terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Cristo Redentor visto através do buscador do meu telescópio

Foto do "Cristo Redentor" obtida na metade da década de 1990. O buscador do meu newtoniano foi confeccionado pelo Sr. Vianello, provavelmente usando um binóculo 10x50. O retículo é feito de fios de cobre.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Giotto e o 1P/Halley

Vídeo da Agência Espacial Europeia (ESA) comemorando os 25 anos do encontro da sonda Giotto com o cometa Halley. A nave se aproximou a cerca de 600 km do núcleo do cometa em 14 de março de 1986 (UT). Essa distância mínima só foi alcançada graças à astrometria precisa fornecida pelas sondas soviéticas VEGA-1 e VEGA-2, demonstrando, de forma inequívoca, o sucesso de uma colaboração científica entre a URSS e os países europeus — um exemplo notável de cooperação internacional em plena Guerra Fria, contrastando com os entraves geopolíticos atuais, que infelizmente têm afetado até colaborações científicas.

Embora a Giotto estivesse equipada com um escudo Whipple para proteção contra partículas de poeira, ela sofreu dois impactos severos de grãos em hipervelocidade. O primeiro causou a perda temporária da orientação da nave por mais de 30 minutos. O segundo destruiu sua câmera CCD, impedindo novas imagens — felizmente, isso ocorreu após o registro do núcleo do cometa.

Em 1992, após manobras orbitais complexas, a Giotto realizou um segundo encontro, desta vez com o cometa Grigg–Skjellerup, aproximando-se a cerca de 200 km do núcleo. Durante esse sobrevoo, a nave conduziu diversas medições do ambiente cometário, incluindo contagem de grãos de poeira, análise do campo magnético e outros parâmetros relevantes.

Comparadas às imagens de núcleos cometários obtidas por missões mais recentes, as da Giotto podem parecer modestas em qualidade. No entanto, do ponto de vista científico, foram extraordinariamente valiosas. Elas confirmaram o modelo da "bola de neve suja" proposto por Fred Whipple e revelaram que os núcleos cometários não são inteiramente ativos. No caso do cometa Halley, cerca de 10% da superfície estava ativa, emitindo gás e poeira.

Lembro-me do impacto que essas imagens, mesmo borradas, causaram quando foram exibidas no Jornal Nacional. Naquela época, havia uma antena parabólica instalada no Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, que recebia diretamente os sinais do centro de controle da Giotto, permitindo a transmissão das imagens aos astrônomos e ao público em tempo quase real.




domingo, 29 de janeiro de 2012

Astrofotografias com meu newtoniano - (1)

Algumas astrofotografias da Lua que obtive com meu telescópio na segunda metade da década de 1990. Todas as imagens foram capturadas utilizando filme ASA 100, seguindo o mesmo procedimento. Para isso, removi a lente da minha câmera Zenit 12XS e ajustei o foco aproximando ou afastando o corpo da câmera em relação à ocular/focalizador. O tempo de exposição foi de 1/30 s, visando minimizar trepidações.







Fotografia por projeção, com 360× de aumento. Quase no centro, aparecem as cordilheiras dos Montes Apenninus (em cima) e Montes Caucasus (em baixo).


sábado, 28 de janeiro de 2012

C/2007 E2 (Lovejoy)

Terry Lovejoy é um engenheiro de tecnologia da informação australiano interessado em Astronomia desde cedo, algo com que me identifico. Como astrônomo amador, destacou-se especialmente na busca de cometas, tendo também identificado cometas rasantes ao Sol em imagens do satélite SOHO. Utilizando telescópios de grande campo equipados com câmeras CCD, descobriu, entre outros, os cometas C/2007 E2 (Lovejoy) e C/2011 W3 (Lovejoy), ambos posteriormente observados por mim.

Em 07/04/2007 (UT), durante a observação do cometa C/2007 E2 (Lovejoy), obtive uma curva de luz diferencial apresentando variações de brilho superiores à dispersão fotométrica. Os dados foram adquiridos com um telescópio Meade LX200 de 0,30 m, equipado com uma câmera CCD SBIG ST-7XME Deluxe e filtro Bessel R.

A análise dos dados forneceu uma solução candidata para o período rotacional de 7,12 ± 0,01 horas. Quando dobradas com esse período, as medidas obtidas em diferentes sequências observacionais apresentam uma estrutura fotométrica coerente, com uma variação de brilho da ordem de alguns décimos de magnitude e um máximo aproximadamente entre as fases 0,15 e 0,20. Esse comportamento indica que a modulação observada é real e pode estar relacionada à rotação do núcleo e à variação da contribuição de regiões ativas para o brilho da coma.

Na ausência de registro de outbursts durante o período observado, uma interpretação possível para essa modulação é justamente a rotação do núcleo cometário. Entretanto, essa associação deve ser considerada uma hipótese, pois variações no brilho da coma também podem ter outras origens.

A determinação do período deve, portanto, ser considerada provisória. As observações cobrem apenas cerca de 30% do ciclo proposto, deixando uma extensa região de fase sem dados. Assim, embora o período de 7,12 horas produza uma boa superposição dos diferentes conjuntos observacionais disponíveis, não é possível excluir aliases ou outras soluções periódicas compatíveis. A incerteza de ±0,01 hora deve ser entendida como a incerteza formal da solução encontrada, e não como a incerteza total do período físico.

O astrônomo amador F. Manzini também analisou esse cometa e obteve uma curva de luz independente, disponível nos arquivos do CdR & CdL, apresentando uma periodicidade semelhante e uma cobertura de fase mais ampla. Essa concordância torna a solução de aproximadamente 7,1 horas particularmente interessante, embora não seja suficiente, por si só, para estabelecer de forma inequívoca o período de rotação do núcleo.


Curva de luz do cometa C/2007 E2 (Lovejoy)
(1) Curva de luz de C/2007 E2 (Lovejoy) dobrada com o período candidato de 7,12 h. Os diferentes conjuntos observacionais apresentam uma modulação coerente, embora a cobertura incompleta de fase não permita estabelecer o período de rotação de forma inequívoca.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Meu primeiro telescópio

Meu primeiro telescópio foi um refletor newtoniano de 0,3 m f/6, adquirido em 1987 do construtor Aguirre, de Vila Valqueire, subúrbio do Rio de Janeiro, quando eu tinha 14 anos. Parte do valor da compra foi obtida com a venda de um telescópio newtoniano de 0,18 m f/8, que eu havia construído durante o curso de construção de telescópios do Museu de Astronomia e Ciências Afins, no Rio de Janeiro.

Na configuração original, o telescópio de 0,3 m possuía uma robusta montagem equatorial germânica e pesava bem mais de 100 kg. Em sua primeira fase de uso, lembro-me de ter observado Urano, pelo menos cinco satélites de Saturno e Marte durante sua grande aproximação à Terra, em setembro de 1988. Também estimei empiricamente o período orbital de Titã, o maior satélite de Saturno, em cerca de duas semanas.

Em 1995, o telescópio foi reconstruído pelo construtor Leonel Vianello, de Araraquara (SP). Apenas o espelho primário foi reaproveitado. Embora tivesse apenas uma polegada de espessura, o espelho manteve sua figura parabólica mesmo com as mudanças de posição do tubo, fato que surpreendeu o próprio Sr. Leonel. Na nova configuração, o telescópio passou a utilizar uma montagem altazimutal do tipo Dobson.

Utilizei esse telescópio para observar, no Rio de Janeiro, os cometas Hale-Bopp e Hyakutake, entre outubro de 1995 e março de 1996.

Já em Salvador, ele foi empregado em diversas sessões de observação pública. A mais marcante ocorreu em agosto de 2003, durante a excepcional aproximação de Marte à Terra. Na ocasião, mais de mil pessoas observaram o planeta por meio desse telescópio, no antigo Shopping Aeroclube.

Atualmente, o telescópio está desmontado e armazenado na casa de minha sogra. Abaixo, apresento algumas imagens da segunda metade da década de 1990 e registros recentes do estado atual do instrumento.

Registros da segunda metade da década de 1990

Escalas graduadas do telescópio
O telescópio possuía escalas graduadas em azimute e altura para apontamento. Cogitei fazer a conversão entre o sistema equatorial horário e o sistema azimutal para apontá-lo por coordenadas. No entanto, nunca usei esse procedimento na prática, preferindo fazer o apontamento com o buscador.
Imagem terrestre de árvores no Morro do Sumaré obtida com o telescópio

Imagem terrestre de árvores no Morro do Sumaré, obtida com este telescópio. Fotografia por projeção, usando uma ocular de 5 mm, aumento de 360× e câmera Zenit 12XS. A distância linear entre o telescópio e as árvores devia ser de 2,2 km.

Registros atuais do instrumento

Estado atual do telescópio no armazenamento
Estado do telescópio no armazenamento, em 24/06/2026.
Disco de azimute do telescópio
Disco de azimute em 24/06/2026, com desgaste evidente. Vou mandar restaurá-lo em breve.

Como homenagem à memória de Leonel Vianello, reproduzo abaixo o trecho do Boletim Supernovas que registrou a passagem desse excepcional construtor de telescópios:

SUPERNOVAS — BOLETIM BRASILEIRO DE ASTRONOMIA

26 de setembro de 2002 — Edição nº 170

ATRAVÉS DA OCULAR

Morre um dos mais conhecidos construtores de telescópios no Brasil

Faleceu na sexta-feira, 20 de setembro, aos 74 anos de idade, Leonel Vianello (1927–2002), de morte natural. Nascido no dia 10 de outubro de 1927, Vianello era construtor de telescópios astronômicos, fotógrafo profissional e morava no interior de São Paulo, em Araraquara (SP).

Leonel dedicou boa parte de sua vida a essa rara arte de construir artesanalmente instrumentos ópticos de grande precisão, como também montagens, oculares, aranhas, focalizadores e pequenas lunetas. Além de um grande construtor, Leonel era “de um comportamento exemplar e correto sobre as coisas e preocupado com a qualidade de seus produtos”, afirmou Weber Amadeus, amigo, aprendiz e também construtor de telescópios na cidade de Araraquara (SP).

Leonel fabricou mais de 500 telescópios de tamanhos variados, que hoje estão espalhados por praticamente todo o território nacional. “O Leonel deixou a marca dele no Brasil”, afirmou Roberto Silvestre, que possui um observatório em sua própria casa, na cidade de Uberlândia (MG), onde está instalado um telescópio newtoniano construído por Vianello. “Foi uma grande perda”, concluiu o amigo.

O Boletim Supernovas prestou sua homenagem a esse grande construtor brasileiro, cujos telescópios abriram e ainda abrem as janelas do Universo para incontáveis observadores.

Agradecimentos especiais à família e aos amigos.

Carlos Eduardo — Editor do Boletim Supernovas

Uma grande perda

“O Brasil perde um dos maiores colaboradores da Astronomia amadora do país.”

Weber Amadeus, construtor de telescópios e grande amigo de Leonel Vianello, Araraquara (SP).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Longa exposição do céu austral

Fotografia de longa exposição, superior a uma hora, da região do polo sul celeste. A imagem foi obtida em 1996, no Observatório do Pico dos Dias, utilizando uma câmera Zenit 12XS e filme de 100 ASA.

Os traços curvos registrados pelas estrelas resultam da rotação aparente do céu durante a exposição. Na imagem também se observa uma região escura, indicada pela seta, correspondente à Nebulosa do Saco de Carvão, uma extensa nebulosa escura situada junto à constelação do Cruzeiro do Sul.

Sobre essa região aparece ainda um traço tênue e aproximadamente retilíneo, com orientação bastante diferente da dos rastros estelares. Sua aparência é compatível com a passagem de um meteoro durante a exposição, embora uma única fotografia não permita excluir com segurança outras possibilidades.


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Um satélite para o asteróide (911) Agamnenon?

O asteroide (911) Agamemnon é um troiano de Júpiter. Em 19 de janeiro de 2012 (UT), uma ocultação da estrela HIP 41337 por esse asteroide apresentou, além da ocultação principal, uma segunda e breve diminuição de brilho cerca de 10 segundos após o reaparecimento da estrela.

Na época, o evento secundário levantou a possibilidade da existência de um pequeno satélite de Agamemnon. Essa interpretação foi posteriormente analisada por Timerson et al. (2013), que concluíram que o registro constitui forte evidência da presença de um corpo com cerca de 5 km de diâmetro, provavelmente entre 3 e 10 km, situado a uma distância projetada de 278 ± 5 km do centro do asteroide.

As cordas obtidas durante a ocultação também permitiram estimar o contorno de Agamemnon, bem representado por uma elipse de aproximadamente 191 × 144 km. A posição do evento secundário, muito além desse contorno, torna improvável que a segunda queda de brilho tenha sido provocada apenas pela forma irregular do asteroide.

Imagens de Agamemnon obtidas anteriormente com óptica adaptativa no Very Large Telescope (VLT) também foram examinadas. Entretanto, um satélite com as dimensões e a separação inferidas a partir da ocultação estaria abaixo da capacidade de resolução desses registros.

Assim, embora o satélite não tenha sido diretamente fotografado, a ocultação de 2012 permanece como uma forte evidência indireta de que (911) Agamemnon possui um pequeno companheiro.

A análise detalhada do evento foi publicada por Timerson et al. (2013).

Modelo de forma do asteroide (911) Agamemnon obtido por inversão de curva de luz
Modelo de forma de (911) Agamemnon obtido por inversão de curva de luz. Fonte: Wikimedia Commons.

domingo, 22 de janeiro de 2012

103P/Hartley 2

Trajetória e sobrevoo da nave Deep Impact sobre o núcleo do cometa 103P/ Hartley 2, em 4 de novembro de 2010. Compare estas imagens com as equivalentes obtidas por reflexão de sinais de radar emitidos da Terra. A eficiência da técnica de construção de imagens por radar é inegável. Note que o núcleo do cometa não é inteiramente ativo, como o senso comum poderia sugerir.

Sobrevoo do cometa Hartley 2 pela sonda Deep Impact
Fonte: NASA / JPL-Caltech / UMD – animação por Emily Lakdawalla
Imagens de radar do cometa Hartley 2
Imagens de radar do cometa 103P/Hartley 2. Créditos: NAIC-Arecibo / Harmon-Nolan

sábado, 21 de janeiro de 2012

Domo do Telescópio de 1,6 m do OPD

O Observatório do Pico dos Dias (OPD) foi inaugurado em 1980. Seu primeiro instrumento foi o telescópio Perkin-Elmer de 1,6 metro. Esse telescópio está instalado no interior de uma cúpula que, atualmente, poderia comportar um telescópio de maior abertura, superior a 2 metros, caso fosse adotada uma montagem altazimutal. O edifício que abriga o telescópio possui três andares. No térreo, encontra-se instalada uma câmera de alto vácuo utilizada para a aluminização dos espelhos dos telescópios do observatório.

A inauguração do OPD marcou o início da moderna astrofísica observacional no Brasil, promovendo avanços significativos na infraestrutura científica nacional. Abaixo apresento algumas fotografias que obtive entre 1995 e 1999 da cúpula do telescópio de 1,6 metro:



(1) Rotação da cúpula do telescópio de 1,6 m.

(2) Cúpula do 1,6 m em todo o seu esplendor.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Brasil não cumpre o combinado com o ESO

Em 2010, nos últimos dias do segundo governo Lula, o Brasil assinou um acordo de adesão ao ESO (Observatório Europeu do Sul), organização intergovernamental responsável por alguns dos mais importantes observatórios astronômicos do mundo, instalados no Chile. Caso o processo tivesse sido concluído, o Brasil se tornaria o primeiro país não europeu a integrar formalmente a organização.

O acordo previa uma contribuição especial de adesão de 130 milhões de euros, com condições bastante favoráveis ao Brasil e possibilidade de pagamento ao longo de dez anos, além das contribuições anuais correspondentes à participação do país na organização.

Na época em que escrevi este texto, minha preocupação era que as dificuldades orçamentárias impedissem a conclusão do acordo. Infelizmente, foi o que acabou acontecendo. O Congresso Nacional aprovou a adesão em 2015, mas o processo nunca foi concluído pelo governo brasileiro. Em 2018, após anos de indefinição, o Conselho do ESO suspendeu o processo de adesão e também os mecanismos provisórios que permitiam aos astrônomos brasileiros concorrer ao tempo de observação em condições semelhantes às dos pesquisadores dos países-membros.

O acordo de adesão continua formalmente válido e o ESO mantém aberta a possibilidade de o Brasil ingressar futuramente na organização, eventualmente mediante uma renegociação. Entretanto, mais de quinze anos depois da assinatura do documento, o Brasil ainda não é membro do ESO.

O que o país perdeu ao não concluir sua adesão?

  1. Acesso institucional a telescópios de grande porte e instrumentos de última geração: a participação no ESO proporcionaria à comunidade astronômica brasileira acesso regular a instalações como o Very Large Telescope (VLT), em Paranal, além da participação no desenvolvimento e utilização de uma nova geração de instrumentos astronômicos. Isso é fundamental para a obtenção de dados de alta qualidade e para a participação competitiva da Astronomia brasileira em algumas das principais áreas da Astrofísica contemporânea.

  2. Capacitação da indústria brasileira em mecânica, óptica, eletrônica e instrumentação de alta precisão: a participação no ESO não se limitaria ao uso dos telescópios. Empresas e instituições brasileiras poderiam participar do desenvolvimento e da construção de equipamentos e estruturas utilizados pelos observatórios. Esse tipo de experiência já havia ocorrido, em escala menor, na participação brasileira nos projetos Gemini e SOAR.

  3. Participação de empresas brasileiras nas licitações do ESO: empresas dos países-membros podem disputar contratos para o fornecimento de equipamentos, componentes e serviços de alta tecnologia. Parte do investimento realizado pelo país poderia, portanto, retornar sob a forma de contratos industriais, desenvolvimento tecnológico e formação de pessoal altamente especializado.

  4. Participação no desenvolvimento das grandes instalações astronômicas do futuro: um dos principais projetos do ESO é o Extremely Large Telescope (ELT), com espelho primário de 39 metros. A participação brasileira teria colocado universidades, pesquisadores e empresas do país mais próximos do desenvolvimento e da exploração científica daquele que será um dos mais poderosos telescópios ópticos e infravermelhos já construídos.

O episódio também me preocupava por não ser o primeiro caso em que o Brasil assumia compromissos em um grande projeto científico internacional e posteriormente tinha dificuldades para cumpri-los. Em 1997, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o país assinou com a NASA um acordo para participar do programa da Estação Espacial Internacional (ISS).

O compromisso original previa a fabricação, no Brasil, de seis tipos de equipamentos para a estação, avaliados na época em aproximadamente 120 milhões de dólares. O projeto foi posteriormente reduzido e renegociado diversas vezes devido às dificuldades orçamentárias, mas os equipamentos inicialmente previstos não chegaram a ser fornecidos. Em 2007, o Brasil já não aparecia, na prática, como participante do consórcio responsável pela construção da ISS.

No caso do ESO, as dificuldades começaram logo após a assinatura do acordo. Em 2011, o Ministério da Ciência e Tecnologia sofreu forte contingenciamento orçamentário. Naquele momento, a justificativa apresentada para a dificuldade de cumprir os compromissos internacionais estava associada às restrições fiscais e aos cortes de recursos destinados à ciência e à tecnologia.

Espero sinceramente que o Brasil ainda venha a integrar o ESO. A Astronomia brasileira deu um salto importante com a entrada do país nos projetos Gemini e SOAR, na década de 1990, e não deveria ficar afastada de grandes infraestruturas científicas internacionais.

Mais de uma década depois, continuo pensando da mesma forma: para uma comunidade científica relativamente pequena, participar de grandes consórcios internacionais não é luxo. É uma das formas mais eficientes de garantir acesso a instalações que nenhum país conseguiria construir e operar isoladamente e, ao mesmo tempo, desenvolver ciência, tecnologia e indústria de alta precisão.


O autor deste blog observando no ESO, em La Silla, em dezembro de 1997

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Observatório de Búzios - Parte 2

Algumas astrofotografias obtidas com o telescópio do Observatório de Búzios. Todas as imagens foram registradas com a mesma configuração: câmera Olympus, filme Kodak Gold 100 e tempo de exposição de apenas 1/1000 s, em julho de 1989.

As imagens (1) e (2) mostram um grupo de manchas solares. Pelas minhas lembranças, as fotografias foram obtidas em um domingo de julho e, considerando também a imagem lunar realizada na mesma época, a data mais provável é 23/07/1989. Naquele período, o Sol atravessava o máximo do ciclo solar 22 e apresentava atividade excepcionalmente elevada.

O grupo registrado nas fotografias é provavelmente a região ativa NOAA 5598, que naquele dia se encontrava próxima ao centro do disco solar e apresentava uma mancha principal com penumbra bem desenvolvida, acompanhada por diversos componentes menores. Embora não estivesse entre os maiores grupos de manchas já observados, fazia parte de um período de atividade solar particularmente intensa.

A imagem (3) mostra uma região da Lua que inclui os mares do Néctar (Mare Nectaris) e da Tranquilidade (Mare Tranquillitatis). Ela foi obtida justamente na semana em que se comemoravam os 20 anos do pouso da Apollo 11 na Lua, ocorrido em 20 de julho de 1969.

Na mesma época, obtive também uma fotografia da cratera Tycho. Anos depois, utilizei essa imagem no artigo de ensino de ciências “Experimentos Didáticos em Astronomia I: Determinação das Dimensões de Crateras Lunares”, publicado em 2005.

Até onde pude verificar, essa foi a única publicação acadêmica que utilizou imagens produzidas no Observatório de Búzios.


(1) Grupo de manchas solares, provavelmente a região ativa NOAA 5598.

(2) Detalhe do mesmo grupo de manchas solares.

(3) Mare Nectaris (centro-direita) e
Mare Tranquillitatis (canto superior esquerdo).

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Observatório de Búzios - Parte 1

O “Observatório de Búzios” era um observatório privado localizado na cidade de Búzios, na Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro. Foi construído entre 1987 e 1988 por um empresário da área de telecomunicações. Seu principal instrumento era um telescópio Celestron Compustar de 14 polegadas, instalado em uma cúpula Ash-Dome de aproximadamente 3,2 m de diâmetro (Figuras 1 e 2).

Tive acesso ao observatório por meio de uma situação bastante inusitada. Em 1989, eu tinha 16 anos e construía e vendia montagens equatoriais alemãs para pequenos telescópios amadores. Para divulgar meu trabalho, utilizava classificados em jornais.

Certo dia, assisti a um documentário na TVE que mostrava a cidade de Búzios, suas belezas naturais e, para minha surpresa, um observatório astronômico. Fiquei entusiasmado ao descobrir que havia um observatório amador tão bem equipado em meu estado.

Por uma coincidência extraordinária, pouco depois da exibição do documentário, um senhor telefonou para minha casa à procura de oculares para seu pequeno telescópio refrator. Durante a conversa, mencionei o observatório que acabara de ver na televisão. Ele me disse que conhecia seu proprietário e se ofereceu para fornecer o telefone dele. Entrei em contato naquele mesmo dia e agendei uma visita. No fim de semana seguinte, viajei para Búzios para conhecer o observatório.

Fiz algumas observações memoráveis em Búzios entre junho e novembro de 1989. Destaco a observação visual da brilhante galáxia espiral NGC 4945, vista de perfil (edge-on), localizada na constelação do Centauro e pertencente ao grupo de galáxias Centaurus A. A visão daquele objeto, situado a cerca de 13 milhões de anos-luz, proporcionou-me uma verdadeira percepção da minha pequenez cósmica.

Na Lua, observei uma intensa e surpreendente sequência de alterações luminosas que, na época, interpretei como fenômenos lunares transientes. Também me impressionou perceber visualmente, através do telescópio, a tonalidade azul-esverdeada de Urano, uma característica que até então eu imaginava ser perceptível apenas em fotografias.

Esse estágio informal no Observatório de Búzios foi fundamental para minha decisão de ingressar, quatro anos depois, na graduação em Astronomia. Sou imensamente grato ao proprietário do observatório por aquela oportunidade, que teve enorme importância na definição do caminho profissional que acabaria seguindo.

Anos mais tarde, o empresário vendeu a casa e o observatório a um casal de europeus, que instalou no local um restaurante e uma pequena pousada. Quando escrevi originalmente esta postagem, a propriedade estava novamente à venda. Se eu tivesse os recursos necessários, compraria.


Figura 1

Figura 2

domingo, 15 de janeiro de 2012

O construtor de telescópios de Vila Valqueire (Rio de Janeiro)

Telescópio de 0,435 m f/13,5 Cassegrain-Coudé construído pelo construtor de telescópios Aguirre no começo da década de 1990. Inicialmente, o telescópio foi concebido como sendo um Newtoniano-Cassegrain-Coudé. Na configuração newtoniana, o telescópio possuía f/4,5. Dada a difração e a grande obstrução causada pelos espelhos secundário e terciário, o foco newtoniano foi abolido alguns meses depois. O instrumento possuía montagem equatorial germana com acompanhamento gerado por um motor elétrico de um eletrodoméstico. O tubo foi feito com cilindros de máquinas de lavar. Os buscadores usavam lentes de antigas máquinas fotocopiadoras ou binóculos. As oculares eram de microscópios. Apesar dessa aparente precariedade, era um instrumento excepcional – prova cabal do talento e genialidade do Sr. Aguirre. Lembro-me de ter visto algumas dezenas de estrelas no aglomerado NGC-4755, mesmo com um céu que não era dos melhores.

Pelo que soube, o Sr. Aguirre vendeu o telescópio para um fazendeiro do interior do Brasil (Mato Grosso?) poucos anos depois.

Na foto, o construtor está efetuando uma observação através do foco Coudé no roll-off roof no terceiro andar de sua casa na Vila Valqueire, subúrbio do Rio de Janeiro.


Sr. Aguirre observando no foco Coudé.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Repensando um mundo alienígena

O planeta A que órbita a estrela dupla 55 da constelação do Câncer é um mundo ímpar. Dados gerados pela técnica de velocidade radial revelaram que o período orbital do planeta é de apenas 18 dias. A distância que o separa de sua estrela equivalente a cerca de 4% da distância que separa Mercúrio do Sol. O planeta foi considerado com uma superterra por possuir uma massa inferior a dez massas terrestres. Pelos dados anteriores, se estimou que a temperatura superficial de 55 Cancri A poderia ser de 1760 graus Celsius. Sob estas condições, a superfície do planeta seria constituída de rochas pastosas. Observações de um trânsito planetário, efetuadas pelo telescópio espacial Spitzer, forneceram estimativas mais exatas das dimensões e composição química deste objeto. As novas estimativas sugerem que o planeta tem 7,8 x a massa e duas vezes o diâmetro da Terra. Com estes últimos parâmetros, as possíveis condições ambientais podem implicar que substâncias,  como  água e o gás carbônico, possam estar no estado de supercrítico na superfície do planeta. Em um material no estado supercrítico não há diferenças entre o estado líquido e gasoso. Tal substância pode se difundir em um sólido como um gás e dissolver a matéria como um líquido. O "press release" da NASA sobre esta importante descoberta é apresentada abaixo:


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Balsa Extraterrestre no RN

No último ano do meu bacharelado em Astronomia, fui indicado pelo Observatório Nacional para participar da reunião anual da SBPC, realizada em Natal (RN), em julho de 1998. Em um dia de folga, decidi fazer um passeio de buggy pelos municípios vizinhos. Durante o trajeto, ao atravessarmos um braço de mar (ou talvez um rio), utilizamos uma balsa com o inusitado nome de Extraterrestre. Não resisti e fiz uma fotografia.



terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Laboratório Nacional de Astrofísica - LNA

(1) Vídeo institucional do LNA. Este excelente material apresenta as diversas facetas de atuação do LNA, que vão além do gerenciamento do Observatório do Pico dos Dias. (2) Reportagem mostrando os prejuízos causados à sede do LNA pela construção de um loteamento em Itajubá. O paradoxal é que o loteamento é financiado pela União, que também mantém o LNA.


(1)


(2)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

C/2004 Q2 (Machholz)

Astrofotografia de 10 s de exposição do cometa C/2004 Q2 obtida em 02:02 de 03-01-2005 TU, utilizando uma câmera Zenit 12XS e filme FUJI ASA 100, no bairro do Barbalho, em Salvador. Esta imagem foi utilizada no artigo de ensino de ciências "Experimentos Didáticos em Astronomia II: Estudo Fotográfico das Posições Aparentes de Corpos de Sistema Solar ".


domingo, 8 de janeiro de 2012

Meteoritos de Vesta

Os meteoritos HED — howarditos, eucritos e diogenitos — apresentam composição mineralógica e propriedades espectrais compatíveis com a superfície do asteroide (4) Vesta. Essa associação, proposta inicialmente a partir de observações espectroscópicas, foi posteriormente confirmada pelos dados obtidos pela sonda Dawn, que orbitou Vesta entre 2011 e 2012.

As imagens da Dawn revelaram no hemisfério sul de Vesta a enorme bacia de impacto Rheasilvia, com cerca de 500 km de diâmetro. Em seu interior encontra-se um pico central que se eleva por mais de 20 km em relação às regiões mais baixas da bacia. O impacto que formou Rheasilvia, juntamente com outros grandes impactos sofridos por Vesta, lançou grande quantidade de material ao espaço e está relacionado à formação da família de pequenos asteroides conhecida como Vestoides.

Não é possível afirmar que cada meteorito HED encontrado na Terra tenha sido ejetado diretamente de Rheasilvia. O que os dados da Dawn demonstraram é que Vesta é o corpo parental dos HEDs e que grandes impactos, especialmente no hemisfério sul, forneceram material capaz de escapar do asteroide.

Esses fragmentos também não foram lançados diretamente em trajetórias de colisão com a Terra. Após a ejeção de Vesta, sua evolução orbital pode durar milhões de anos. A combinação de efeitos térmicos, como o efeito Yarkovsky, e de ressonâncias orbitais com os planetas pode transportar pequenos fragmentos do cinturão principal para órbitas que cruzam a região dos planetas terrestres, permitindo que alguns deles acabem atingindo a Terra.

Um exemplo é o meteorito Puerto Lápice, que caiu na Espanha em 10 de maio de 2007. Ele foi classificado como um eucrito brechado e, portanto, pertence ao grupo HED associado a Vesta. Abaixo é apresentado um vídeo da Spanish Meteor Network (SPMN) sobre a queda e sua possível relação dinâmica com Vesta.

O vídeo é anterior à exploração detalhada de Vesta pela missão Dawn e utiliza uma reconstrução da superfície baseada em observações do Telescópio Espacial Hubble. Posteriormente, a Dawn permitiu mapear diretamente a topografia, a mineralogia e a composição da superfície do asteroide com resolução muito superior.



sábado, 7 de janeiro de 2012

Algumas Imagens de 1995

No ano de 1995, realizei duas missões de observação no LNA. Nessas ocasiões, utilizei o telescópio Boller & Chivens de 0,6 m f/13,5, pertencente à USP. Ao final de uma das noites de observação, obtive imagens CCD com tempo de exposição de 300 segundos, utilizando um filtro quasi-Johnson-Cousins R, do aglomerado globular Palomar 15 (1) e da galáxia espiral barrada NGC 1672 (2). Na época, eu ainda não dominava o uso do SAOimage, por isso imprimi as imagens e depois as fotografei com minha câmera Zenit 12XS.

(1)

(2)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

C/2011 W3 (Lovejoy) - (4) - Minhas últimas imagens

Astrofotografias do cometa Lovejoy obtidas entre 06:38 e 06:51 (03:38 e 03:51, Hora de Brasília) de 26-12-2012 UT. A imagem (1) é a soma de 14 fotografias com 20s de exposição. A câmera Nikon D80 estava regulada em 18mm f/5.6. A imagem (2) é a soma de 15 fotos com 15s de exposição; 55mm f/5.0.

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Publiquei um estudo sobre a curva de luz secular do cometa C/2011 W3 (Lovejoy), que sobreviveu à passagem extremamente próxima pelo Sol, mas sofreu desintegração do núcleo nos dias seguintes ao periélio.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

C/2011 W3 (Lovejoy) - (3)

Astrofotografias do cometa Lovejoy obtidas entre 04:06 e 04:17 (07:06 e 07:17) de  24-12-2012 UT. A imagem (1) é a soma de 16 fotografias com 20s de exposição. A câmera Nikon D80 estava regulada em 18mm f/5.6. A imagem (2) é a soma de 14 fotos com 15s de exposição; 55mm f/5.0.


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Minha Vivência com o Colonialismo Cultural na Ciência

Esta postagem tem um caráter de reflexão e de registro para futuras gerações de cientistas brasileiros. Em 15 de dezembro de 2022...