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sábado, 17 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro presidente: o que realmente mudaria na sua vida?

Recado de Eduardo Moreira, do ICL, sobre os riscos que um eventual governo Flávio Bolsonaro poderia representar para o futuro das gerações presentes e futuras do Brasil, tomando como referência a experiência de países vizinhos com governos de extrema direita alinhados aos Estados Unidos.

Você não precisa gostar de Lula nem do PT. A questão é pensar de forma pragmática sobre qual cenário pode causar menos danos a você, à sua família e às pessoas de quem você gosta.
Não costumo postar nada sobre política neste blog, mas considero a situação grave o suficiente para abrir uma exceção.




domingo, 20 de setembro de 2026

Moracy Marques Coimbra e a construção de telescópios no MAST

Aos 14 anos de idade, em 1987, frequentei o curso de construção de telescópios do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) e, sob a orientação de  Moracy Marques Coimbra, construí um telescópio newtoniano. Eu era o aluno mais novo do curso.

O MAST fica em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, relativamente longe de onde eu morava, no Horto Florestal. Pegava dois ônibus para chegar ao museu e fazia esse percurso quase todos os dias, de segunda a sábado, durante praticamente um ano inteiro. Foi minha primeira experiência andando sozinho de ônibus para um lugar tão distante de casa.

Minha mãe teve um papel muito importante nessa história, pois me deu total apoio naquela empreitada. Em uma ocasião, chegou a carregar comigo pesadas chapas de aço que seriam utilizadas na construção da montagem equatorial do telescópio. Havíamos comprado o material num sábado, na Rua Bela, em São Cristóvão, numa época em que ainda não existia ali o viaduto da Linha Vermelha. Em outro dia, fomos ao SAARA, no Centro do Rio de Janeiro, comprar os pós abrasivos de carbeto de silício, os chamados carborundos, em granulometrias que iam de 80 a 1500, utilizados no desbaste e refinamento da superfície de vidro do espelho primário.

O professor Coimbra tinha um temperamento difícil e um estilo de condução que, em alguns momentos, podia tornar a convivência complicada. Ainda assim, teve um papel importante na formação de muitos alunos e orientou com sucesso a construção de dezenas de telescópios. Hoje entendo que esse resultado se deveu tanto à sua experiência técnica quanto ao grande empenho dos participantes em concluir seus instrumentos. Também é preciso considerar o contexto dos anos 1980, quando certos comportamentos inadequados eram menos questionados socialmente, embora já fossem problemáticos mesmo naquela época.

Com muita persistência, concluí um telescópio newtoniano de 18 cm f/8. Curiosamente, usei-o muito pouco. Acabei vendendo-o e empreguei parte do dinheiro na compra de um newtoniano de 30 cm f/6, construído pelo saudoso Aguirre, de Vila Valqueire. Esse telescópio permanece comigo até hoje.

Anos mais tarde, soube que o projeto do instrumento construído no curso era inspirado nos célebres telescópios Cave Astrola e que algumas das técnicas empregadas na confecção do espelho primário não estavam entre as mais usuais na construção amadora de telescópios.

Hoje sou astrônomo profissional e professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e continuo considerando aquele curso uma excelente iniciativa do professor Ronaldo Rogério de Freitas Mourão durante sua gestão à frente do MAST.

Para mim, porém, sua importância foi muito além da construção de um telescópio. Sendo ainda tão jovem, aquele curso me colocou em contato direto com óptica, mecânica e astronomia observacional. Também me apresentou a materiais didáticos em língua inglesa, constituindo meu primeiro contato efetivo com o idioma em um contexto científico. 

Lamento que atualmente não existam mais iniciativas desse tipo com a mesma continuidade. Um curso assim pode fazer muito mais do que ensinar alguém a construir um telescópio: pode despertar vocações e estimular a formação prática de futuras gerações de cientistas, engenheiros e astrônomos amadores em nosso país.






quinta-feira, 20 de agosto de 2026

SEBIT tem voo interrompido em Alcântara: e o VSB-30?

Ontem, 19 de agosto de 2026, por volta das 16h30, horário de Brasília, foi lançado do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, o SEBIT, foguete suborbital multipropósito desenvolvido pela empresa aeroespacial sul-coreana INNOSPACE. O veículo utiliza um motor híbrido de classe de três toneladas de empuxo e foi projetado para transportar equipamentos e experimentos a altitudes entre 50 e 100 km.

O voo inaugural, entretanto, durou apenas cerca de 35 segundos. Segundo informações divulgadas após o lançamento, o SEBIT apresentou um desvio da trajetória planejada e, por razões de segurança, a Força Aérea Brasileira acionou o Sistema de Terminação de Voo (FTS). O veículo caiu no mar, dentro da zona de segurança previamente estabelecida. Não houve feridos nem danos materiais. Até o momento, não foi divulgada a altitude atingida pelo foguete antes da terminação do voo.

Imagens do voo do SEBIT a partir do Centro de Lançamento de Alcântara. Reprodução/G1, via Diário do Centro do Mundo.


Uma boa pergunta para quem acompanha o Programa Espacial Brasileiro é: e o VSB-30?

O Brasil já dispõe de um veículo suborbital desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) com um histórico operacional bastante mais longo. O VSB-30 é um foguete de dois estágios a propelente sólido, capaz de transportar cargas úteis científicas e tecnológicas de até 400 kg e atingir cerca de 270 km de altitude. Em missões de microgravidade, pode proporcionar aproximadamente seis minutos acima de 110 km. O veículo acumula dezenas de lançamentos bem-sucedidos e já foi utilizado no Brasil, na Suécia, na Noruega e na Austrália, inclusive em programas científicos europeus.

Isso não significa que SEBIT e VSB-30 sejam veículos idênticos. O SEBIT utiliza propulsão híbrida, é monoestágio e foi concebido para missões na faixa de 50 a 100 km, enquanto o VSB-30 é um foguete de sondagem de maior desempenho. Existe, porém, uma clara sobreposição nas aplicações: experimentos científicos, testes tecnológicos e pesquisas em ambiente suborbital e de microgravidade.

A utilização comercial de Alcântara por empresas estrangeiras pode gerar receita, experiência operacional e maior atividade para o centro de lançamento. O problema estratégico é outro: por que não dedicar esforço semelhante para ampliar a utilização, modernizar e comercializar também os veículos desenvolvidos no Brasil?

Cooperação internacional é necessária e Alcântara deve receber clientes estrangeiros. Mas um centro de lançamento brasileiro não pode se transformar apenas em infraestrutura para o desenvolvimento e a consolidação comercial de lançadores de outros países. Se o objetivo é autonomia tecnológica, a experiência e os recursos obtidos com essas operações precisam caminhar junto com investimentos consistentes nos lançadores nacionais.

domingo, 9 de agosto de 2026

Um adendo à Escala de Kardashev: energia, eficiência e megaestruturas

Excelente vídeo do canal Central Pandora sobre megaestruturas na ficção científica. O único adendo que eu faria é que a escala original de Kardashev vai apenas do tipo I ao III. Civilizações capazes de utilizar a energia de aglomerados de galáxias ou de todo o Universo são extensões posteriores da escala, populares sobretudo em vídeos mais sensacionalistas, mas não fazem parte da proposta original de Kardashev.

A escala surgiu no contexto das primeiras discussões sobre a possibilidade de detectar civilizações tecnologicamente avançadas. Na mesma época, Kardashev chegou a considerar a fonte CTA 102, então ainda pouco compreendida, como possível manifestação de uma civilização extraterrestre. Posteriormente, ela foi identificada como um quasar.

Há também uma limitação conceitual importante: a escala associa o avanço tecnológico ao consumo de quantidades cada vez maiores de energia. A evolução da microeletrônica mostra, porém, que o desenvolvimento tecnológico também pode ocorrer pelo aumento da eficiência energética, reduzindo a necessidade de megaestruturas.

Além disso, levantamentos no infravermelho já procuraram assinaturas do calor residual esperado de civilizações dos tipos II e III, sem encontrar até hoje evidências convincentes. Os candidatos identificados permanecem não confirmados e, em muitos casos, apresentam explicações naturais plausíveis.



terça-feira, 21 de abril de 2026

Uma curiosa imagem urbana

Mensagem muito apropriada aos brasileiros com afinidade pelos países do Hemisfério Norte neste Dia da Conjuração Mineira. Foto registrada na esquina da Rua Professor Osvaldo O'Dwyer com a Rua Raul Leite, na Vila Laura, em Salvador, em 20 de abril de 2026.



 

sábado, 18 de abril de 2026

Boletim SIOANI 1969: o que os números realmente mostram

Caso XL-CI-040, no boletim do SIOANI de agosto de 1969. O recorte mostra um dos relatos mais narrativamente extraordinários da amostra, associado a paralisia por “jato de luz”, transporte para local desconhecido, presença de tripulantes e tentativa de comunicação. Em termos analíticos, casos assim são mais úteis como evidência do imaginário ufológico do período do que como evidência empírica forte de um fenômeno físico extraordinário.

Esta postagem foi motivada pelo uso recorrente, por parte de autoproclamados pesquisadores de objetos voadores não identificados (OVNIs), dos boletins do SIOANI, sigla de Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados, como suposta prova de seriedade institucional ou de validade científica de casos explorados pela literatura ufológica, bem como pela confiança acrítica depositada em relatos de “testemunhas”. O problema é simples: documentos burocráticos, por mais historicamente interessantes que sejam, não se convertem automaticamente em evidência empírica robusta. Tampouco se tornam menos frágeis apenas por circularem sob aparência oficial ou militar.

Esta postagem serve, portanto, como alerta contra leituras ingênuas de documentos oficiais ou semioficiais apresentados ao público como se, por si sós, bastassem para legitimar alegações extraordinárias. Em tempos de recorrente espetacularização política e midiática do tema dos OVNIs, inclusive com a divulgação seletiva de documentos e narrativas por governos estrangeiros, torna-se ainda mais importante distinguir valor histórico, valor burocrático e valor científico.

Para isso, os documentos analisados nesta postagem são os boletins do SIOANI ligados à Quarta Zona Aérea em 1969, no contexto da Força Aérea Brasileira e das rotinas de informação do MAER/COMDABRA. Convém, porém, definir melhor de que material se trata. Não estamos diante de um único boletim homogêneo, mas de pelo menos dois documentos distintos reproduzidos no dossiê: um primeiro, de 01/03/1969, relativo a “Objetos Aéreos não Identificados. Atribuições do SIOANI”, e um segundo, de 02/08/1969, relativo a “Objetos Aéreos não Identificados. Estatísticas”. Essa distinção é importante porque a leitura histórica e institucional do sistema depende de ambos, mas a análise quantitativa desenvolvida abaixo se apoia sobretudo no segundo, isto é, no boletim estatístico de agosto de 1969, enquanto o primeiro é fundamental para compreender a moldura doutrinária, administrativa e organizacional do SIOANI.

O material não é apenas uma coletânea de relatos. Ele também revela a tentativa de criar uma estrutura doutrinária, administrativa e estatística para receber, classificar e investigar ocorrências de objetos aéreos não identificados no Brasil. Isso, por si só, já lhe confere relevância histórica, pois mostra uma forma institucional de tratar o tema, muito diferente da ufologia puramente jornalística ou amadora. O ponto mais interessante, porém, é outro. Quando se lê o boletim como base de dados, e não como peça de mitologia ufológica, o que aparece é uma amostra fortemente enviesada. Os próprios quadros estatísticos do documento permitem extrair conclusões que, até onde pude verificar, não estão explicitadas no próprio boletim. Em vez de reforçar a ideia de um conjunto sólido de evidências físicas, eles sugerem uma casuística dominada por contexto humano, filtro institucional, observação subjetiva e repertório cultural.

O Project Blue Book Report No. 8, da USAF, não altera esse diagnóstico de fundo. Ao contrário, ele o reforça em plano mais geral. O relatório informa que, entre 1º de junho e 31 de outubro de 1952, 866 relatos foram recebidos, avaliados, indexados e arquivados, em meio a um surto de notificações que o próprio texto associa, em parte, à publicidade em revistas e jornais. Mostra também que os casos eram triados em categorias como unknown, insufficient data, aircraft, balloons, astronomical e other, e que grande parte da casuística permanecia dependente de insuficiência descritiva, ambiguidade classificatória e possibilidade de identificação convencional posterior, caso houvesse dados de fundo melhores. Esse é exatamente o tipo de informação que um relatório institucional pode fornecer com honestidade: evidência de um processo burocrático de recebimento, filtragem, classificação e tentativa de explicação dos relatos, e não prova autônoma de fenômenos extraordinários. Ao mesmo tempo, convém não exagerar o paralelo. Diferentemente do boletim estatístico do SIOANI, o Report No. 8 não publica, de forma agregada, distribuições de sexo, escolaridade, perfil urbano ou meios de observação comparáveis às do documento brasileiro. Ele sustenta uma conclusão análoga sobre fragilidade observacional e triagem institucional, mas não reproduz, no próprio relatório, a mesma sociologia quantitativa das testemunhas.

O primeiro resultado forte da análise do boletim do SIOANI vem do horário das observações. O Gráfico 005 resume 70 ocorrências: 9 ao alvorecer, 10 de dia, 9 ao anoitecer e 42 à noite. Se a distribuição fosse minimamente equilibrada entre essas quatro faixas, esperaríamos 17,5 casos por faixa. Um teste qui-quadrado simples fornece χ² = 45,77, com 3 graus de liberdade e p = 6,3 × 10^-10. Em termos práticos, isso significa que a concentração noturna é forte demais para ser tratada como flutuação casual. E essa concentração não favorece a interpretação extraordinária do material. Favorece, isto sim, a hipótese de ambiguidade perceptiva, porque é justamente à noite que referências de tamanho, distância, cor e movimento se tornam mais frágeis.

O segundo resultado vem do modo de observação. O boletim resume 66 casos quanto ao meio empregado: 56 observações a olho nu, 7 com óculos e 3 com binóculos. Aplicando um teste de aderência entre as três categorias, obtemos χ² = 79,18, com 2 graus de liberdade e p = 6,4 × 10^-18. O resultado é contundente. A amostra depende esmagadoramente de observação desassistida. Isso é crucial, porque um banco de relatos dominado por observação a olho nu é muito mais vulnerável a erro de interpretação, ilusão de perspectiva, memória reconstruída e sugestão cultural. Não se trata, portanto, de uma base forte para sustentar a existência de objetos extraordinários.

O terceiro resultado aparece no perfil social das testemunhas. O gráfico de sexo registra 64 homens e 19 mulheres, totalizando 83 casos. Em um teste binomial contra um nulo simples de 50/50, o p-valor é 7,4 × 10^-7. Isso mostra que a amostra está muito longe de qualquer neutralidade populacional. Não estamos diante de qualquer brasileiro vendo qualquer coisa. Estamos diante de uma casuística seletiva, formada por pessoas que circulavam mais em determinados ambientes, tinham maior legitimidade para relatar, mais acesso aos canais de registro ou eram mais facilmente aceitas pelos investigadores como testemunhas válidas.

O viés educacional aponta na mesma direção, e aqui a comparação com o Brasil da época é especialmente reveladora. No Gráfico 014, o boletim registra 8 analfabetos, 25 em grupo escolar, 13 em nível ginasial, 6 em nível superior e 11 universitários, totalizando 63 casos. Isso significa que 47,6% da amostra tinham pelo menos formação ginasial e que 27,0% estavam nas categorias superior ou universitário. Isso já indica, por si só, uma amostra relativamente escolarizada. Quando se compara esse perfil com o Censo de 1970, a discrepância se torna ainda mais clara. Para a população brasileira com 5 anos ou mais, o total era de 79,3 milhões de pessoas. Destas, apenas 893 mil, cerca de 1,1%, estavam na faixa de 13 a 17 anos de estudo, e 2,46 milhões, cerca de 3,1%, na faixa de 10 a 12 anos de estudo. Mesmo reconhecendo que as categorias do boletim e do censo não são idênticas, a diferença é grande demais para ser ignorada. O perfil educacional da amostra do SIOANI está muito acima do perfil educacional médio do Brasil naquele momento. Isso sugere um conjunto de testemunhas mais urbano, mais letrado e mais exposto a jornais, rádio, televisão, ficção científica e à própria casuística dos discos voadores em circulação na época.

Há outros sinais do mesmo padrão. O gráfico de área de observação concentra 33 casos em cidade, contra 12 em sítio, 10 em fazenda e 10 em vila. O boletim também registra 21 testemunhas com TV e 19 sem TV no subconjunto em que esse dado foi anotado. Somado ao perfil profissional listado nos casos, com piloto civil, bancário, engenheiro, policial, técnico, comerciante, industrial, médico-veterinário e funcionário público, isso reforça a leitura de uma amostra predominantemente urbana, letrada e socialmente integrada aos circuitos de informação do período.

Outro ponto decisivo é que o próprio documento não trata todos os relatos como igualmente confiáveis. Há uma seção de exames psicológicos com 18 examinados, dos quais 13 aparecem sem psicopatologia definida e 5 em categorias que incluem delírios, alucinações, questionamentos e tendência à mitomania. Essa informação, vinda do próprio boletim, enfraquece qualquer tentativa de usar o SIOANI como confirmação homogênea de casos objetivos. Os autores do documento sabiam que parte da casuística era frágil, contaminada ou psicologicamente problemática.

Quando se passa da estatística geral para os casos individuais, a mesma impressão persiste. Os relatos mais impressionantes não são os mais sólidos. Em geral, são os mais carregados de elementos narrativos típicos da cultura ufológica da época. O caso mais extremo é o XL-CI-040, cuja narrativa inclui um objeto semelhante a um carrossel, três tripulantes baixos do lado de fora, jato de luz paralisante, transporte para local desconhecido, seres semelhantes a humanos com voz rouca e tentativa audiovisual de comunicação. Esse tipo de relato é valioso como documento cultural, mas sua plausibilidade empírica é muito baixa.

Em contraste, há casos bem mais sóbrios, que apontam justamente na direção oposta à hipótese extraordinária. Um bom exemplo é o XLII-CI-042, observado por piloto civil em 13 de maio de 1969, às 18h30, na região de Botucatu-SP, com descrição de uma fonte luminosa com duas caudas flamejantes e um globo central esverdeado. Em seguida, segundo o boletim, as caudas se apagaram, o globo escureceu e pareceu descer em direção ao solo. Lido sem sensacionalismo, o episódio é muito mais compatível com a passagem de um meteoro muito brilhante, ou superbólido, possivelmente com fragmentação, do que com um “disco voador” em sentido forte na literatura ufológica. A presença de caudas, a coloração intensa, a rápida mudança de aspecto e a impressão de descenso são elementos clássicos desse tipo de fenômeno atmosférico luminoso. Em vez de reforçar a hipótese extraordinária, esse caso sugere o contrário: parte da casuística do boletim pode ser explicada de modo plausível por fenômenos naturais mal enquadrados pelo vocabulário ufológico da época.

O ponto central, portanto, é este: nenhuma estatística extraída desse boletim consegue provar que os relatos sejam verdadeiros ou falsos em bloco. O que os números conseguem mostrar é outra coisa, e isso já é bastante revelador. A amostra do SIOANI tem assinatura clara de viés humano: concentração noturna, predominância de observação a olho nu, filtro social masculino, perfil educacional relativamente alto, contexto urbano e presença explícita de casos psicologicamente frágeis. Tudo isso é compatível com um arquivo histórico de relatos selecionados e interpretados, e não com um corpo robusto de evidências físicas independentes.

O Project Blue Book Report No. 8 reforça honestamente essa direção apenas em plano mais geral: ele mostra uma máquina institucional de recebimento, triagem, classificação e tentativa de explicação convencional dos relatos, fortemente marcada por insuficiência de dados, publicidade, ambiguidade e necessidade de checagem meteorológica, aeronáutica e astronômica. O que ele não mostra, ao menos nesse relatório, é a mesma estrutura estatística sobre o perfil social das testemunhas que o boletim estatístico do SIOANI deixa entrever.

Lidos com cuidado, os boletins do SIOANI de 1969 continuam sendo documentos importantes. Mas o que mostram com mais força não é a prova de naves de origem extraterrestre. O que mostram é como instituições brasileiras do período tentaram dar forma burocrática, estatística e aparentemente técnica a uma casuística que, no fundo, permanecia profundamente dependente de percepção humana, contexto cultural e filtros sociais. E é justamente por isso que essa leitura quantitativa dos boletins é relevante: ela desloca o documento do campo do mito para o da análise crítica.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Rosaly Lopes, um exemplo de pesquisadora

 

Imagem que mostra um momento do seminário da professora Rosaly.

A professora Rosaly Lopes é um exemplo de pesquisadora que inspira por sua postura profissional. Atua em um centro de pesquisa de excelência, com recursos muito superiores aos da maioria das instituições, sem abrir mão de ser simpática, educada e generosa. Mesmo com uma rotina exigente e muitos convites para seminários, mantém-se disponível para atender solicitações. Foi uma honra interagir com ela no XXV Curso de Extensão em Astronomia da UFBA, em 22/01/2026.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Universidade pública: por que o Brasil ainda insiste no funil de entrada?


Quadro de esquete do programa Hermes & Renato retratando
o personagem “Charlinho”.

O ponto estrutural do ensino universitário público é este: no Brasil, o acesso às universidades públicas é, em regra, condicionado a processos seletivos (vestibulares e/ou ENEM/SISU), o que cria um funil de entrada. Em contraste, na Argentina, muitas universidades públicas adotam modelos de ingresso mais amplo, frequentemente com ciclos iniciais e filtros ao longo do percurso acadêmico (por exemplo, o CBC), em um arranjo historicamente associado às reformas universitárias iniciadas em 1918.


Esse arranjo vem sendo mantido apesar de restrições econômicas e fiscais, em um país cujo PIB nominal é significativamente menor que o do Brasil (da ordem de um quarto a um terço, a depender do ano e do câmbio). Diante disso, a questão é por que o Brasil continua tratando provas eliminatórias como mecanismo central de acesso, em vez de avaliar alternativas de entrada mais amplas, acompanhadas de políticas de permanência e de uma estrutura acadêmica capaz de absorver a demanda.

Quando esse tema fica fora da pauta, o debate público tende a se concentrar em episódios de alta repercussão emocional, como a aprovação de um estudante pobre de Salvador em medicina na USP. Isso acaba virando uma versão triste da narrativa do “menino Charlinho que só queria estudar”, célebre esquete do programa Hermes & Renato, que expõe como a superação quase sobre-humana é celebrada por nossa imprensa e por parte da sociedade, em vez de se discutir soluções estruturais. Com isso, questões como critérios de acesso, permanência e prioridades de política pública recebem menos atenção do que merecem.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Ensaio de ocultação estelar — (11978) Makotomasako

Em 10 de fevereiro de 2026, fiz um ensaio, a partir do centro de Salvador, para registrar a ocultação da estrela Tycho-2 1823-285-1 pelo asteroide do cinturão principal (11978) Makotomasako, prevista para o dia seguinte, utilizando o telescópio Unistellar eVscope 2 do Planetário da UFBA. A previsão disponibilizada pelo fabricante indicava uma janela de observação entre 21:45:00 e 21:55:21 UTC, com coordenadas-alvo RA = 04h 15m 48s (63,95066°) e Dec = +26° 34′ 01″ (26,56692°).

Ocultações estelares ocorrem quando um asteroide passa à frente de uma estrela distante, bloqueando temporariamente sua luz. O registro desses eventos permite determinar com grande precisão dimensões e forma projetada do asteroide e, em alguns casos, detectar satélites ou sistemas de anéis.


Figura 1 – Empilhamento de sete exposições de 0,2 s, semelhantes à mostrada na Figura 2. Para ruído independente, o empilhamento aumenta a relação sinal-ruído em aproximadamente √7 ≈ 2,6 vezes em relação a uma exposição individual. Solução astrométrica obtida com o Astrometry.net.

No ensaio, utilizei exposições de 200 ms (0,2 s) e ganho de 30 dB, conforme recomendado pelo fabricante para esse tipo de observação. A estrela-alvo possui magnitude 11,51, e a queda de brilho prevista durante a ocultação era de 6,09 magnitudes.

O ganho de 30 dB corresponde à amplificação eletrônica aplicada ao sinal do sensor. Pela convenção usual de ganho em amplitude, equivale a um fator de aproximadamente 31,6. O aumento do ganho facilita a detecção de sinais fracos, mas também amplifica o ruído e reduz a margem antes da saturação.

O telescópio apontou corretamente para o campo, com desvio inferior a 10 segundos de arco em relação à posição catalogada da estrela. Mesmo a partir do centro de Salvador, ela ficou facilmente visível em exposições de apenas 0,2 s (Figura 2).

Figura 2 – Primeira imagem da sequência, obtida com exposição de 0,2 s. A estrela a ser ocultada encontra-se próxima ao centro da imagem. A orientação vertical é inversa à da Figura 1.

Na previsão da ocultação:

  • A linha vermelha representa o centro da faixa prevista da sombra.
  • As linhas azuis indicam o caminho previsto e a escala associada ao tamanho estimado do asteroide.
  • As linhas laranjas delimitam a incerteza de 1σ da posição prevista da faixa.

Figura 3 – Faixa prevista para a sombra da ocultação.

A incerteza de 1σ corresponde a um desvio-padrão da posição prevista da sombra. Ela depende principalmente das incertezas na efeméride do asteroide e, em menor grau, da posição da estrela. O tamanho estimado do asteroide determina principalmente a largura esperada da sombra.

Não registrei o evento em campo por razões logísticas. A faixa prevista passaria a algumas dezenas de quilômetros do centro de Salvador, na região de Simões Filho, e não encontrei um local adequado e seguro para instalar o equipamento. Além disso, a janela começaria por volta das 18:45, durante o crepúsculo náutico, quando o fundo do céu ainda estaria mais elevado.

Apesar de a ocultação não ter sido observada, o ensaio mostrou que o eVscope 2 possui sensibilidade e precisão de apontamento suficientes para tentativas de registro de ocultações estelares por asteroides, mesmo em uma área urbana com forte poluição luminosa, como o meu sítio observacional, aproximadamente classe 8 na escala de Bortle.


domingo, 8 de fevereiro de 2026

Aquela velha perguntinha: o que é o universo, afinal

Foto de um globo de vidro com a representação de uma galáxia espiral, que me lembrou muito o final de Men in Black (1997). Não resisti e resolvi reproduzir.

Por mais louco que pareça, ciência não é lugar para descartar uma ideia só porque ela soa absurda. O critério não é “parece estranho”, é “dá para confrontar com o que observamos?”. E como observamos uma parte muito pequena do universo, é bem provável que nossas hipóteses também sejam pequenas e provisórias. É como uma formiga tentando entender o mundo inteiro andando no meio de um deserto.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Infância em tempos de guerra


Imagem digitalmente aprimorada para melhorar a legibilidade,
com ampliação da resolução, redução de ruído e ajustes de nitidez e contraste,
sem alteração intencional da composição original.

A legenda publicada em O Globo Expedicionário revela de forma bastante direta o clima de propaganda de guerra e a maneira como o conflito era apresentado também às crianças:

“MILTON e NEUZA são filhos do cabo Augusto Marcondes, de Campinas. Estão fortes e confiantes em seu paizinho, que lhes prometeu matar muitos alemães, como nos filmes de ‘mocinho’.”

(O Globo Expedicionário, 1945, edição 30, p. 3)


quarta-feira, 1 de outubro de 2025

No bucks, no Buck Rogers!


Gostaria de compartilhar do otimismo da NASA neste momento.

A frase “No bucks, no Buck Rogers!” surgiu entre astronautas do programa Mercury, nos anos 1960, para enfatizar que sem financiamento não haveria voos espaciais nem heróis como o personagem de ficção científica Buck Rogers. Tom Wolfe registrou a expressão em The Right Stuff (1979), e o filme homônimo de 1983 a popularizou como crítica bem-humorada à dependência da exploração espacial de verbas públicas. O shutdown de 1º de outubro de 2025 pode paralisar o plano da NASA de enviar astronautas em uma missão de circunavegação lunar em 2026.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Bioassinatura em K2-18b? Vamos com calma.

Representação artística do exoplaneta K2-18b
Figura 1 – Representação hipotética do exoplaneta K2-18b em comparação com a Terra.
Fonte: NASA.

A mídia de diversos países noticiou com entusiasmo os resultados das observações da atmosfera do exoplaneta K2-18b realizadas pelo Telescópio Espacial James Webb. Em 2023, foram anunciadas assinaturas espectrais atribuídas principalmente ao metano (CH₄) e ao dióxido de carbono (CO₂), além de uma indicação muito menos significativa da possível presença de dimetilsulfeto (DMS).

Em 2025, novas observações no infravermelho médio realizadas com o instrumento MIRI levaram o mesmo grupo de pesquisadores a anunciar evidências, com significância estatística próxima de 3σ, da presença de DMS e/ou dimetil dissulfeto (DMDS). Essas moléculas despertaram enorme interesse porque, na Terra, o DMS atmosférico é produzido predominantemente por processos biológicos, incluindo organismos marinhos.

Entretanto, isso está muito longe de representar uma detecção de vida. K2-18b é um sub-Netuno com cerca de 2,6 vezes o raio e aproximadamente 8,6 vezes a massa da Terra. O planeta orbita uma estrela anã vermelha e encontra-se na chamada zona habitável do sistema. Isso significa apenas que, sob determinadas condições atmosféricas, a temperatura poderia ser compatível com a existência de água líquida.

Também não existe, até o momento, uma detecção direta de um oceano em K2-18b. Uma das hipóteses propostas é a de que o planeta seja um mundo denominado “Hycean”, possuindo uma atmosfera rica em hidrogênio sobre um extenso oceano de água. Outros modelos, entretanto, permitem que K2-18b seja um mini-Netuno com uma atmosfera profunda e sem qualquer superfície habitável. A própria natureza física do planeta continua sendo objeto de debate.

A história das alegadas moléculas atmosféricas também recomenda cautela. Reanálises independentes dos dados do James Webb confirmaram de maneira relativamente robusta a presença de metano, mas encontraram resultados muito menos convincentes para o dióxido de carbono e nenhuma evidência estatisticamente robusta para DMS ou DMDS.

Além disso, análises posteriores mostraram que outras moléculas podem produzir características espectrais semelhantes às atribuídas ao DMS e ao DMDS. Quando o número de espécies químicas consideradas nos modelos é ampliado, a preferência estatística por essas supostas bioassinaturas pode desaparecer. Pequenas diferenças no processamento dos dados também modificam os resultados.

Esse episódio chama atenção para outro problema recorrente na divulgação científica: a interpretação inadequada da chamada significância estatística. Frases como “a detecção possui 99,7% de confiança” aparecem com frequência quando um resultado é apresentado como uma evidência de 3σ.

Essa tradução é conceitualmente enganosa. Em uma situação estatística idealizada, com erros gaussianos e um teste previamente definido, um desvio de 3σ corresponde a uma probabilidade de aproximadamente 0,27% de obter um resultado tão extremo ou mais extremo sob determinada hipótese nula, considerando um teste bilateral. Isso não significa que exista “99,73% de probabilidade” de a molécula estar presente.

Além disso, nas análises espectroscópicas de atmosferas de exoplanetas, o valor expresso em “sigmas” nem sempre representa simplesmente uma razão sinal/ruído. Frequentemente, ele é derivado da comparação entre modelos atmosféricos com diferentes combinações de moléculas. O resultado depende, portanto, não apenas dos dados, mas também dos modelos escolhidos, das moléculas consideradas, da redução dos dados e das hipóteses adotadas na análise.

No anúncio de 2025, por exemplo, os autores relataram evidências de aproximadamente 3σ para DMS e/ou DMDS e uma diferença de 3,4σ entre o espectro observado e um determinado modelo sem feições espectrais. Mesmo os próprios autores reconheceram que seriam necessárias novas observações para aumentar a robustez da conclusão.

Pouco depois, grupos independentes reanalisaram os mesmos dados utilizando diferentes procedimentos de redução e conjuntos mais amplos de modelos atmosféricos. A suposta evidência de DMS e DMDS deixou de ser estatisticamente significativa. Outros compostos, incluindo hidrocarbonetos, produziram ajustes igualmente bons aos dados.

Portanto, a controvérsia sobre K2-18b constitui um exemplo bastante didático de por que resultados extraordinários exigem cautela, especialmente quando se encontram próximos do limite de sensibilidade dos instrumentos. Um sinal estatisticamente interessante não equivale automaticamente à identificação de uma molécula; a identificação de uma molécula não equivale a uma bioassinatura; e uma possível bioassinatura está ainda muito distante de constituir evidência de vida.

Também existe um componente sociológico que não deve ser ignorado. Resultados associados à possibilidade de vida extraterrestre produzem enorme repercussão pública e acadêmica. Há fortes incentivos para divulgar rapidamente descobertas potencialmente importantes. Isso não implica má-fé por parte dos pesquisadores, mas torna ainda mais necessária a reprodução independente das análises antes de transformar resultados marginais em afirmações extraordinárias.

Curiosamente, a evolução do caso K2-18b acabou fornecendo um excelente exemplo do próprio funcionamento da ciência. Um resultado foi anunciado, recebeu enorme repercussão, outros pesquisadores obtiveram os dados, repetiram as análises utilizando métodos diferentes e demonstraram que a interpretação original não era única. A questão permanece em aberto, aguardando observações melhores.

Sistema planetário K2-18
Figura 2 – Posição de K2-18b no sistema planetário.
O planeta encontra-se na chamada zona habitável de sua estrela. Essa localização, por si só, não demonstra a existência de água líquida nem de condições adequadas à vida.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Azulejos Atômicos

O padrão desses azulejos combina uma representação do modelo atômico de Rutherford com motivos florais, típicos da decoração encontrada em muitas construções antigas de Salvador.

Os azulejos decoram atualmente uma loja de molduras localizada na Rua Carlos Gomes, no centro da cidade. Notei esse tema peculiar pela primeira vez cerca de 20 anos antes, durante minha visita anterior ao local.

Posteriormente, descobri que, em 1960, funcionava exatamente nesse imóvel uma empresa dedicada à comercialização de equipamentos técnicos e máquinas de escritório. Esse dado pode ajudar a explicar o curioso motivo “atômico” dos azulejos. O desenho é compatível com a estética tecnológica das décadas de 1950 e 1960 e pode constituir um vestígio da antiga ocupação comercial do prédio. Embora eu ainda não tenha encontrado documentação que permita determinar quando o revestimento foi instalado, a coincidência entre o tema dos azulejos e a atividade então desenvolvida no local é bastante sugestiva.

Registro realizado em 07/01/2025.




domingo, 5 de fevereiro de 2023

A Composição Química do Cometa 96P/Machholz: Devemos Confiar em Tudo o Que Lemos na Internet?


Diversos canais de divulgação científica na internet apresentaram duas hipóteses para explicar por que o cometa Machholz 1 exibe abundâncias de cianogênio e carbono inferiores às observadas em uma amostra homogênea, criada e atualizada há décadas por pesquisadores do Lowell Observatory (EUA). A primeira hipótese propõe que o cometa tenha se formado em uma região distinta do Sistema Solar, diferente daquela onde se originou a maioria dos cometas da amostra. Essa possibilidade deve ser analisada com cautela, pois há sempre o risco de viés observacional. Tal viés pode estar relacionado à seleção dos objetos estudados, já que astrônomos tendem a observar cometas mais brilhantes, o que favorece a obtenção de dados de melhor qualidade.

A segunda hipótese sugere que o cometa Machholz 1 seja de origem interestelar, ou seja, que tenha se formado fora do Sistema Solar. Embora essa ideia seja instigante, ela permanece altamente especulativa, pois é extremamente difícil determinar a origem interestelar de um cometa periódico apenas com base em sua órbita atual. Além disso, os sistemas exoplanetários provavelmente se formam de maneira semelhante ao nosso, compostos pelos mesmos elementos, ainda que em proporções levemente distintas. Diferenças significativas, como as sugeridas por hipóteses que associam a formação de planetas gigantes a estrelas com alta metalicidade, são exceções e não justificam conclusões precipitadas.

É fundamental manter uma postura crítica diante do que é veiculado na internet. Jornalistas não são cientistas e não têm a obrigação de ser. Além disso, declarações de astrônomos podem, por vezes, ser interpretadas fora de contexto.



Periélio do cometa Machholz 1 registrado através da câmera C3
do satélite SOHO da NASA/ESA.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Minha Vivência com o Colonialismo Cultural na Ciência


Esta postagem tem um caráter de reflexão e de registro para futuras gerações de cientistas brasileiros. Em 15 de dezembro de 2022, publiquei uma short communication no The Astronomer’s Telegram (ATel), baseada em dados de dois asteroides próximos à Terra que observei em 2013 e 2014. Como observações desses mesmos objetos já haviam sido divulgadas anteriormente no ATel, considerei razoável apresentar meus resultados independentes no mesmo canal, apesar do intervalo de tempo.

No dia seguinte, recebi um e-mail de um pesquisador do INAF/IAPS, em Roma, manifestando “surpresa” pelo fato de eu ter publicado observações realizadas quase dez anos antes. Ele afirmou que, em sua opinião, o ATel deveria ser utilizado para comunicar observações novas ou muito recentes, especialmente aquelas destinadas a estimular observações de acompanhamento, e não para confirmar dados publicados anteriormente.

É perfeitamente legítimo discutir se o ATel era ou não o veículo mais adequado para a divulgação daqueles resultados. O que me incomodou foi a forma escolhida para fazê-lo. A mensagem não tinha simplesmente o caráter de uma sugestão editorial cordial. Seu tom era claramente repreensivo e, de maneira particularmente desagradável, uma cópia foi encaminhada ao editor do ATel, como se minha publicação constituísse algum tipo de irregularidade que precisasse ser levada ao conhecimento dele.

Havia muitas maneiras de abordar a questão. O pesquisador poderia simplesmente ter escrito que considerava os resultados interessantes, mas que, em sua avaliação, dados tão antigos talvez fossem mais adequados a outro tipo de publicação. Não foi essa a opção adotada.

Em minha resposta, destaquei um aspecto que continuo considerando fundamental: existem enormes quantidades de dados astronômicos armazenados em discos rígidos pessoais e nos arquivos de observatórios. Enquanto esses dados não forem reduzidos, analisados e divulgados, pouco contribuem para o desenvolvimento da ciência. Além disso, a confirmação independente de resultados constitui parte essencial do método científico.

Naturalmente, isso não significa que qualquer dado de arquivo deva ser publicado em qualquer veículo. São duas questões diferentes. Pode-se discutir a adequação do ATel para resultados obtidos oito ou nove anos antes sem desconsiderar a importância científica de recuperar, analisar e divulgar observações antigas.

Ao buscar informações sobre o autor da mensagem, constatei que se tratava de um pesquisador bastante experiente, com uma longa trajetória na astrofísica de estrelas variáveis e de altas energias e publicações desde a década de 1970. Isso tornou o episódio ainda mais curioso para mim. Esperava justamente de um pesquisador com tamanha experiência uma abordagem mais equilibrada diante de resultados observacionais independentes.

A situação também me levou a uma reflexão mais ampla. Um pesquisador de uma instituição europeia ou norte-americana teria recebido exatamente o mesmo tipo de mensagem, no mesmo tom e com cópia enviada ao editor? Não tenho elementos para responder a essa pergunta e, portanto, não afirmo que tenha havido discriminação. Entretanto, considero legítimo questionar até que ponto determinadas hierarquias acadêmicas e culturais ainda influenciam a maneira como pesquisadores de países periféricos são abordados no ambiente científico internacional.

Há ainda uma ironia no episódio: o pesquisador participa de atividades relacionadas à preservação de dados astronômicos históricos. Justamente por isso, parece-me ainda mais importante distinguir entre a idade de uma observação e seu valor científico. Dados antigos podem permanecer relevantes durante décadas, desde que sejam adequadamente analisados e contextualizados.

Para mim, a principal lição desse episódio é algo que considero importante registrar para jovens pesquisadores brasileiros: não devemos nos intimidar diante de pesquisadores estrangeiros, independentemente de seus títulos, instituições ou extensão do currículo. Formação em universidades europeias ou norte-americanas não confere infalibilidade científica nem autoriza ninguém a tratar colegas em tom de reprimenda.

Argumentos devem ser julgados por seus fundamentos, e não pela posição acadêmica de quem os apresenta. Pesquisadores experientes também cometem erros, interpretações equivocadas e avaliações discutíveis. Da mesma forma, pesquisadores de instituições menos prestigiadas internacionalmente podem produzir observações e análises relevantes.

Situações semelhantes podem ocorrer inclusive durante a revisão por pares. Já recebi pareceres de trabalhos sobre meteoros nos quais os revisores demonstravam dificuldades com conceitos relativamente elementares de estatística e probabilidade, utilizando inclusive expressões informais como “laranjas e maçãs” ou “santo graal”. O fato de um parecerista ter sido escolhido por uma revista não transforma automaticamente todas as suas observações em argumentos corretos.

Ciência não deve funcionar como um sistema de autoridade. Questionamentos fazem parte do processo e devem ser respondidos com argumentos, dados e conhecimento das regras do próprio meio científico. Mas respeito profissional também deve fazer parte desse processo.

Este episódio não foi o único em que encontrei esse tipo de postura em interações acadêmicas internacionais. Talvez volte ao assunto futuramente. Por ora, mantenho o nome do autor da mensagem em sigilo. Meu objetivo não é promover um ataque pessoal, mas registrar uma experiência que considero útil para discutir relações de poder, respeito profissional e confiança científica.

Abaixo reproduzo a sequência de e-mails para que o leitor possa avaliar diretamente o tom da conversa.

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Dear dr. Betzler, I was rather surprised to see in your ATel # 15812 the report of observations made nearly ten years ago! I was convinced that ATels are supposed to be used to communicate new or very recent observations to help follow-up by other observers, not to confirm old observations already published on ATel at due time.

Sincerely yours

xxxxxx

Associated Researcher at INAF/IAPS-Roma, Italy

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Dear Dr. xxxx,

Thank you for your email and your observations. However, I must remind you that there are thousands of gigabytes of data on our personal hard drives and in the observatories' public storage. If these data are not processed and published, they do not contribute to the development of science, and confirmation is an important part of that.

Sincerely,

Alberto S. Betzler

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sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Um belo gráfico

Gráfico mostrando a evolução da apuração da votação para presidente do Brasil em 30 de outubro de 2022, uma das noites mais felizes e emocionantes da minha vida. Os dados foram obtidos em tempo real no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).



sexta-feira, 23 de setembro de 2022

OVNI em Salvador

Registro de um objeto voador não identificado (OVNI) no céu de Salvador em 19/01/2022, entre 21:03 e 21:04 UTC. Fotos obtidas com um iPhone XR, ao lado do Hospital Teresa de Lisieux, no bairro do Itaigara.




Hipóteses:

a) Avião: O objeto não deixou rastro de condensação, nem refletia a luz solar em tons avermelhados ou laranjas. Seu aspecto era estelar, com uma cor azul-esbranquiçada.

b) Estágio de foguete: O objeto se movia para o oeste. Lançamentos espaciais geralmente ocorrem para o leste, aproveitando o componente da velocidade de rotação terrestre. Órbitas retrógradas são possíveis, mas pouco utilizadas. Essas órbitas têm objetivos específicos, como fotografar uma mesma região da Terra sempre durante o dia ou evitar o sobrevoo de determinado território durante o lançamento. Israel, por exemplo, lança o foguete Shavit para o oeste para evitar o sobrevoo de nações árabes.

c) Reentrada de satélite: O objeto não apresentava uma cauda de gás atmosférico ionizado. Além disso, o satélite deveria estar em uma órbita retrógrada.

d) Estação Espacial Internacional: Não havia nenhuma passagem visível no momento do registro.

e) Nave extraterrestre ("Disco Voador"): Estranhou eu ter colocado a nave extraterrestre por último? OVNI significa "objeto voador não identificado", não necessariamente "nave espacial extraterrestre", como muitos ufólogos sugerem. Sempre é possível listar diversas hipóteses para explicar um fenômeno e, ao mesmo tempo, ensinar um pouco de ciência.

domingo, 28 de novembro de 2021

Imagens Urbanas Curiosas

 Algumas fotos obtidas com câmeras de telefones celulares nas ruas de Salvador e no interior da Bahia.

Amargosa - 2016: "Um Gol dentro do gol".



Rua São José de Cima - 20-08-2019

Rua Professor Viegas - 26-10-2019

Rua Professor Alfredo Rocha - 01-11-2019

Rua dos Perdões - 04-11-2019

Avenida Jequitáia - 25-11-2019


Minha Vivência com o Colonialismo Cultural na Ciência

Esta postagem tem um caráter de reflexão e de registro para futuras gerações de cientistas brasileiros. Em 15 de dezembro de 2022...