sábado, 18 de abril de 2026

SIOANI 1969: uma leitura quantitativa do boletim que enfraquece a hipótese extraordinária

Caso XL-CI-040, no boletim do SIOANI de agosto de 1969. O recorte mostra um dos relatos mais narrativamente extraordinários da amostra, associado a paralisia por “jato de luz”, transporte para local desconhecido, presença de tripulantes e tentativa de comunicação. Em termos analíticos, casos assim são mais úteis como evidência do imaginário ufológico do período do que como evidência empírica forte de um fenômeno físico extraordinário.
Esta postagem foi motivada pelo uso recorrente, por parte de autoproclamados pesquisadores de OANIs, dos boletins do SIOANI como suposta prova de seriedade institucional ou de validade científica de casos explorados pela literatura ufológica, bem como pela confiança acrítica depositada em relatos de “testemunhas”. O problema é simples: documentos burocráticos, por mais interessantes que sejam historicamente, não se convertem automaticamente em evidência empírica robusta. Também não deixam de ser frágeis apenas porque circulam sob aparência oficial ou militar.

Esta postagem serve, portanto, como alerta contra leituras ingênuas de documentos oficiais ou semioficiais apresentados ao público como se, por si sós, bastassem para legitimar alegações extraordinárias. Em tempos de recorrente espetacularização política e midiática do tema dos OVNIs, inclusive com a divulgação seletiva de documentos e narrativas por governos estrangeiros, torna-se ainda mais importante distinguir valor histórico, valor burocrático e valor científico.

Para isso, o documento analisado nesta postagem é o boletim do SIOANI, sigla de Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados, ligado à Quarta Zona Aérea em 1969, no contexto da Força Aérea Brasileira e das rotinas de informação do MAER/COMDABRA. O material não é apenas uma coletânea de relatos. Ele também expõe a tentativa de criar uma estrutura doutrinária, administrativa e estatística para receber, classificar e investigar ocorrências de objetos aéreos não identificados no Brasil. Isso já o torna historicamente importante, porque mostra uma forma institucional de tratar o tema, muito diferente da ufologia puramente jornalística ou amadora.

Mas o ponto mais interessante, para além do valor histórico, é outro. Quando se lê o boletim como base de dados, e não como peça de mitologia ufológica, o que aparece é uma amostra fortemente enviesada. Os próprios quadros estatísticos do documento permitem tirar algumas conclusões que, até onde pude verificar nesta leitura, não estão explicitadas no próprio boletim. Em vez de fortalecer a ideia de um conjunto sólido de evidências físicas, eles sugerem uma casuística dominada por contexto humano, filtro institucional, observação subjetiva e repertório cultural.

O primeiro resultado forte vem do horário das observações. O Gráfico 005 resume 70 ocorrências: 9 ao alvorecer, 10 de dia, 9 ao anoitecer e 42 à noite. Se a distribuição fosse minimamente equilibrada entre essas quatro faixas, esperaríamos 17,5 casos por faixa. Um teste qui quadrado simples dá χ² = 45,77, com 3 graus de liberdade e p = 6,3 × 10^-10. Em termos práticos, isso significa que a concentração noturna é forte demais para ser tratada como flutuação casual. E essa concentração não favorece a leitura extraordinária do material. Favorece a hipótese de ambiguidade perceptiva, porque é justamente à noite que referências de tamanho, distância, cor e movimento ficam mais frágeis.

O segundo resultado forte vem do modo de observação. O boletim resume 66 casos quanto ao meio empregado: 56 observações a olho nu, 7 com óculos e 3 com binóculos. Aplicando um teste de aderência entre as três categorias, obtemos χ² = 79,18, com 2 graus de liberdade e p = 6,4 × 10^-18. O resultado é brutal. A amostra depende esmagadoramente de observação desassistida. Isso é crucial, porque um banco de relatos dominado por observação a olho nu é muito mais vulnerável a erro de interpretação, ilusão de perspectiva, memória reconstruída e sugestão cultural. Não é uma base forte para sustentar a existência de objetos extraordinários.

O terceiro resultado forte aparece no perfil social das testemunhas. O gráfico de sexo registra 64 homens e 19 mulheres, totalizando 83 casos. Num teste binomial contra um nulo simples de 50/50, o p valor é 7,4 × 10^-7. Isso mostra que a amostra está muito longe de qualquer neutralidade populacional. Não estamos diante de qualquer brasileiro vendo qualquer coisa. Estamos diante de uma casuística seletiva, formada por quem circulava mais em certos ambientes, tinha mais legitimidade para relatar, mais acesso aos canais de registro ou era mais facilmente aceito pelos investigadores como testemunha válida.

O viés educacional vai na mesma direção, e aqui a comparação com o Brasil da época é especialmente reveladora. No Gráfico 014, o boletim registra 8 analfabetos, 25 em grupo escolar, 13 em nível ginasial, 6 em nível superior e 11 universitários, totalizando 63 casos. Isso significa que 47,6% da amostra tinham pelo menos formação ginasial e que 27,0% estavam nas categorias superior ou universitário. Isso já indica, por si só, uma amostra relativamente escolarizada. Quando se compara esse perfil com o Censo de 1970, a discrepância fica ainda mais clara. Para a população brasileira com 5 anos ou mais, o total era de 79,3 milhões de pessoas. Destas, apenas 893 mil, cerca de 1,1%, estavam na faixa de 13 a 17 anos de estudo, e 2,46 milhões, cerca de 3,1%, estavam na faixa de 10 a 12 anos de estudo. Mesmo reconhecendo que as categorias do boletim e do censo não são idênticas, a diferença é grande demais para ser ignorada. O perfil educacional da amostra do SIOANI está muito acima do perfil educacional médio do Brasil naquele momento. Isso sugere um conjunto de testemunhas mais urbano, mais letrado e mais exposto a jornais, rádio, televisão, ficção científica e à própria casuística dos discos voadores que circulava na época.

Há outros sinais do mesmo padrão. O gráfico de área de observação concentra 33 casos em cidade, contra 12 em sítio, 10 em fazenda e 10 em vila. O boletim também registra 21 testemunhas com TV e 19 sem TV no subconjunto em que esse dado foi anotado. Somado ao perfil profissional listado nos casos, com piloto civil, bancário, engenheiro, policial, técnico, comerciante, industrial, médico veterinário e funcionário público, isso reforça a leitura de uma amostra predominantemente urbana, letrada e socialmente integrada aos circuitos de informação do período.

Outro ponto decisivo é que o próprio documento não trata todos os relatos como igualmente confiáveis. Há uma seção de exames psicológicos com 18 examinados, dos quais 13 sem psicopatologia definida e 5 em categorias que incluem delírios, alucinações, questionamentos e tendência à mitomania. Essa informação, vinda do próprio boletim, enfraquece qualquer tentativa de usar o SIOANI como confirmação homogênea de casos objetivos. Os autores do documento sabiam que parte da casuística era frágil, contaminada ou psicologicamente problemática.

Quando se passa da estatística geral para os casos individuais, a mesma impressão continua. Os relatos mais impressionantes não são os mais sólidos. Em geral, são os mais carregados de elementos narrativos típicos da cultura ufológica da época. O caso mais extremo é o XL-CI-040, cuja narrativa inclui objeto semelhante a um carrossel, três tripulantes baixos do lado de fora, jato de luz paralisante, transporte para local desconhecido, seres semelhantes a humanos com voz rouca e tentativa áudio visual de comunicação. Esse tipo de relato é valioso como documento cultural, mas sua plausibilidade empírica é muito baixa. Já os casos mais factíveis são justamente os mais sóbrios, como observações luminosas em altitude, feitas por testemunhas tecnicamente qualificadas, e ainda assim compatíveis com interpretações convencionais.

O ponto central, portanto, é este. Estatística nenhuma, a partir desse boletim, consegue provar que os relatos são verdadeiros ou falsos em bloco. O que os números conseguem mostrar é outra coisa, e ela já é muito reveladora. A amostra do SIOANI tem assinatura clara de viés humano: concentração noturna, predominância de observação a olho nu, filtro social masculino, perfil educacional relativamente alto, contexto urbano e presença explícita de casos psicologicamente frágeis. Isso é compatível com um arquivo histórico de relatos selecionados e interpretados, e não com um corpo robusto de evidências físicas independentes.

Lido com cuidado, o boletim do SIOANI de 1969 continua sendo um documento importante. Mas o que ele mostra, com mais força, não é a prova de naves de origem extraterrestre. O que ele mostra é como instituições brasileiras do período tentaram dar forma burocrática, estatística e aparentemente técnica a uma casuística que, no fundo, permanecia profundamente dependente de percepção humana, contexto cultural e filtros sociais. E justamente por isso essa leitura quantitativa do boletim é relevante. Ela desloca o documento do campo do mito para o da análise crítica.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Rosaly Lopes, um exemplo de pesquisadora

 

Imagem que mostra um momento do seminário da professora Rosaly.

A professora Rosaly Lopes é um exemplo de pesquisadora que inspira por sua postura profissional. Atua em um centro de pesquisa de excelência, com recursos muito superiores aos da maioria das instituições, sem abrir mão de ser simpática, educada e generosa. Mesmo com uma rotina exigente e muitos convites para seminários, mantém-se disponível para atender solicitações. Foi uma honra interagir com ela no XXV Curso de Extensão em Astronomia da UFBA, em 22/01/2026.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Universidade pública: por que o Brasil ainda insiste no funil de entrada?


Quadro de esquete do programa Hermes & Renato retratando
o personagem “Charlinho”.

O ponto estrutural do ensino universitário público é este: no Brasil, o acesso às universidades públicas é, em regra, condicionado a processos seletivos (vestibulares e/ou ENEM/SISU), o que cria um funil de entrada. Em contraste, na Argentina, muitas universidades públicas adotam modelos de ingresso mais amplo, frequentemente com ciclos iniciais e filtros ao longo do percurso acadêmico (por exemplo, o CBC), em um arranjo historicamente associado às reformas universitárias iniciadas em 1918.


Esse arranjo vem sendo mantido apesar de restrições econômicas e fiscais, em um país cujo PIB nominal é significativamente menor que o do Brasil (da ordem de um quarto a um terço, a depender do ano e do câmbio). Diante disso, a questão é por que o Brasil continua tratando provas eliminatórias como mecanismo central de acesso, em vez de avaliar alternativas de entrada mais amplas, acompanhadas de políticas de permanência e de uma estrutura acadêmica capaz de absorver a demanda.

Quando esse tema fica fora da pauta, o debate público tende a se concentrar em episódios de alta repercussão emocional, como a aprovação de um estudante pobre de Salvador em medicina na USP. Isso acaba virando uma versão triste da narrativa do “menino Charlinho que só queria estudar”, célebre esquete do programa Hermes & Renato, que expõe como a superação quase sobre-humana é celebrada por nossa imprensa e por parte da sociedade, em vez de se discutir soluções estruturais. Com isso, questões como critérios de acesso, permanência e prioridades de política pública recebem menos atenção do que merecem.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Ensaio de ocultação estelar — (11978) Makotomasako

Em 10/02/2026, fiz um ensaio, a partir do centro de Salvador, para registrar a ocultação da estrela Tycho-2 1823-285-1 (Figura 1) pelo asteroide do cinturão principal  (11978) Makotomasako, prevista para 11/02/2026, usando um telescópio Unistellar eVscope 2 do Planetário da UFBA. No site do fabricante, a previsão indicava uma janela de observação em UTC de 21:45:00 a 21:55:21, com coordenadas-alvo RA = 04h 15m 48s (63,95066°) e Dec = +26° 34′ 01″ (26,56692°).

Ocultações estelares são análogas a eclipses solares vistos da Terra, mas com asteroides no lugar da Lua e estrelas no lugar do Sol. Sua observação permite estimar, com alta precisão, as dimensões e a forma projetada do asteroide, além de possibilitar a detecção de satélites ou anéis. O albedo, isto é, a fração de luz refletida pela superfície, não é obtido diretamente pela ocultação; em geral, ele é inferido ao combinar o diâmetro medido na ocultação com a magnitude absoluta (H) do asteroide. O tipo taxonômico também pode sugerir valores típicos de albedo, por estar relacionado à composição e às propriedades da superfície, mas essa estimativa é indireta. Obter informações por observação direta da superfície é difícil para a maioria dos asteroides, devido ao baixo brilho e ao pequeno tamanho aparente.



Figura 1 — Esta imagem é o resultado do empilhamento de sete exposições de 0,2 s, semelhantes à da Figura 2, o que aumentou a relação sinal-ruído em aproximadamente 2,6× (≈ √7) em relação ao registro individual. Imagem gerada pelo aplicativo online “Astrometry”.


No ensaio, usei tempo de exposição de 200 ms (0,2 s) e ganho de 30 dB, conforme recomendado pelo fabricante. A estrela-alvo é listada com magnitude 11,51, e a queda prevista durante a ocultação é de 6,09 magnitudes.

O que significa “30 dB” aqui? É o ganho eletrônico (amplificação) aplicado ao sinal do sensor. Em termos de amplitude, 30 dB ≈ 31,6× (1030/20) de amplificação. Isso aumenta o sinal, mas também amplifica o ruído e pode facilitar saturação em pixels brilhantes. Não é “contraste” e não é, por si só, uma medida direta de relação sinal-ruído.

O telescópio apontou corretamente para a estrela, com desvio inferior a uma dezena de segundos de arco em relação à posição catalogada em ascensão reta e declinação, e ela ficou facilmente visível a partir do centro de Salvador com tempo de exposição de 0,2 s (Figura 2).

Figura 2 – Primeira imagem da sequência obtida
com tempo de exposição de 0,2 s. A estrela a ser ocultada está no
meio da imagem, cuja orientação vertical é a inversa da Figura 1.

  • A linha vermelha marca a linha central (centralidade) da faixa prevista da sombra.
  • As linhas azuis indicam o caminho previsto e a escala associada ao tamanho estimado do asteroide.
  • As linhas laranjas delimitam a incerteza de 1σ na predição da faixa.

Figura 3

O que é “1σ”? “1σ” significa um desvio-padrão da incerteza: é uma faixa que representa a dispersão esperada da posição prevista da sombra no solo. Em geral, essa incerteza é dominada pela incerteza da efeméride (órbita) do asteroide e, em menor grau, pela posição catalogada da estrela. O diâmetro do asteroide afeta principalmente a largura da sombra e as cordas possíveis, mas não é o principal responsável pelo deslocamento do caminho central previsto.

Não registrei o evento em campo por razões logísticas: a faixa prevista tocaria a Terra a algumas dezenas de quilômetros do centro de Salvador, numa região do município de Simões Filho, sem um local seguro para parada e operação. Além disso, por volta de 18:45 de 11/02/2026 (hora de Brasília), o céu ainda estava claro, o que dificultaria a aquisição.

Ainda assim, o ensaio mostra que é muito viável registrar ocultações estelares por asteroides (e, em princípio, por cometas) com este instrumento, mesmo em áreas urbanas com forte poluição luminosa, como no meu sítio observacional, onde o céu deve corresponder à classe 8 na escala de Bortle.


domingo, 8 de fevereiro de 2026

Testes com o telescópio Unistellar do Planetário da UFBA

Registro de alguns objetos astronômicos visíveis de Salvador nas noites de 06, 08 e 10/02/2026, usando um telescópio Unistellar eVscope 2. As imagens são bastante automatizadas, o que reduz um pouco o lado “mão na massa” da astronomia amadora: localizar o objeto no céu, capturar a sequência e processar os dados no computador. Para uso científico, porém, essa praticidade é justamente o que me interessa.

Os nomes dos objetos e os parâmetros técnicos de aquisição estão nas próprias imagens. O tipo de objeto (por exemplo, aglomerado aberto ou nebulosa) e os números de catálogo aparecem nas legendas. Segundo o site Astrometry, o campo de visão é de 39,7 × 39,7 minutos de arco, o que significa que a Lua inteira cabe com folga em uma única imagem obtida com esse telescópio.

Nebulosa NGC-1977 - Órion.

Nebulosa M-42 - Órion.

Aglomerado aberto M-41 - Cão Maior.

Aglomeraddo aberto M-38 - Cocheiro.

Aglomerado aberto M-37 - Cocheiro

Aglomerado aberto M-35 - Gêmeos.


Nebulosa NGC-2024 - Órion.


Galáxia NGC-5128 - Centauro.

Aglomerado Globular NGC-5139 - Centauro.

Aglomerado aberto NGC-4755 - Cruzeiro do Sul.

Lua crescente e a uma altura inferior a 20° acima
do horizonte,o que justifica o tom avermelhado da imagem.


Nebulosa NGC-3372 - Carina.


Galáxia NGC-2280 - Cão Maior.

Aglomerado aberto NGC-2516 - Carina.


Nebulosa M-1 - Touro.

Minha Vivência com o Colonialismo Cultural na Ciência

  Esta postagem tem um caráter de reflexão e registro para futuras gerações de cientistas brasileiros. Em 15 de dezembro de 2022, enviei uma...