domingo, 22 de fevereiro de 2026

Rosaly Lopes, um exemplo de pesquisadora

 

Imagem que mostra um momento do seminário da professora Rosaly.

A professora Rosaly Lopes é um exemplo de pesquisadora que inspira por sua postura profissional. Atua em um centro de pesquisa de excelência, com recursos muito superiores aos da maioria das instituições, sem abrir mão de ser simpática, educada e generosa. Mesmo com uma rotina exigente e muitos convites para seminários, mantém-se disponível para atender solicitações. Foi uma honra interagir com ela no XXV Curso de Extensão em Astronomia da UFBA, em 22/01/2026.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Universidade pública: por que o Brasil ainda insiste no funil de entrada?


Quadro de esquete do programa Hermes & Renato retratando
o personagem “Charlinho”.

O ponto estrutural do ensino universitário público é este: no Brasil, o acesso às universidades públicas é, em regra, condicionado a processos seletivos (vestibulares e/ou ENEM/SISU), o que cria um funil de entrada. Em contraste, na Argentina, muitas universidades públicas adotam modelos de ingresso mais amplo, frequentemente com ciclos iniciais e filtros ao longo do percurso acadêmico (por exemplo, o CBC), em um arranjo historicamente associado às reformas universitárias iniciadas em 1918.


Esse arranjo vem sendo mantido apesar de restrições econômicas e fiscais, em um país cujo PIB nominal é significativamente menor que o do Brasil (da ordem de um quarto a um terço, a depender do ano e do câmbio). Diante disso, a questão é por que o Brasil continua tratando provas eliminatórias como mecanismo central de acesso, em vez de avaliar alternativas de entrada mais amplas, acompanhadas de políticas de permanência e de uma estrutura acadêmica capaz de absorver a demanda.

Quando esse tema fica fora da pauta, o debate público tende a se concentrar em episódios de alta repercussão emocional, como a aprovação de um estudante pobre de Salvador em medicina na USP. Isso acaba virando uma versão triste da narrativa do “menino Charlinho que só queria estudar”, célebre esquete do programa Hermes & Renato, que expõe como a superação quase sobre-humana é celebrada por nossa imprensa e por parte da sociedade, em vez de se discutir soluções estruturais. Com isso, questões como critérios de acesso, permanência e prioridades de política pública recebem menos atenção do que merecem.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Ensaio de ocultação estelar — (11978) Makotomasako

Em 10/02/2026, fiz um ensaio, a partir do centro de Salvador, para registrar a ocultação da estrela Tycho-2 1823-285-1 (Figura 1) pelo asteroide do cinturão principal  (11978) Makotomasako, prevista para 11/02/2026, usando um telescópio Unistellar eVscope 2 do Planetário da UFBA. No site do fabricante, a previsão indicava uma janela de observação em UTC de 21:45:00 a 21:55:21, com coordenadas-alvo RA = 04h 15m 48s (63,95066°) e Dec = +26° 34′ 01″ (26,56692°).

Ocultações estelares são análogas a eclipses solares vistos da Terra, mas com asteroides no lugar da Lua e estrelas no lugar do Sol. Sua observação permite estimar, com alta precisão, as dimensões e a forma projetada do asteroide, além de possibilitar a detecção de satélites ou anéis. O albedo, isto é, a fração de luz refletida pela superfície, não é obtido diretamente pela ocultação; em geral, ele é inferido ao combinar o diâmetro medido na ocultação com a magnitude absoluta (H) do asteroide. O tipo taxonômico também pode sugerir valores típicos de albedo, por estar relacionado à composição e às propriedades da superfície, mas essa estimativa é indireta. Obter informações por observação direta da superfície é difícil para a maioria dos asteroides, devido ao baixo brilho e ao pequeno tamanho aparente.



Figura 1 — Esta imagem é o resultado do empilhamento de sete exposições de 0,2 s, semelhantes à da Figura 2, o que aumentou a relação sinal-ruído em aproximadamente 2,6× (≈ √7) em relação ao registro individual. Imagem gerada pelo aplicativo online “Astrometry”.


No ensaio, usei tempo de exposição de 200 ms (0,2 s) e ganho de 30 dB, conforme recomendado pelo fabricante. A estrela-alvo é listada com magnitude 11,51, e a queda prevista durante a ocultação é de 6,09 magnitudes.

O que significa “30 dB” aqui? É o ganho eletrônico (amplificação) aplicado ao sinal do sensor. Em termos de amplitude, 30 dB ≈ 31,6× (1030/20) de amplificação. Isso aumenta o sinal, mas também amplifica o ruído e pode facilitar saturação em pixels brilhantes. Não é “contraste” e não é, por si só, uma medida direta de relação sinal-ruído.

O telescópio apontou corretamente para a estrela, com desvio inferior a uma dezena de segundos de arco em relação à posição catalogada em ascensão reta e declinação, e ela ficou facilmente visível a partir do centro de Salvador com tempo de exposição de 0,2 s (Figura 2).

Figura 2 – Primeira imagem da sequência obtida
com tempo de exposição de 0,2 s. A estrela a ser ocultada está no
meio da imagem, cuja orientação vertical é a inversa da Figura 1.

  • A linha vermelha marca a linha central (centralidade) da faixa prevista da sombra.
  • As linhas azuis indicam o caminho previsto e a escala associada ao tamanho estimado do asteroide.
  • As linhas laranjas delimitam a incerteza de 1σ na predição da faixa.

Figura 3

O que é “1σ”? “1σ” significa um desvio-padrão da incerteza: é uma faixa que representa a dispersão esperada da posição prevista da sombra no solo. Em geral, essa incerteza é dominada pela incerteza da efeméride (órbita) do asteroide e, em menor grau, pela posição catalogada da estrela. O diâmetro do asteroide afeta principalmente a largura da sombra e as cordas possíveis, mas não é o principal responsável pelo deslocamento do caminho central previsto.

Não registrei o evento em campo por razões logísticas: a faixa prevista tocaria a Terra a algumas dezenas de quilômetros do centro de Salvador, numa região do município de Simões Filho, sem um local seguro para parada e operação. Além disso, por volta de 18:45 de 11/02/2026 (hora de Brasília), o céu ainda estava claro, o que dificultaria a aquisição.

Ainda assim, o ensaio mostra que é muito viável registrar ocultações estelares por asteroides (e, em princípio, por cometas) com este instrumento, mesmo em áreas urbanas com forte poluição luminosa, como no meu sítio observacional, onde o céu deve corresponder à classe 8 na escala de Bortle.


domingo, 8 de fevereiro de 2026

Testes com o telescópio Unistellar do Planetário da UFBA

Registro de alguns objetos astronômicos visíveis de Salvador nas noites de 06, 08 e 10/02/2026, usando um telescópio Unistellar eVscope 2. As imagens são bastante automatizadas, o que reduz um pouco o lado “mão na massa” da astronomia amadora: localizar o objeto no céu, capturar a sequência e processar os dados no computador. Para uso científico, porém, essa praticidade é justamente o que me interessa.

Os nomes dos objetos e os parâmetros técnicos de aquisição estão nas próprias imagens. O tipo de objeto (por exemplo, aglomerado aberto ou nebulosa) e os números de catálogo aparecem nas legendas. Segundo o site Astrometry, o campo de visão é de 39,7 × 39,7 minutos de arco, o que significa que a Lua inteira cabe com folga em uma única imagem obtida com esse telescópio.

Nebulosa NGC-1977 - Órion.

Nebulosa M-42 - Órion.

Aglomerado aberto M-41 - Cão Maior.

Aglomeraddo aberto M-38 - Cocheiro.

Aglomerado aberto M-37 - Cocheiro

Aglomerado aberto M-35 - Gêmeos.


Nebulosa NGC-2024 - Órion.


Galáxia NGC-5128 - Centauro.

Aglomerado Globular NGC-5139 - Centauro.

Aglomerado aberto NGC-4755 - Cruzeiro do Sul.

Lua crescente e a uma altura inferior a 20° acima
do horizonte,o que justifica o tom avermelhado da imagem.


Nebulosa NGC-3372 - Carina.


Galáxia NGC-2280 - Cão Maior.

Aglomerado aberto NGC-2516 - Carina.


Nebulosa M-1 - Touro.

Aquela velha perguntinha: o que é o universo, afinal

Foto de um globo de vidro com a representação de uma galáxia espiral, que me lembrou muito o final de Men in Black (1997). Não resisti e resolvi reproduzir.

Por mais louco que pareça, ciência não é lugar para descartar uma ideia só porque ela soa absurda. O critério não é “parece estranho”, é “dá para confrontar com o que observamos?”. E como observamos uma parte muito pequena do universo, é bem provável que nossas hipóteses também sejam pequenas e provisórias. É como uma formiga tentando entender o mundo inteiro andando no meio de um deserto.

Minha Vivência com o Colonialismo Cultural na Ciência

  Esta postagem tem um caráter de reflexão e registro para futuras gerações de cientistas brasileiros. Em 15 de dezembro de 2022, enviei uma...