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sábado, 18 de abril de 2026

Boletim SIOANI 1969: o que os números realmente mostram

Caso XL-CI-040, no boletim do SIOANI de agosto de 1969. O recorte mostra um dos relatos mais narrativamente extraordinários da amostra, associado a paralisia por “jato de luz”, transporte para local desconhecido, presença de tripulantes e tentativa de comunicação. Em termos analíticos, casos assim são mais úteis como evidência do imaginário ufológico do período do que como evidência empírica forte de um fenômeno físico extraordinário.
Esta postagem foi motivada pelo uso recorrente, por parte de autoproclamados pesquisadores de OANIs, dos boletins do SIOANI como suposta prova de seriedade institucional ou de validade científica de casos explorados pela literatura ufológica, bem como pela confiança acrítica depositada em relatos de “testemunhas”. O problema é simples: documentos burocráticos, por mais interessantes que sejam historicamente, não se convertem automaticamente em evidência empírica robusta. Também não deixam de ser frágeis apenas porque circulam sob aparência oficial ou militar.

Esta postagem serve, portanto, como alerta contra leituras ingênuas de documentos oficiais ou semioficiais apresentados ao público como se, por si sós, bastassem para legitimar alegações extraordinárias. Em tempos de recorrente espetacularização política e midiática do tema dos OVNIs, inclusive com a divulgação seletiva de documentos e narrativas por governos estrangeiros, torna-se ainda mais importante distinguir valor histórico, valor burocrático e valor científico.

Para isso, o documento analisado nesta postagem é o boletim do SIOANI, sigla de Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados, ligado à Quarta Zona Aérea em 1969, no contexto da Força Aérea Brasileira e das rotinas de informação do MAER/COMDABRA. O material não é apenas uma coletânea de relatos. Ele também expõe a tentativa de criar uma estrutura doutrinária, administrativa e estatística para receber, classificar e investigar ocorrências de objetos aéreos não identificados no Brasil. Isso já o torna historicamente importante, porque mostra uma forma institucional de tratar o tema, muito diferente da ufologia puramente jornalística ou amadora.

Mas o ponto mais interessante, para além do valor histórico, é outro. Quando se lê o boletim como base de dados, e não como peça de mitologia ufológica, o que aparece é uma amostra fortemente enviesada. Os próprios quadros estatísticos do documento permitem tirar algumas conclusões que, até onde pude verificar nesta leitura, não estão explicitadas no próprio boletim. Em vez de fortalecer a ideia de um conjunto sólido de evidências físicas, eles sugerem uma casuística dominada por contexto humano, filtro institucional, observação subjetiva e repertório cultural.

O primeiro resultado forte vem do horário das observações. O Gráfico 005 resume 70 ocorrências: 9 ao alvorecer, 10 de dia, 9 ao anoitecer e 42 à noite. Se a distribuição fosse minimamente equilibrada entre essas quatro faixas, esperaríamos 17,5 casos por faixa. Um teste qui quadrado simples dá χ² = 45,77, com 3 graus de liberdade e p = 6,3 × 10^-10. Em termos práticos, isso significa que a concentração noturna é forte demais para ser tratada como flutuação casual. E essa concentração não favorece a leitura extraordinária do material. Favorece a hipótese de ambiguidade perceptiva, porque é justamente à noite que referências de tamanho, distância, cor e movimento ficam mais frágeis.

O segundo resultado forte vem do modo de observação. O boletim resume 66 casos quanto ao meio empregado: 56 observações a olho nu, 7 com óculos e 3 com binóculos. Aplicando um teste de aderência entre as três categorias, obtemos χ² = 79,18, com 2 graus de liberdade e p = 6,4 × 10^-18. O resultado é brutal. A amostra depende esmagadoramente de observação desassistida. Isso é crucial, porque um banco de relatos dominado por observação a olho nu é muito mais vulnerável a erro de interpretação, ilusão de perspectiva, memória reconstruída e sugestão cultural. Não é uma base forte para sustentar a existência de objetos extraordinários.

O terceiro resultado forte aparece no perfil social das testemunhas. O gráfico de sexo registra 64 homens e 19 mulheres, totalizando 83 casos. Num teste binomial contra um nulo simples de 50/50, o p valor é 7,4 × 10^-7. Isso mostra que a amostra está muito longe de qualquer neutralidade populacional. Não estamos diante de qualquer brasileiro vendo qualquer coisa. Estamos diante de uma casuística seletiva, formada por quem circulava mais em certos ambientes, tinha mais legitimidade para relatar, mais acesso aos canais de registro ou era mais facilmente aceito pelos investigadores como testemunha válida.

O viés educacional vai na mesma direção, e aqui a comparação com o Brasil da época é especialmente reveladora. No Gráfico 014, o boletim registra 8 analfabetos, 25 em grupo escolar, 13 em nível ginasial, 6 em nível superior e 11 universitários, totalizando 63 casos. Isso significa que 47,6% da amostra tinham pelo menos formação ginasial e que 27,0% estavam nas categorias superior ou universitário. Isso já indica, por si só, uma amostra relativamente escolarizada. Quando se compara esse perfil com o Censo de 1970, a discrepância fica ainda mais clara. Para a população brasileira com 5 anos ou mais, o total era de 79,3 milhões de pessoas. Destas, apenas 893 mil, cerca de 1,1%, estavam na faixa de 13 a 17 anos de estudo, e 2,46 milhões, cerca de 3,1%, estavam na faixa de 10 a 12 anos de estudo. Mesmo reconhecendo que as categorias do boletim e do censo não são idênticas, a diferença é grande demais para ser ignorada. O perfil educacional da amostra do SIOANI está muito acima do perfil educacional médio do Brasil naquele momento. Isso sugere um conjunto de testemunhas mais urbano, mais letrado e mais exposto a jornais, rádio, televisão, ficção científica e à própria casuística dos discos voadores que circulava na época.

Há outros sinais do mesmo padrão. O gráfico de área de observação concentra 33 casos em cidade, contra 12 em sítio, 10 em fazenda e 10 em vila. O boletim também registra 21 testemunhas com TV e 19 sem TV no subconjunto em que esse dado foi anotado. Somado ao perfil profissional listado nos casos, com piloto civil, bancário, engenheiro, policial, técnico, comerciante, industrial, médico veterinário e funcionário público, isso reforça a leitura de uma amostra predominantemente urbana, letrada e socialmente integrada aos circuitos de informação do período.

Outro ponto decisivo é que o próprio documento não trata todos os relatos como igualmente confiáveis. Há uma seção de exames psicológicos com 18 examinados, dos quais 13 sem psicopatologia definida e 5 em categorias que incluem delírios, alucinações, questionamentos e tendência à mitomania. Essa informação, vinda do próprio boletim, enfraquece qualquer tentativa de usar o SIOANI como confirmação homogênea de casos objetivos. Os autores do documento sabiam que parte da casuística era frágil, contaminada ou psicologicamente problemática.

Quando se passa da estatística geral para os casos individuais, a mesma impressão continua. Os relatos mais impressionantes não são os mais sólidos. Em geral, são os mais carregados de elementos narrativos típicos da cultura ufológica da época. O caso mais extremo é o XL-CI-040, cuja narrativa inclui objeto semelhante a um carrossel, três tripulantes baixos do lado de fora, jato de luz paralisante, transporte para local desconhecido, seres semelhantes a humanos com voz rouca e tentativa áudio visual de comunicação. Esse tipo de relato é valioso como documento cultural, mas sua plausibilidade empírica é muito baixa. Em contraste, há casos bem mais sóbrios, que apontam justamente na direção oposta à hipótese extraordinária. Um bom exemplo é o XLII-CI-042, observado por piloto civil em 13 de maio de 1969, às 18h30, na região de Botucatu-SP, com descrição de uma fonte luminosa com duas caudas flamejantes e um globo central esverdeado; em seguida, segundo o boletim, as caudas se apagaram, o globo escureceu e pareceu descer em direção ao solo. Lido sem sensacionalismo, o episódio é muito mais compatível com a passagem de um meteoro muito brilhante ou superbólido, possivelmente com fragmentação, do que com um “disco voador” no sentido forte da literatura ufológica. A presença de caudas, a coloração intensa, a rápida mudança de aspecto e a impressão de descenso são elementos clássicos desse tipo de fenômeno atmosférico luminoso. Em vez de reforçar a hipótese extraordinária, esse caso mostra justamente o contrário: parte da casuística do boletim pode ser explicada de modo plausível por fenômenos naturais mal enquadrados pelo vocabulário ufológico da época.

O ponto central, portanto, é este. Estatística nenhuma, a partir desse boletim, consegue provar que os relatos são verdadeiros ou falsos em bloco. O que os números conseguem mostrar é outra coisa, e ela já é muito reveladora. A amostra do SIOANI tem assinatura clara de viés humano: concentração noturna, predominância de observação a olho nu, filtro social masculino, perfil educacional relativamente alto, contexto urbano e presença explícita de casos psicologicamente frágeis. Isso é compatível com um arquivo histórico de relatos selecionados e interpretados, e não com um corpo robusto de evidências físicas independentes.

Lido com cuidado, o boletim do SIOANI de 1969 continua sendo um documento importante. Mas o que ele mostra, com mais força, não é a prova de naves de origem extraterrestre. O que ele mostra é como instituições brasileiras do período tentaram dar forma burocrática, estatística e aparentemente técnica a uma casuística que, no fundo, permanecia profundamente dependente de percepção humana, contexto cultural e filtros sociais. E justamente por isso essa leitura quantitativa do boletim é relevante. Ela desloca o documento do campo do mito para o da análise crítica.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Rosaly Lopes, um exemplo de pesquisadora

 

Imagem que mostra um momento do seminário da professora Rosaly.

A professora Rosaly Lopes é um exemplo de pesquisadora que inspira por sua postura profissional. Atua em um centro de pesquisa de excelência, com recursos muito superiores aos da maioria das instituições, sem abrir mão de ser simpática, educada e generosa. Mesmo com uma rotina exigente e muitos convites para seminários, mantém-se disponível para atender solicitações. Foi uma honra interagir com ela no XXV Curso de Extensão em Astronomia da UFBA, em 22/01/2026.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Universidade pública: por que o Brasil ainda insiste no funil de entrada?


Quadro de esquete do programa Hermes & Renato retratando
o personagem “Charlinho”.

O ponto estrutural do ensino universitário público é este: no Brasil, o acesso às universidades públicas é, em regra, condicionado a processos seletivos (vestibulares e/ou ENEM/SISU), o que cria um funil de entrada. Em contraste, na Argentina, muitas universidades públicas adotam modelos de ingresso mais amplo, frequentemente com ciclos iniciais e filtros ao longo do percurso acadêmico (por exemplo, o CBC), em um arranjo historicamente associado às reformas universitárias iniciadas em 1918.


Esse arranjo vem sendo mantido apesar de restrições econômicas e fiscais, em um país cujo PIB nominal é significativamente menor que o do Brasil (da ordem de um quarto a um terço, a depender do ano e do câmbio). Diante disso, a questão é por que o Brasil continua tratando provas eliminatórias como mecanismo central de acesso, em vez de avaliar alternativas de entrada mais amplas, acompanhadas de políticas de permanência e de uma estrutura acadêmica capaz de absorver a demanda.

Quando esse tema fica fora da pauta, o debate público tende a se concentrar em episódios de alta repercussão emocional, como a aprovação de um estudante pobre de Salvador em medicina na USP. Isso acaba virando uma versão triste da narrativa do “menino Charlinho que só queria estudar”, célebre esquete do programa Hermes & Renato, que expõe como a superação quase sobre-humana é celebrada por nossa imprensa e por parte da sociedade, em vez de se discutir soluções estruturais. Com isso, questões como critérios de acesso, permanência e prioridades de política pública recebem menos atenção do que merecem.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Ensaio de ocultação estelar — (11978) Makotomasako

Em 10/02/2026, fiz um ensaio, a partir do centro de Salvador, para registrar a ocultação da estrela Tycho-2 1823-285-1 (Figura 1) pelo asteroide do cinturão principal  (11978) Makotomasako, prevista para 11/02/2026, usando um telescópio Unistellar eVscope 2 do Planetário da UFBA. No site do fabricante, a previsão indicava uma janela de observação em UTC de 21:45:00 a 21:55:21, com coordenadas-alvo RA = 04h 15m 48s (63,95066°) e Dec = +26° 34′ 01″ (26,56692°).

Ocultações estelares são análogas a eclipses solares vistos da Terra, mas com asteroides no lugar da Lua e estrelas no lugar do Sol. Sua observação permite estimar, com alta precisão, as dimensões e a forma projetada do asteroide, além de possibilitar a detecção de satélites ou anéis. O albedo, isto é, a fração de luz refletida pela superfície, não é obtido diretamente pela ocultação; em geral, ele é inferido ao combinar o diâmetro medido na ocultação com a magnitude absoluta (H) do asteroide. O tipo taxonômico também pode sugerir valores típicos de albedo, por estar relacionado à composição e às propriedades da superfície, mas essa estimativa é indireta. Obter informações por observação direta da superfície é difícil para a maioria dos asteroides, devido ao baixo brilho e ao pequeno tamanho aparente.



Figura 1 — Esta imagem é o resultado do empilhamento de sete exposições de 0,2 s, semelhantes à da Figura 2, o que aumentou a relação sinal-ruído em aproximadamente 2,6× (≈ √7) em relação ao registro individual. Imagem gerada pelo aplicativo online “Astrometry”.


No ensaio, usei tempo de exposição de 200 ms (0,2 s) e ganho de 30 dB, conforme recomendado pelo fabricante. A estrela-alvo é listada com magnitude 11,51, e a queda prevista durante a ocultação é de 6,09 magnitudes.

O que significa “30 dB” aqui? É o ganho eletrônico (amplificação) aplicado ao sinal do sensor. Em termos de amplitude, 30 dB ≈ 31,6× (1030/20) de amplificação. Isso aumenta o sinal, mas também amplifica o ruído e pode facilitar saturação em pixels brilhantes. Não é “contraste” e não é, por si só, uma medida direta de relação sinal-ruído.

O telescópio apontou corretamente para a estrela, com desvio inferior a uma dezena de segundos de arco em relação à posição catalogada em ascensão reta e declinação, e ela ficou facilmente visível a partir do centro de Salvador com tempo de exposição de 0,2 s (Figura 2).

Figura 2 – Primeira imagem da sequência obtida
com tempo de exposição de 0,2 s. A estrela a ser ocultada está no
meio da imagem, cuja orientação vertical é a inversa da Figura 1.

  • A linha vermelha marca a linha central (centralidade) da faixa prevista da sombra.
  • As linhas azuis indicam o caminho previsto e a escala associada ao tamanho estimado do asteroide.
  • As linhas laranjas delimitam a incerteza de 1σ na predição da faixa.

Figura 3

O que é “1σ”? “1σ” significa um desvio-padrão da incerteza: é uma faixa que representa a dispersão esperada da posição prevista da sombra no solo. Em geral, essa incerteza é dominada pela incerteza da efeméride (órbita) do asteroide e, em menor grau, pela posição catalogada da estrela. O diâmetro do asteroide afeta principalmente a largura da sombra e as cordas possíveis, mas não é o principal responsável pelo deslocamento do caminho central previsto.

Não registrei o evento em campo por razões logísticas: a faixa prevista tocaria a Terra a algumas dezenas de quilômetros do centro de Salvador, numa região do município de Simões Filho, sem um local seguro para parada e operação. Além disso, por volta de 18:45 de 11/02/2026 (hora de Brasília), o céu ainda estava claro, o que dificultaria a aquisição.

Ainda assim, o ensaio mostra que é muito viável registrar ocultações estelares por asteroides (e, em princípio, por cometas) com este instrumento, mesmo em áreas urbanas com forte poluição luminosa, como no meu sítio observacional, onde o céu deve corresponder à classe 8 na escala de Bortle.


domingo, 8 de fevereiro de 2026

Aquela velha perguntinha: o que é o universo, afinal

Foto de um globo de vidro com a representação de uma galáxia espiral, que me lembrou muito o final de Men in Black (1997). Não resisti e resolvi reproduzir.

Por mais louco que pareça, ciência não é lugar para descartar uma ideia só porque ela soa absurda. O critério não é “parece estranho”, é “dá para confrontar com o que observamos?”. E como observamos uma parte muito pequena do universo, é bem provável que nossas hipóteses também sejam pequenas e provisórias. É como uma formiga tentando entender o mundo inteiro andando no meio de um deserto.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Infância em tempos de guerra

 


MILTON e NEUZA são filhos do cabo Augusto Marcondes, de Campinas. Estão fortes e confiantes em seu paizinho, que lhes prometeu matar muitos alemães, como nos filmes de “mocinho” ("O Globo Expedicionário", Ano 1945, Edição 30, Pg.3)

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

No bucks, no Buck Rogers!


Gostaria de compartilhar do otimismo da NASA neste momento.

A frase “No bucks, no Buck Rogers!” surgiu entre astronautas do programa Mercury, nos anos 1960, para enfatizar que sem financiamento não haveria voos espaciais nem heróis como o personagem de ficção científica Buck Rogers. Tom Wolfe registrou a expressão em The Right Stuff (1979), e o filme homônimo de 1983 a popularizou como crítica bem-humorada à dependência da exploração espacial de verbas públicas. O shutdown de 1º de outubro de 2025 pode paralisar o plano da NASA de enviar astronautas em uma missão de circunavegação lunar em 2026.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Bioassinatura em K2-18b? Vamos com calma.

K2-18b comparado com a Terra
Figura 1 – Representação hipotética do exoplaneta K2-18b em comparação com a Terra.
Fonte: NASA Exoplanet Catalog. 

A mídia comercial de diversos países noticiou com entusiasmo a suposta detecção das linhas espectrais das moléculas metano (CH₄) e dióxido de carbono (CO₂), além de uma possível assinatura de dimetilsulfeto (DMS), na atmosfera do exoplaneta K2-18b. A análise baseou-se em dados espectrográficos no infravermelho obtidos pelo Telescópio Espacial James Webb. Segundo os autores do estudo, essas moléculas poderiam estar associadas à atividade biológica, como o metabolismo de fitoplâncton terrestre. O planeta, classificado como um sub-Netuno (Figura 1), apresenta indícios de água líquida sob uma atmosfera rica em hidrogênio e orbita uma estrela anã vermelha. A hipótese de habitabilidade é levantada pelo fato de K2-18b situar-se próximo ao limite interno da zona habitável de sua estrela, onde a água, teoricamente, poderia permanecer em estado líquido (Figura 2).

Ainda assim, é necessário manter cautela diante de anúncios com implicações extraordinárias, especialmente quando amplificados pela imprensa generalista. Moléculas como as mencionadas podem ter origens abióticas plausíveis. Além disso, há a questão da robustez estatística da detecção, frequentemente negligenciada nessas discussões. Convém lembrar que jornalistas não têm a obrigação de dominar os fundamentos da inferência estatística. No entanto, chama atenção a recorrente veiculação de frases como “há 99,7% de confiança na detecção”, implicando que resta apenas 0,3% de chance de erro.

Essa interpretação é conceitualmente equivocada. Em termos estatísticos, o que se tem nesse tipo de análise é, geralmente, uma medida de razão sinal/ruído (S/N), que, quando igual a 3, é informalmente descrita como uma detecção “a três sigmas”. Isso significa apenas que a amplitude do sinal supera três vezes a estimativa local do desvio padrão do ruído — um critério operacional, mas não necessariamente um teste estatístico clássico com hipótese nula formal, correções para comparações múltiplas ou consideração de incertezas sistemáticas.

Basear a inferência unicamente nesse procedimento compromete a confiabilidade da conclusão. Considero a alegada “detecção” estatisticamente controversa por duas razões principais. Primeiro, nota-se, em muitos trabalhos recentes, uma fragilidade conceitual na aplicação rigorosa dos métodos probabilísticos. Segundo, há uma pressão estrutural crescente no meio acadêmico que favorece a divulgação apressada de resultados ainda incertos, seja por motivações institucionais, busca de financiamento ou necessidade de manter produtividade científica. Isso se agrava em sistemas como o norte-americano, onde a permanência de pesquisadores em universidades está frequentemente vinculada a métricas de impacto e publicação.

Sistema K2-18
Figura 2 – Posição do planeta no sistema K2-18.
K2-18b encontra-se próximo da chamada zona de habitabilidade, onde, em princípio, a água poderia existir no estado líquido.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Azulejos Atômicos

O padrão de azulejos combina o modelo atômico de Rutherford com temas florais, típicos da decoração de muitas casas antigas de Salvador. Esses azulejos embelezam uma loja de molduras na Rua Carlos Gomes, no centro da cidade. Notei esse tema peculiar pela primeira vez há 20 anos, durante minha última visita ao local. Registro realizado em 07/01/2025.






domingo, 5 de fevereiro de 2023

A Composição Química do Cometa 96P/Machholz: Devemos Confiar em Tudo o Que Lemos na Internet?


Diversos canais de divulgação científica na internet apresentaram duas hipóteses para explicar por que o cometa Machholz 1 exibe abundâncias de cianogênio e carbono inferiores às observadas em uma amostra homogênea, criada e atualizada há décadas por pesquisadores do Lowell Observatory (EUA). A primeira hipótese propõe que o cometa tenha se formado em uma região distinta do Sistema Solar, diferente daquela onde se originou a maioria dos cometas da amostra. Essa possibilidade deve ser analisada com cautela, pois há sempre o risco de viés observacional. Tal viés pode estar relacionado à seleção dos objetos estudados, já que astrônomos tendem a observar cometas mais brilhantes, o que favorece a obtenção de dados de melhor qualidade.

A segunda hipótese sugere que o cometa Machholz 1 seja de origem interestelar, ou seja, que tenha se formado fora do Sistema Solar. Embora essa ideia seja instigante, ela permanece altamente especulativa, pois é extremamente difícil determinar a origem interestelar de um cometa periódico apenas com base em sua órbita atual. Além disso, os sistemas exoplanetários provavelmente se formam de maneira semelhante ao nosso, compostos pelos mesmos elementos, ainda que em proporções levemente distintas. Diferenças significativas, como as sugeridas por hipóteses que associam a formação de planetas gigantes a estrelas com alta metalicidade, são exceções e não justificam conclusões precipitadas.

É fundamental manter uma postura crítica diante do que é veiculado na internet. Jornalistas não são cientistas e não têm a obrigação de ser. Além disso, declarações de astrônomos podem, por vezes, ser interpretadas fora de contexto.



Periélio do cometa Machholz 1 registrado através da câmera C3
do satélite SOHO da NASA/ESA.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Minha Vivência com o Colonialismo Cultural na Ciência

 


Esta postagem tem um caráter de reflexão e registro para futuras gerações de cientistas brasileiros. Em 15 de dezembro de 2022, enviei uma short communication para o The Astronomer’s Telegram (Atel), baseada em dados de dois asteroides próximos à Terra que observei em 2013 e 2014. Como observações desses objetos já haviam sido divulgadas no Atel, considerei razoável compartilhar meus resultados nesse mesmo canal, apesar do intervalo de tempo.

No dia seguinte, recebi um e-mail de um pesquisador do INAF/IAPS, em Roma (Itália), expressando surpresa pela submissão de observações realizadas quase uma década antes. Ele ressaltou que o Atel foi concebido para a divulgação de eventos transitórios, descobertas recentes ou requisições de acompanhamento, e não para confirmações de dados previamente publicados. Além disso, encaminhou uma cópia do e-mail ao editor do Atel. Em minha resposta, destaquei que dados não processados e publicados não contribuem para a ciência, e que a confirmação é parte essencial do método científico.

Ao buscar mais informações, constatei que o pesquisador em questão possui uma longa trajetória na astrofísica de estrelas variáveis e de altas energias, tendo publicado desde 1973. Esse histórico de pesquisa torna sua postura ainda mais intrigante, pois a ciência se constrói sobre a reavaliação e validação de dados.

A questão que se impõe é: por que um pesquisador experiente desconsideraria um dos pilares fundamentais do método científico? Uma possível explicação é o viés cultural. A tradição acadêmica europeia, historicamente dominante, pode levar alguns de seus representantes a adotar posturas exclusivistas sobre o que deve ou não ser publicado. Isso se torna particularmente relevante ao notar que o pesquisador faz parte de um grupo da IAU voltado à preservação de dados astronômicos históricos — o que torna sua reação ainda mais paradoxal.

A situação levanta outra reflexão: um pesquisador de uma nação do Norte Global teria recebido esse mesmo tipo de questionamento? O tom do e-mail indicava uma hierarquização implícita, onde a legitimidade da minha submissão foi questionada sem um motivo claro além do tempo decorrido. Curiosamente, passadas mais de 24 horas desde minha resposta, não recebi retorno nem do pesquisador nem do editor. Tampouco houve qualquer impacto sobre minhas credenciais no Atel.

Essa experiência reforça um ponto fundamental para cientistas brasileiros: não devemos nos intimidar diante de pesquisadores estrangeiros, independentemente de sua trajetória ou prestígio. Formação em universidades europeias ou norte-americanas não implica, por si só, competência excepcional. Muitos pesquisadores mantêm, ao longo de suas carreiras, linhas de pesquisa conservadoras, contribuindo com artigos em grandes colaborações, mas sem inovação substancial. Além disso, erros ocorrem em todos os níveis — em 2022, o próprio pesquisador que me questionou confundiu um pixel quente em uma imagem CCD com um outburst em um quasar.

Casos semelhantes ocorrem também no processo de revisão por pares. Já encontrei pareceristas de artigos sobre meteoros que demonstravam pouco domínio sobre estatística e probabilidade, conceitos que ensino a alunos do primeiro semestre da UFRB. Esses pareceres incluíam expressões informais como "laranjas e maçãs" ou "santo graal", que foram aceitas sem questionamento pelo editor da revista.

Este episódio não é um caso isolado. Já enfrentei desafios semelhantes ao interagir com pesquisadores italianos e, se considerar relevante, poderei abordar essa questão em uma futura postagem. Por ora, opto por manter a discrição quanto ao nome do autor do e-mail, respeitando sua trajetória acadêmica. Entretanto, considero necessário registrar este relato para fomentar uma discussão mais ampla sobre reconhecimento e equidade na ciência internacional.

Abaixo reproduzo a sequência de e-mails:

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Dear dr. Betzler, I was rather surprised to see in your ATel #15812 the

report of observations made nearly ten years ago! I was convinced that

ATels are supposed to be used to communicate new or very recent

observations to help follow-up by other observers, not to confirm old

observations already published on ATel at due time.

Sincerely yours

xxxxxx

-- 

Associated Researcher at INAF/IAPS-Roma, Italy


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Dear Dr. xxxx,


Thank you for your email and your observations. However, I must remind you that there are thousands of gigabytes of data on our personal hard drives and in the observatories' public storage. If these data are not processed and published, they do not contribute to the development of science, and confirmation is an important part of that.


Sincerely


Alberto S. Betzler

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sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Um belo gráfico

Gráfico mostrando a evolução da apuração da votação para presidente do Brasil em 30 de outubro de 2022, uma das noites mais felizes e emocionantes da minha vida. Os dados foram obtidos em tempo real no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).



sexta-feira, 23 de setembro de 2022

OVNI em Salvador

Registro de um objeto voador não identificado (OVNI) no céu de Salvador em 19/01/2022, entre 21:03 e 21:04 UTC. Fotos obtidas com um iPhone XR, ao lado do Hospital Teresa de Lisieux, no bairro do Itaigara.




Hipóteses:

a) Avião: O objeto não deixou rastro de condensação, nem refletia a luz solar em tons avermelhados ou laranjas. Seu aspecto era estelar, com uma cor azul-esbranquiçada.

b) Estágio de foguete: O objeto se movia para o oeste. Lançamentos espaciais geralmente ocorrem para o leste, aproveitando o componente da velocidade de rotação terrestre. Órbitas retrógradas são possíveis, mas pouco utilizadas. Essas órbitas têm objetivos específicos, como fotografar uma mesma região da Terra sempre durante o dia ou evitar o sobrevoo de determinado território durante o lançamento. Israel, por exemplo, lança o foguete Shavit para o oeste para evitar o sobrevoo de nações árabes.

c) Reentrada de satélite: O objeto não apresentava uma cauda de gás atmosférico ionizado. Além disso, o satélite deveria estar em uma órbita retrógrada.

d) Estação Espacial Internacional: Não havia nenhuma passagem visível no momento do registro.

e) Nave extraterrestre ("Disco Voador"): Estranhou eu ter colocado a nave extraterrestre por último? OVNI significa "objeto voador não identificado", não necessariamente "nave espacial extraterrestre", como muitos ufólogos sugerem. Sempre é possível listar diversas hipóteses para explicar um fenômeno e, ao mesmo tempo, ensinar um pouco de ciência.

domingo, 28 de novembro de 2021

Imagens Urbanas Curiosas

 Algumas fotos obtidas com câmeras de telefones celulares nas ruas de Salvador e no interior da Bahia.

Amargosa - 2016: "Um Gol dentro do gol".



Rua São José de Cima - 20-08-2019

Rua Professor Viegas - 26-10-2019

Rua Professor Alfredo Rocha - 01-11-2019

Rua dos Perdões - 04-11-2019

Avenida Jequitáia - 25-11-2019


quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O Astrônomo Leu "O Primeiro Homem: A vida de Neil Armstrong"

Não escrevo uma pequena resenha sobre um livro que terminei de ler há alguns anos. A motivação para ler "O Primeiro Homem: A Vida de Neil Armstrong" (Editora Intrínseca, 2018) foi ter assistido ao excelente filme "O Primeiro Homem". O livro, escrito por James R. Hansen, professor de história da Universidade de Auburn (Alabama, EUA), é a biografia oficial do primeiro homem a pisar na Lua, Neil Alden Armstrong, e é baseado em entrevistas do autor com o astronauta, pessoas próximas ligadas ao programa espacial e documentação audiovisual.

O que percebi claramente é que, muito provavelmente, Hansen se tornou um admirador do objeto de seu trabalho. Aparentemente, o autor perdeu a isenção necessária para escrever uma obra desta natureza. O autor faz longos e desnecessários comentários sobre situações particulares da vida de Armstrong que, em minha opinião, se assemelham a fofocas. Exemplos incluem a descrição da pressão que Buzz Aldrin e seu pai teriam feito para que Buzz fosse o "primeiro homem"; o pedido de divórcio de Janet, a primeira esposa de Neil, por "não compreendê-lo ainda"; as características quase divinas de Neil descritas por um repórter numa coletiva de imprensa antes da missão Apollo 11; e a opinião de Donald Slayton, chefe de operações de voo e do departamento de astronautas, sobre o excesso de fotografias de Buzz obtidas na superfície lunar. Com esta ressalva em mente, torna-se complicado considerar a personalidade de Neil Armstrong traçada pelo autor como inteiramente fidedigna.

De qualquer forma, a leitura me permitiu concluir que Armstrong era extremamente focado no trabalho, sério, responsável e uma pessoa de poucas e precisas palavras. Neil era um excelente piloto naval, com grande experiência em atividades embarcadas e na condução de veículos experimentais, como o X-15. Talvez essas características tenham sido decisivas para sua escolha como comandante da missão. O sangue-frio de Armstrong ajudou a orientar Buzz na decisão de ignorar o piloto automático do módulo lunar, evitando o pouso em uma área pedregosa do Mar da Tranquilidade. Também fica claro que a missão foi bem-sucedida por combinar uma tripulação extremamente bem treinada com o limite máximo da tecnologia disponível na segunda metade da década de 1960.

Leitura altamente recomendada para quem deseja entender melhor a história inicial do programa espacial dos Estados Unidos.

Capa do livro.

Pouso lunar segundo o filme "O Primeiro Homem"

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Documento Especial - Ufologia

O "Documento Especial" foi um programa jornalístico muito popular nas décadas de 1980 e  1990.  O estilo do programa é o chamado "jornalismo verdade". Nelson Hoineff, o criador do programa, faleceu nesta semana. Como uma homenagem, disponibilizo o episódio sobre ufologia.  O rigor  jornalístico,  multiplicidade de tópicos e até a trilha sonora são de inegável qualidade a despeito deste programa tratar de ufologia, que  não é considerada uma ciência de facto



sábado, 3 de agosto de 2019

"Planform view" de Aeronaves

Fotos de alguns aviões em aproximação final do aeroporto de Salvador (Bahia).

P-3AM - Força  Aérea Brasileira -03-08-2019 UT.

EMB-190/195 - Azul Linhas Aéreas Brasileiras- 13-07-2019 UT

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Chandrayaan-2

A sonda lunar Chandrayaan-2 foi lançada em 22-07-2019 UT do centro espacial Satish no sul da India. A nave em questão possui três componentes: um "orbiter", um "lander" e um "rover". O objetivo da missão era investigar a presença de água próxima ao polo sul da Lua, uma descoberta feita pela Chandrayaan-1 em 2008.

Uma pergunta pertinente é: por que a Índia conseguiu feitos desta magnitude e nós, no Brasil, não? Índia e Brasil possuíam programas espaciais em níveis comparáveis de desenvolvimento no início dos anos 1980. Justificativas simplistas para o hiato atual podem estar associadas à aplicabilidade do programa de foguetes indiano:

  1. Necessidades militares: A Índia e o Paquistão estão em estado permanente de tensão desde 1947. Ambos os países possuem armas nucleares, e os foguetes são uma ferramenta eficiente para a entrega dessas armas.

  2. "Soft power": As conquistas do programa espacial demonstram ao mundo a independência científica e tecnológica do país, reforçando a autoestima nacional.

Abaixo, apresento um vídeo do lançamento da sonda Chandrayaan-2.

Se tivéssemos lançado nosso primeiro satélite utilizando meios próprios na década de 1990, com um financiamento constante, poderíamos ter dezenas de satélites em órbita e, provavelmente, estaríamos lançando sondas espaciais para a Lua ou Marte nos dias de hoje.

Espero ainda ver o Brasil integrando o seleto grupo de nações que explora a "fronteira final", algo que certamente ajudaria a superar o complexo crônico de inferioridade que, infelizmente, domina o imaginário de boa parte dos brasileiros.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

A ciência que eu faço - Jair Barroso Junior

A sexta parte do excelente depoimento do ex-astrônomo do Observatório Nacional (ON), Jair Barroso Junior, oferece uma rica reflexão. O Sr. Barroso é bacharel em Física pela Universidade do Estado da Guanabara (1959) e foi um dos primeiros mestres em Astronomia formados no Brasil. Ele concluiu seu mestrado no Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA) em 1971, com uma dissertação que aborda o estudo de sistemas estelares binários cerrados. Os dados observacionais para esse estudo foram obtidos através de um telescópio refletor Cassegrain-Newtoniano de 0,5 m de abertura, construído no próprio ITA.

Outro trabalho interessante realizado pelo Sr. Barroso foi a utilização de um "fotômetro de cunha", acoplado à luneta de 32 cm do ON, para determinar o período de oscilação de brilho da estrela variável CY Aquarii, em 1969.

Este depoimento é uma verdadeira lição de vida para uma parcela significativa de jovens cientistas e professores de instituições públicas brasileiras, que, infelizmente, parecem estar mais preocupados com suas agendas pessoais.



Minha Vivência com o Colonialismo Cultural na Ciência

  Esta postagem tem um caráter de reflexão e registro para futuras gerações de cientistas brasileiros. Em 15 de dezembro de 2022, enviei uma...