segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O astrônomo recomenda: "Deep Impact"

O filme Deep Impact (1998) foi um dos grandes filmes-catástrofe sobre impactos de corpos celestes lançados poucos anos depois da colisão do cometa Shoemaker–Levy 9 com Júpiter, em 1994. Gosto do filme, apesar de algumas “liberdades poéticas” utilizadas para tornar a história mais dinâmica.

Uma das cenas menos realistas dá a entender que um astrônomo profissional consegue determinar, praticamente de imediato e a partir de uma única observação de um novo cometa, que o objeto colidirá com a Terra. Na realidade, a determinação de uma órbita exige várias medidas astrométricas obtidas em momentos diferentes, permitindo acompanhar o deslocamento do objeto e refinar progressivamente sua trajetória.

Um exemplo interessante é o asteroide Apophis. Descoberto em 2004, ele chegou a apresentar uma pequena possibilidade calculada de colisão com a Terra. Observações adicionais permitiram descartar o impacto em 2029 e, ao longo dos anos seguintes, refinar cada vez mais sua órbita. Em 2021, novas observações por radar permitiram excluir risco de impacto por pelo menos um século. Em 13 de abril de 2029, o Apophis passará a aproximadamente 32 000 km da superfície terrestre, mais perto do que muitos satélites em órbita geossíncrona.

Outra liberdade interessante envolve a nave “Messiah”. No filme, ela utiliza um sistema experimental inspirado no Projeto Orion, baseado em propulsão nuclear por pulsos. Nesse conceito, pequenas cargas nucleares seriam detonadas sucessivamente atrás da nave. O plasma produzido pelas explosões atingiria uma grande placa propulsora, transferindo momento ao veículo, enquanto um sistema de amortecimento reduziria os violentos pulsos de aceleração.

O Projeto Orion real foi desenvolvido nos Estados Unidos, principalmente pela General Atomics, entre o final da década de 1950 e meados da década de 1960, com participação de pesquisadores como Stanislaw Ulam, Ted Taylor e Freeman Dyson. Protótipos em pequena escala chegaram a ser testados com explosivos convencionais. No filme, entretanto, o desenvolvimento do sistema é apresentado com participação de engenheiros russos, uma adaptação ficcional da história do projeto.

A representação do sistema também é bastante simplificada. Um veículo Orion real precisaria de uma placa propulsora muito grande e de uma longa sequência de explosões para produzir a aceleração desejada. No filme, porém, a placa parece relativamente pequena e as ignições do motor são mostradas de maneira muito mais simples e cinematográfica.

Outros deslizes científicos do filme são discutidos no Bad Astronomy. Apesar deles, continuo recomendando Deep Impact. Boa diversão para um sábado chuvoso em casa.


Um dos trailers do filme

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