are 79 ± 6 and 7.36 ± 0.04 days for 1P and 6.1 ± 0.3 days for 4P, respectively. After comparing the results of color and magnitude periodograms, we find that there is a systematic difference in the number of identified signals and the confidence level of the same periodicity in the periodograms. Our results suggest that searches for periodicities in the color of the coma of active comets should be complementary to those in magnitudes. We have demonstrated that the distribution of the B-V color of Faye's coma was invariant during and after the possible occurrence of a post-perihelion outburst. We have demonstrated a symmetry in the H0 photoelectric absolute magnitude of comet Halley before and after perihelion. The same symmetry were not observed in the B-V color index. We find that the absolute magnitude H0 of comet Halley differs from each other when calculated from the visual or photoelectric magnitudes, which is due to the section of the coma used to estimate these magnitudes. We have also found that this difference in photometric aperture can affect the comparison of B-V color distributions between active comets."


Curvas de luz rotacionais dos cometas Halley e Faye apresentadas neste artigo.
 A fase 0.33 corresponde a um outburst no cometa Halley.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

46P/Wirtanen e Mira Ceti

Registro do cometa 46P/Wirtanen obtido em Salvador, na noite de 6 de dezembro de 2018 (UT). A imagem resulta da soma de três fotografias, cada uma com 15 segundos de exposição, realizadas com uma câmera Zenit 12XS. As imagens foram alinhadas e combinadas com o software IRIS. O filme utilizado foi um Kodak ASA 200. Na ocasião, a magnitude visual do cometa era aproximadamente cinco, o que o tornava um objeto difícil de registrar sob o céu urbano.

O cometa Wirtanen foi originalmente selecionado como alvo da missão Rosetta, mas acabou sendo substituído pelo cometa 67P devido à indisponibilidade do foguete Ariane 5 durante a janela planejada de lançamento.

Esta mesma câmera analógica foi utilizada para registrar os cometas Hale-Bopp, Holmes, Hyakutake, LINEAR, Machholz e NEAT. As fotografias correspondentes estão disponíveis em outras postagens deste blog.


Cometa 46P (trilha verde, seta negra) e a estrela variável Mira Ceti, 
com um brilho um pouco menor que o do máximo de 26-11-2018.

Imagem corrigida da falta de uniformidade de brilho do céu. A correção
foi efetuada com o software IRIS.

domingo, 6 de maio de 2018

Por que o cometa Halley "micou" em 1986 ? - Parte 2

Comparação das dimensões angulares do cometa 1P/Halley em imagens obtidas próximas de suas máximas aproximações à Terra nas aparições de 1910 e 1986. Em 1910, o cometa passou a cerca de 0,15 UA da Terra em 20 de maio; em 1986, sua maior aproximação ocorreu em 11 de abril, a aproximadamente 0,42 UA.

A fotografia de E. E. Barnard, obtida em 29 de maio de 1910 (Fig.1), utilizou uma placa fotográfica e o telescópio Bruce de 10 polegadas do Observatório de Yerkes. A imagem de 1986 apresentada abaixo foi registrada em filme fotográfico colorido por Nelson Falsarella (Fig.2). As diferenças entre as duas fotografias resultam não apenas das características dos materiais fotográficos e dos instrumentos utilizados, mas também das condições geométricas muito distintas das duas aparições.

Em 1986, apesar de o cometa ter sido visível a olho nu sob céus favoráveis, sua natureza difusa fazia com que sua percepção dependesse fortemente da transparência atmosférica e da poluição luminosa. Na fotografia de 11 de abril, a coma apresenta aproximadamente 0,5° de diâmetro, valor comparável, em ordem de grandeza, ao tamanho angular da Lua Cheia.


Fig. 1 – Fotografia do cometa Halley obtida em 29 de maio de 1910 por E. E. Barnard, no Observatório de Yerkes, nos Estados Unidos. Foi utilizado o telescópio fotográfico Bruce, de 10 polegadas (aproximadamente 0,25 m) de abertura. A fotografia foi posteriormente publicada pelo New York Times. A solução astrométrica da imagem digitalizada fornece um campo de aproximadamente 7,44° × 5,63° e uma escala de cerca de 33,8 segundos de arco por pixel. O aspecto trilhado das estrelas resulta do acompanhamento do movimento aparente do cometa durante a exposição. A cauda registrada na imagem se estende por aproximadamente 5,4°.

Campo de visão correspondente à fotografia anterior.
Imagem gerada pelo serviço online Astrometry.net.

Fig. 2 – Detalhe de uma fotografia obtida pelo astrônomo amador brasileiro Nelson Falsarella, em São José do Rio Preto (SP), em 11 de abril de 1986, às 05:50 UT. Foi utilizado filme Kodacolor VR 400 ASA, com 210 s de exposição. As câmeras empregadas por Falsarella nessa série de observações foram Pentax K1000 e Zenit 12XP. A solução astrométrica da imagem fornece um campo de aproximadamente 7,33° × 6,81° e uma escala de cerca de 117 segundos de arco por pixel. A coma apresenta aproximadamente 0,5° de diâmetro, valor semelhante ao diâmetro angular aparente da Lua cheia.

Campo de visão correspondente à fotografia anterior.
Imagem gerada pelo serviço online Astrometry.net.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Por que o cometa Halley "micou" em 1986 ? - Parte 1

O cometa Halley teve um encontro particularmente espetacular com a Terra em 1910. Naquela passagem, apresentou grande brilho, com magnitude visual aparente entre 0 e 1, e uma cauda cujo comprimento foi estimado em cerca de 70 graus. Essas características geraram enorme expectativa em relação ao seu retorno ao Sistema Solar interior em 1986. No entanto, sua aparição nesse retorno foi considerada decepcionante por muitos observadores. Em abril de 1986, cerca de dois meses após o periélio, o Halley apresentava magnitude visual próxima de 2 e uma cauda com comprimento máximo entre 10 e 20 graus.

Quais seriam as possíveis causas dessa grande diferença de aparência morfológica entre duas passagens consecutivas? Podemos considerar, sobretudo, fatores observacionais e geométricos:

i) Em 1910, a maior parte da população mundial vivia sob céus muito mais escuros do que os atuais, com pouca ou nenhuma poluição luminosa. Isso favorecia a observação de estruturas tênues na coma e na cauda do cometa, que hoje seriam facilmente ofuscadas em áreas urbanas.

ii) A geometria Terra–Sol–cometa foi muito menos favorável em 1986. Como mostra a Fig. 1, o Halley encontrava-se a cerca de 60 milhões de quilômetros da Terra em sua máxima aproximação, muito mais distante do que os cerca de 22 milhões de quilômetros registrados em maio de 1910. Essa diferença contribuiu para reduzir seu brilho aparente. Além disso, a geometria orbital também dificultou sua observação. Em 1910, no auge do brilho, o cometa era visível ao entardecer. Em 1986, ao contrário, podia ser observado principalmente na segunda metade da noite e durante a madrugada, o que naturalmente reduziu o número de observadores ocasionais.


Fig. 1 – Cometa Halley no instante de sua máxima aproximação da Terra, em 11 de abril de 1986.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

TCC de Alberto Silva Betzler

Em 30 de outubro de 1998, defendi meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Astronomia na UFRJ. O trabalho tratou da análise de dados fotométricos do centauro (2060) Chiron e do cometa C/1995 O1 (Hale-Bopp) e esteve associado a três artigos publicados em periódicos internacionais.

No capítulo 2, analisei três ocultações estelares pela coma do cometa Hale-Bopp, registradas em junho de 1996 no Observatório do Pico dos Dias, em Minas Gerais. Esses resultados foram publicados apenas em 2017, ou seja, 19 anos após a apresentação do meu TCC.

Como forma de registrar essa etapa da minha trajetória acadêmica e também de auxiliar estudantes que se encontrem em situação semelhante, disponibilizo meu TCC para consulta e download neste link.


Observatório do Valongo, sede do curso de Astronomia da UFRJ. Fonte: Wikimedia Commons.

Minha Vivência com o Colonialismo Cultural na Ciência

Esta postagem tem um caráter de reflexão e de registro para futuras gerações de cientistas brasileiros. Em 15 de dezembro de 2022...