Aos 14 anos de idade, em 1987, frequentei o curso de construção de telescópios do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) e, sob a orientação de Moracy Marques Coimbra, construí um telescópio newtoniano. Eu era o aluno mais novo do curso.
O MAST fica em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, relativamente longe de onde eu morava, no Horto Florestal. Pegava dois ônibus para chegar ao museu e fazia esse percurso quase todos os dias, de segunda a sábado, durante praticamente um ano inteiro. Foi minha primeira experiência andando sozinho de ônibus para um lugar tão distante de casa.
Minha mãe teve um papel muito importante nessa história, pois me deu total apoio naquela empreitada. Em uma ocasião, chegou a carregar comigo pesadas chapas de aço que seriam utilizadas na construção da montagem equatorial do telescópio. Havíamos comprado o material num sábado, na Rua Bela, em São Cristóvão, numa época em que ainda não existia ali o viaduto da Linha Vermelha. Em outro dia, fomos ao SAARA, no Centro do Rio de Janeiro, comprar os pós abrasivos de carbeto de silício, os chamados carborundos, em granulometrias que iam de 80 a 1500, utilizados no desbaste e refinamento da superfície de vidro do espelho primário.
O professor Coimbra tinha um temperamento difícil e um estilo de condução que, em alguns momentos, podia tornar a convivência complicada. Ainda assim, teve um papel importante na formação de muitos alunos e orientou com sucesso a construção de dezenas de telescópios. Hoje entendo que esse resultado se deveu tanto à sua experiência técnica quanto ao grande empenho dos participantes em concluir seus instrumentos. Também é preciso considerar o contexto dos anos 1980, quando certos comportamentos inadequados eram menos questionados socialmente, embora já fossem problemáticos mesmo naquela época.
Com muita persistência, concluí um telescópio newtoniano de 18 cm f/8. Curiosamente, usei-o muito pouco. Acabei vendendo-o e empreguei parte do dinheiro na compra de um newtoniano de 30 cm f/6, construído pelo saudoso Aguirre, de Vila Valqueire. Esse telescópio permanece comigo até hoje.
Anos mais tarde, soube que o projeto do instrumento construído no curso era inspirado nos célebres telescópios Cave Astrola e que algumas das técnicas empregadas na confecção do espelho primário não estavam entre as mais usuais na construção amadora de telescópios.
Hoje sou astrônomo profissional e professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e continuo considerando aquele curso uma excelente iniciativa do professor Ronaldo Rogério de Freitas Mourão durante sua gestão à frente do MAST.
Para mim, porém, sua importância foi muito além da construção de um telescópio. Sendo ainda tão jovem, aquele curso me colocou em contato direto com óptica, mecânica e astronomia observacional. Também me apresentou a materiais didáticos em língua inglesa, constituindo meu primeiro contato efetivo com o idioma em um contexto científico.
Lamento que atualmente não existam mais iniciativas desse tipo com a mesma continuidade. Um curso assim pode fazer muito mais do que ensinar alguém a construir um telescópio: pode despertar vocações e estimular a formação prática de futuras gerações de cientistas, engenheiros e astrônomos amadores em nosso país.

