domingo, 20 de setembro de 2026

Moracy Marques Coimbra e a construção de telescópios no MAST

Aos 14 anos de idade, em 1987, frequentei o curso de construção de telescópios do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) e, sob a orientação de  Moracy Marques Coimbra, construí um telescópio newtoniano. Eu era o aluno mais novo do curso.

O MAST fica em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, relativamente longe de onde eu morava, no Horto Florestal. Pegava dois ônibus para chegar ao museu e fazia esse percurso quase todos os dias, de segunda a sábado, durante praticamente um ano inteiro. Foi minha primeira experiência andando sozinho de ônibus para um lugar tão distante de casa.

Minha mãe teve um papel muito importante nessa história, pois me deu total apoio naquela empreitada. Em uma ocasião, chegou a carregar comigo pesadas chapas de aço que seriam utilizadas na construção da montagem equatorial do telescópio. Havíamos comprado o material num sábado, na Rua Bela, em São Cristóvão, numa época em que ainda não existia ali o viaduto da Linha Vermelha. Em outro dia, fomos ao SAARA, no Centro do Rio de Janeiro, comprar os pós abrasivos de carbeto de silício, os chamados carborundos, em granulometrias que iam de 80 a 1500, utilizados no desbaste e refinamento da superfície de vidro do espelho primário.

O professor Coimbra tinha um temperamento difícil e um estilo de condução que, em alguns momentos, podia tornar a convivência complicada. Ainda assim, teve um papel importante na formação de muitos alunos e orientou com sucesso a construção de dezenas de telescópios. Hoje entendo que esse resultado se deveu tanto à sua experiência técnica quanto ao grande empenho dos participantes em concluir seus instrumentos. Também é preciso considerar o contexto dos anos 1980, quando certos comportamentos inadequados eram menos questionados socialmente, embora já fossem problemáticos mesmo naquela época.

Com muita persistência, concluí um telescópio newtoniano de 18 cm f/8. Curiosamente, usei-o muito pouco. Acabei vendendo-o e empreguei parte do dinheiro na compra de um newtoniano de 30 cm f/6, construído pelo saudoso Aguirre, de Vila Valqueire. Esse telescópio permanece comigo até hoje.

Anos mais tarde, soube que o projeto do instrumento construído no curso era inspirado nos célebres telescópios Cave Astrola e que algumas das técnicas empregadas na confecção do espelho primário não estavam entre as mais usuais na construção amadora de telescópios.

Hoje sou astrônomo profissional e professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e continuo considerando aquele curso uma excelente iniciativa do professor Ronaldo Rogério de Freitas Mourão durante sua gestão à frente do MAST.

Para mim, porém, sua importância foi muito além da construção de um telescópio. Sendo ainda tão jovem, aquele curso me colocou em contato direto com óptica, mecânica e astronomia observacional. Também me apresentou a materiais didáticos em língua inglesa, constituindo meu primeiro contato efetivo com o idioma em um contexto científico. 

Lamento que atualmente não existam mais iniciativas desse tipo com a mesma continuidade. Um curso assim pode fazer muito mais do que ensinar alguém a construir um telescópio: pode despertar vocações e estimular a formação prática de futuras gerações de cientistas, engenheiros e astrônomos amadores em nosso país.




sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Planetário da UFBA registra eclipse lunar quase total sobre Salvador

Imagens mostram a diminuição e a posterior recuperação do brilho da Lua durante sua passagem pela sombra da Terra

Salvador, 28 de agosto de 2026 – A câmera de monitoramento de todo o céu, conhecida como câmera all-sky, instalada no Planetário da Universidade Federal da Bahia, registrou o eclipse lunar parcial ocorrido entre a noite de quinta-feira, 27 de agosto, e a madrugada de sexta-feira, 28 de agosto.

O vídeo divulgado pelo Planetário da UFBA condensa em poucos segundos aproximadamente quatro horas e meia de observação, entre 22h24 e 2h52. Nesse intervalo, é possível acompanhar desde o início da fase penumbral até praticamente o fim da fase parcial do eclipse.

Nas imagens, é possível perceber a diminuição gradual do brilho aparente da Lua. O menor brilho ocorre próximo ao máximo do eclipse, por volta de 1h12, quando a Lua estava mais profundamente imersa na umbra, a região mais escura da sombra projetada pela Terra.

A magnitude umbral do eclipse foi de 0,930. Isso significa que, no momento máximo, cerca de 93% do diâmetro aparente da Lua estava imerso na umbra. Em termos de área projetada do disco lunar, aproximadamente 96,2% estava coberto pela região mais escura da sombra terrestre. Por isso, embora tenha sido um eclipse quase total, sua classificação astronômica é de eclipse lunar parcial.

Depois do máximo, o processo se inverteu. À medida que a Lua saiu da umbra, uma parcela cada vez maior de seu disco voltou a receber diretamente a luz do Sol e seu brilho aumentou progressivamente. A fase parcial terminou às 2h51.

Um eclipse lunar acontece quando o Sol, a Terra e a Lua ficam aproximadamente alinhados, com a Terra entre o Sol e a Lua. Nessa configuração, a sombra da Terra é projetada no espaço e alcança a Lua. A região externa e mais clara dessa sombra é chamada penumbra, enquanto a região central e mais escura recebe o nome de umbra.

Em Salvador, a fase penumbral começou às 22h23 de 27 de agosto. A Lua entrou na umbra às 23h33, o máximo ocorreu às 1h12 de 28 de agosto, a fase parcial terminou às 2h51 e o eclipse penumbral chegou ao fim às 4h01.

Crédito das imagens: câmera all-sky do Planetário da UFBA.



quinta-feira, 20 de agosto de 2026

SEBIT tem voo interrompido em Alcântara: e o VSB-30?

Ontem, 19 de agosto de 2026, por volta das 16h30, horário de Brasília, foi lançado do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, o SEBIT, foguete suborbital multipropósito desenvolvido pela empresa aeroespacial sul-coreana INNOSPACE. O veículo utiliza um motor híbrido de classe de três toneladas de empuxo e foi projetado para transportar equipamentos e experimentos a altitudes entre 50 e 100 km.

O voo inaugural, entretanto, durou apenas cerca de 35 segundos. Segundo informações divulgadas após o lançamento, o SEBIT apresentou um desvio da trajetória planejada e, por razões de segurança, a Força Aérea Brasileira acionou o Sistema de Terminação de Voo (FTS). O veículo caiu no mar, dentro da zona de segurança previamente estabelecida. Não houve feridos nem danos materiais. Até o momento, não foi divulgada a altitude atingida pelo foguete antes da terminação do voo.

Imagens do voo do SEBIT a partir do Centro de Lançamento de Alcântara. Reprodução/G1, via Diário do Centro do Mundo.


Uma boa pergunta para quem acompanha o Programa Espacial Brasileiro é: e o VSB-30?

O Brasil já dispõe de um veículo suborbital desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) com um histórico operacional bastante mais longo. O VSB-30 é um foguete de dois estágios a propelente sólido, capaz de transportar cargas úteis científicas e tecnológicas de até 400 kg e atingir cerca de 270 km de altitude. Em missões de microgravidade, pode proporcionar aproximadamente seis minutos acima de 110 km. O veículo acumula dezenas de lançamentos bem-sucedidos e já foi utilizado no Brasil, na Suécia, na Noruega e na Austrália, inclusive em programas científicos europeus.

Isso não significa que SEBIT e VSB-30 sejam veículos idênticos. O SEBIT utiliza propulsão híbrida, é monoestágio e foi concebido para missões na faixa de 50 a 100 km, enquanto o VSB-30 é um foguete de sondagem de maior desempenho. Existe, porém, uma clara sobreposição nas aplicações: experimentos científicos, testes tecnológicos e pesquisas em ambiente suborbital e de microgravidade.

A utilização comercial de Alcântara por empresas estrangeiras pode gerar receita, experiência operacional e maior atividade para o centro de lançamento. O problema estratégico é outro: por que não dedicar esforço semelhante para ampliar a utilização, modernizar e comercializar também os veículos desenvolvidos no Brasil?

Cooperação internacional é necessária e Alcântara deve receber clientes estrangeiros. Mas um centro de lançamento brasileiro não pode se transformar apenas em infraestrutura para o desenvolvimento e a consolidação comercial de lançadores de outros países. Se o objetivo é autonomia tecnológica, a experiência e os recursos obtidos com essas operações precisam caminhar junto com investimentos consistentes nos lançadores nacionais.

sábado, 15 de agosto de 2026

12P/Pons-Brooks após o outburst de novembro de 2023

Imagem RGB do cometa 12P/Pons-Brooks obtida em 19/11/2023 UT, no Observatório Otívar, na Andaluzia, Espanha. A composição foi feita a partir de uma sequência BVR, usando o filtro R no canal vermelho, o filtro V no canal verde e o filtro B no canal azul.

A imagem registra o cometa poucos dias após o forte outburst iniciado em 14/11/2023 UT. Relatos observacionais indicam que esse evento produziu uma coma brilhante e em expansão, com estruturas complexas de poeira ao redor do núcleo. Na composição RGB, a coma aparece extensa e difusa, com forte condensação central. Nota-se também uma feição escura e curva emergindo da região interna da coma, visível como uma espécie de “sombra” ou arco de menor brilho, possivelmente associada à distribuição anisotrópica do material ejetado e à presença de estruturas de poeira formadas durante a fase pós-outburst.






domingo, 9 de agosto de 2026

Um adendo à Escala de Kardashev: energia, eficiência e megaestruturas

Excelente vídeo do canal Central Pandora sobre megaestruturas na ficção científica. O único adendo que eu faria é que a escala original de Kardashev vai apenas do tipo I ao III. Civilizações capazes de utilizar a energia de aglomerados de galáxias ou de todo o Universo são extensões posteriores da escala, populares sobretudo em vídeos mais sensacionalistas, mas não fazem parte da proposta original de Kardashev.

A escala surgiu no contexto das primeiras discussões sobre a possibilidade de detectar civilizações tecnologicamente avançadas. Na mesma época, Kardashev chegou a considerar a fonte CTA 102, então ainda pouco compreendida, como possível manifestação de uma civilização extraterrestre. Posteriormente, ela foi identificada como um quasar.

Há também uma limitação conceitual importante: a escala associa o avanço tecnológico ao consumo de quantidades cada vez maiores de energia. A evolução da microeletrônica mostra, porém, que o desenvolvimento tecnológico também pode ocorrer pelo aumento da eficiência energética, reduzindo a necessidade de megaestruturas.

Além disso, levantamentos no infravermelho já procuraram assinaturas do calor residual esperado de civilizações dos tipos II e III, sem encontrar até hoje evidências convincentes. Os candidatos identificados permanecem não confirmados e, em muitos casos, apresentam explicações naturais plausíveis.



Minha Vivência com o Colonialismo Cultural na Ciência

Esta postagem tem um caráter de reflexão e de registro para futuras gerações de cientistas brasileiros. Em 15 de dezembro de 2022...