Aguirre foi um construtor amador de telescópios que residia em Vila Valqueire, subúrbio do Rio de Janeiro. Dedicava-se à construção de instrumentos astronômicos desde, pelo menos, a década de 1950 e, ao longo dos anos, construiu numerosos telescópios, com clara predileção pelos newtonianos de maior abertura, frequentemente acima dos 25 cm.
Pelo que me recordo de nossas conversas, Aguirre contou que seu interesse pela construção de telescópios havia sido despertado pela leitura de publicações de divulgação científica e técnica vendidas em bancas de jornal, nas quais eram apresentados, entre outros assuntos, técnicas e projetos para a construção artesanal de instrumentos astronômicos.
Um dos exemplos mais impressionantes de seu trabalho foi um telescópio Cassegrain-Coudé de 0,435 m, f/13,5, construído no início da década de 1990. Originalmente, o instrumento foi concebido com uma configuração Newtoniano-Cassegrain-Coudé. No foco newtoniano, operava em f/4,5. Entretanto, devido aos efeitos de difração e à grande obstrução provocada pelos espelhos secundário e terciário, essa configuração foi abandonada poucos meses depois.
O telescópio possuía montagem equatorial germânica, com acompanhamento acionado por um motor elétrico adaptado de um eletrodoméstico. O tubo foi construído utilizando cilindros de máquinas de lavar, enquanto os buscadores empregavam lentes provenientes de antigas máquinas fotocopiadoras ou de binóculos. As oculares eram de microscópios. Apesar da aparente precariedade dos materiais empregados, tratava-se de um instrumento excepcional e de uma demonstração clara da habilidade, da criatividade e do domínio técnico do Sr. Aguirre. Lembro-me de ter observado algumas dezenas de estrelas no aglomerado NGC 4755, mesmo sob um céu que estava longe de apresentar condições ideais.
Na fotografia, o construtor aparece realizando uma observação pelo foco Coudé do telescópio de 0,435 m, instalado em um observatório de teto retrátil (roll-off roof) no terceiro andar de sua residência, na Vila Valqueire, subúrbio do Rio de Janeiro.
Pelo que soube, poucos anos depois o Sr. Aguirre vendeu o telescópio para um fazendeiro do interior do Brasil, possivelmente de Mato Grosso.
Esse instrumento havia substituído uma luneta de tubo excepcionalmente longo, provavelmente com alguns metros de comprimento. Segundo Miguel, um conhecido meu da época em que eu também construía telescópios, sua objetiva teria pertencido ao periscópio de um antigo submarino da Marinha do Brasil e teria sido encontrada pelo Sr. Aguirre em um ferro-velho próximo à Cidade de Deus.
Miguel também me contou uma história curiosa sobre uma observação da Lua realizada por Aguirre com essa luneta. Segundo seu relato, Aguirre teria observado uma pequena feição de aspecto abaulado que apresentava um brilho excepcionalmente intenso, aparentemente por refletir a luz solar. Pela descrição, o episódio lembra alguns dos chamados fenômenos lunares transitórios (TLPs), embora também possa ter resultado de uma combinação particular entre relevo e iluminação da superfície lunar. Aguirre tentou repetir a observação na lunação seguinte, mas não conseguiu detectar novamente o fenômeno. O episódio permanece, portanto, apenas como um interessante relato observacional, sem registro instrumental ou confirmação independente.
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| Sr. Aguirre observando no foco Coudé. |
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