Minha história com o cometa
Hyakutake foi engraçada.
O C/1996 B2 atingiu seu pico de brilho no final de março de 1996. Eu era aluno de iniciação científica no
Observatório Nacional do Rio de Janeiro na época, e ouvi dois astrônomos comentando na biblioteca: “É o cometa mais brilhante em 25 anos!” e “Ele está na constelação da
Libra!”. Fiquei com aquelas informações na cabeça. Lembrava que o cometa mais brilhante em 25 anos havia sido o espetacular
West. Aproximadamente às 22h (01h UT), daquele mesmo dia do início de abril, a constelação da Libra era visível a 30–40 graus de altura. Procurei o cometa no céu, efetuando um procedimento que deve ter sido repetido por astrônomos há séculos. Comparei os objetos visíveis no céu com os presentes em uma carta celeste para buscar um “intruso”. Para meu espanto, uma das estrelas não estava na carta e, além disso, tinha um aspecto nebuloso. Não tinha mais dúvidas: eu acabara de encontrar o cometa Hyakutake no céu! Pensei comigo mesmo: “Finalmente, estou vendo um cometa decente!”. “Decente” porque era brilhante o suficiente para ser visível a olho nu e ainda por cima possuía uma fraca cauda. Acordei minha mãe para que ela pudesse ver o objeto e montei meu telescópio newtoniano de
0,3 m f/6 logo em seguida. Com 60x de aumento, pude perceber uma tênue estrutura espiral na coma do cometa. Como esse cometa é do tipo
NEO e sua inclinação orbital era bastante elevada, ele rapidamente não seria mais visível da latitude do Rio de Janeiro. Nos dois fins de semana seguintes, usei dois rolos de filme Kodak ASA 100, com 36 exposições cada, para registrar o objeto.
Apresento algumas imagens obtidas provavelmente no sábado, 23 de março de 1996, e no fim de semana seguinte, entre 30 e 31 de março de 1996. As imagens 1 a 4 correspondem ao primeiro conjunto; as imagens 5 a 7, ao segundo. Todas foram obtidas com 15 s de exposição e câmera Zenit 12 XS.
Uma bela frase é atribuída ao descobridor deste objeto:
“I don't care about the naming of the comet. If many people could enjoy that comet, that is the happiest thing for me.”
— Yuji Hyakutake, 1996
Yuji Hyakutake morreu de aneurisma em 2002, aos 51 anos de idade. Acho que ele sintetizou tudo que senti ao ver aquele objeto no céu.
Imagem 1 — Minha primeira foto do cometa.
Imagem 2 — C/1996 B2 Hyakutake.
da cidade do Rio de Janeiro.
Imagem 4 — As luzes saturadas à esquerda do Hyakutake são associadas
às torres repetidoras de rádio e televisão.
Imagem 5 — Última imagem do Hyakutake obtida oito dias depois da sequência anterior.
O objeto estava muito ao norte. Tive que me deslocar para a residência de um colega na região oceânica de
Niterói para ter um horizonte sem obstáculos. O único problema foi a poluição luminosa, evidente na foto.
Imagem 6 — Imagem anterior com uma correção de
background proporcionada pelo
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Imagem 7 — Região de Escorpião–Sagitário. A Via Láctea aparece bem visível, embora com contraste moderado, sugerindo um céu intermediário, aproximadamente Bortle 4–5. A poluição luminosa era localizada principalmente na direção noroeste, justamente onde o cometa Hyakutake era visível. |