Artigo do historiador carioca José Vieira Fazenda sobre o Grande Cometa de 1843 no Rio de Janeiro
O artigo, publicado originalmente no jornal A Notícia em 21 de maio de 1910, perto do auge do brilho do cometa Halley, e republicado pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo 95, Volume 149, em 1943, oferece um relato detalhado das observações do Grande Cometa de 1843 no Rio de Janeiro. José Vieira Fazenda descreve minuciosamente a morfologia e a posição do cometa no céu, fornecendo informações valiosas sobre sua aparência e trajetória.
Além das observações científicas, o artigo inclui um poema de Antônio Francisco Dutra e Melo, que captura a majestade do cometa e sua impressionante presença no firmamento. O texto de Fazenda, enriquecido pela arte poética, oferece uma visão compreensiva e poética da importância desse evento astronômico, refletindo a emoção e o impacto que o Grande Cometa de 1843 teve sobre os observadores da época.
Ilustração extraída do livro O Cometa de Halley (Editora do Brasil, 1985).
COMETA
Tanto se tem falado em cometas, que me seria lícito meter também o bedelho em assuntos astronômicos. Recordarei apenas cousas aqui passadas em tempos idos. Não podem, pois, causar pânico as seguintes notas:
Há no museu do Instituto Histórico um curioso quadro, em cuja parte inferior ocorre a seguinte inscrição manuscrita: “Figura do cometa, que apareceu no Rio de Janeiro, no ano de 1843, desenhada por José dos Reis Carvalho, mestre de desenho da Academia de Marinha, como se apresentou à vista pelas sete horas da tarde, primeiro dia de sua aparição. Ele o observou de sua casa situada na face esquerda do Rocio (olhando para oeste) defronte da rua do Tesouro, e lhe adicionou a perspectiva dos edifícios que ficavam também a oeste na direção das visuais dirigidas ao cometa”.
Pelo que se nota, devia ser belíssimo espetáculo, apreciado durante um mês pelos contemporâneos das revoluções de S. Paulo e Minas Gerais, do processo de quatro senadores, das gôndolas e tílburis, do azeite de peixe e do padre Feijó.
Sustos e temores também o tal cometa produzira. Uns prontos para morrer se confessavam e comungavam. Outros até chegaram a fazer testamento.
Sobre o cometa que nos visitou em 43 escreveu uma memória Maximiano Antonio da Silva Leite, sócio correspondente do Instituto Histórico. Antes de citar trechos desse trabalho publicado no tomo 5.º da Revista do Instituto, darei biográficos sobre o autor. Nasceu no último quartel do século 18 e faleceu, diz o dr. Sacramento Blake, no Rio de Janeiro a 20 de agosto de 1844. Estudos na antiga Academia Militar, e sendo capitão do 3.º batalhão da brigada de marinha, foi nomeado lente de Matemáticas da mesma Academia de Marinha a 16 de dezembro de 1822. Mais tarde, a 26 de abril de 1824, foi transferido para a cadeira de Artilharia. Foi jubilado a 18 de janeiro de 1844.
Adverte o autor que, por falta de instrumentos, não pode determinar com precisão as diferentes posições em o céu e por isso se deve considerar aproximação tudo quanto passou a dizer. Guiou-se também por informações. Escreveu sobre a matéria por instância do cônego Januário da Cunha Barbosa.
Começou o cometa a ser visto em 28 de fevereiro. Pessoa de sua confiança assegurou a Maximiano que apreciara o fenômeno cerca do meio dia. Tinha-o visto distante do sol cousa de um côvado, e apresentava a figura do tamanho de uma bola de bilhar, tendo uma pequena cauda. Nos dias 1, 2, 3 e 4 de março ninguém falou mais em cometa.
Em 5 de março (dia em que se fez à vela a esquadra brasileira composta de uma grande fragata e duas corvetas, afim de conduzir a princesa contratada esposa do imperador do Brasil, o senhor d. Pedro II) o céu esteve encoberto e, por isso, não lhe dei atenção; mas, algum tempo depois do sol posto, dissipando-se as nuvens para a banda do oeste, imenso número de pessoas o viram, e então já estava mais afastado do sol; pois a cabeça dele, segundo alguns, pôs-se depois das 7 horas; disseram outros que não perceberam a cabeça. A sua cauda era muito grande, e, segundo notei, nos dias seguintes ocupava no céu um espaço de mais de 50 graus, delgada para a cabeça e alargando para cima, de maneira que me pareceu ter a figura de um trapézio, bem terminado até quasi à extremidade superior, pois aqui começava a desvanecer-se em flocos, mas alargando uniformemente. A sua superfície era lisa e sem poros, exceto na dita extremidade superior; a sua cor era de pérola e representava a imagem de um imenso fogo visto de longe. Eu nunca vi cauda semelhante.
A bordo da nau Pedro Segundo, surta neste porto, foi observada a cabeça a Oés-Sudoeste magnético, e a cauda dirigindo-se por entre Leste e Leste-Nordeste, às 7 3/4 horas da tarde, tempo médio, e que não tardou a pôr-se.
No dia 6 as nuvens não permitiram ver. Em 7 e 8 foi visto a Oés-Sudoeste. Em 9, 10 e 11 não pôde o cometa ser observado.
Em 12 foi visto claramente: a cor da cauda mais fraca, mas a extensão da mesma grandeza. A cabeça mais a Leste e mais ao Norte. A cabeça foi observada a O 1/4 às 9 horas, tempo médio, e desapareceu pouco depois.
Em 13 a cauda vai perdendo a cor. Conserva a mesma extensão. A cabeça caminha para o N e para E.
Em 15 e 16 desapareceu mais tarde. Cita o autor observações até 2 de abril. A 5 deste mês nada mais foi visto.
Entra em seguida o professor Maximiano em algumas consequências destas observações, tirando delas várias deduções. “Constou por notícias vindas de Lisboa, publicadas no Jornal do Comércio, de 1 de maio, que fora visto naquela cidade ao Sul do Tejo, um cometa, em 10 de março deste mesmo ano, porém como não se diz a paragem do céu em que foi visto, não podemos afirmar se era este o mesmo que observamos no Rio”.
Passados 16 dias depois do desaparecimento do cometa, isto é, em 20 de abril, pelas nove horas da noite, viu-se nesta cidade um extraordinário meteoro que muito espantou; assemelhava-se ao fogo expelido por uma pistola de fogo artificial, com cor algum tanto amarelada e esclareceu muito a cidade por espaço de um minuto e extinguiu-se. O seu curso foi de Leste para Oeste, pela mesma paragem onde se tinha visto a cauda do cometa, e daqui veio dizerem que o cometa tinha retrocedido e aberto uma grande boca de fogo em cima da cidade. A noite estava escuríssima. Não se via estrela alguma. Não chovia.
Há na referida memória, escrita em 28 de junho de 1843, um Post scriptum. Cita um correspondente do Times que observou o mesmo cometa visto no Rio de Janeiro no Observatório de Kensington. Tal meteoro foi também apreciado em quase toda a Europa.
Acerca do cometa de 1843 ocorrem ainda no mesmo tomo 5.º da Revista observações feitas em Buenos Aires, por Felipe Senillosa e d. Vicente López, associados ao engenheiro Romero. Tais estudos constam do n. 3.593 de 24 de agosto de 1843 do Diário de La Tarde, de Buenos Aires, enviado graciosamente ao Instituto Histórico por d. Thomas Guido, encarregado de negócios e representante de seu país na corte do Rio de Janeiro. Este interessante artigo foi publicado com anotações também de Maximiano Antonio da Silva Leite.
Sobre o fenômeno meteorológico, de que ora me ocupo, o notável matemático Pedro de Alcântara Bellegarde calculou a órbita. Suas observações figuram na Minerva Brasiliense, sob o título Astronomia. Admitindo a hipótese de que a cauda do cometa de 43 pudesse ter tocado a terra, asseverava que, “se este fenômeno teve lugar, ele nos confirma na opinião de que uma substância tenuíssima, como é a cauda de um cometa, não pode reagir naturalmente sobre a nossa atmosfera.
Com efeito, uma substância tão pouco densa que deixa passar através de muitos milhares de léguas, a imagem das mais pequenas estrelas sem alteração sensível, deve ser dotada de uma densidade e portadora de uma quantidade de movimento tão pequena, que o efeito de seu choque sobre a massa da terra deve ser inapreciável”.
Quando apareceu este cometa (de 43) chegou aqui a nova do descobrimento de um, em outubro, pelo astrônomo Laugier, de Paris. Julgou-se ser o mesmo. Aumentava o interesse de tal identidade a semelhança, que no princípio pretendia Laugier achar no cometa por ele descoberto com o que foi visto na China em 1301. Laugier provou depois o seu engano. Quanto ao nosso, conclue Bellegarde, os seus elementos provam exuberantemente que não era nenhum dos dois.
Na sua Dedução Cronológica, o general Abreu e Lima, com relação ao assunto destas notas escreveu: “No dia 28 de fevereiro de 1843 apareceu de dia à simples vista um imenso cometa caudal muito perto do sol; porém não foi mais visto de dia, até que no dia 5 de março, em que saiu a divisão naval, que foi buscar a futura imperatriz do Brasil, tornou a aparecer, logo à noite, com sua majestosa cauda, apresentando uma coluna luminosa de 42 graus, quase metade do quadrante. Esta cauda dirigia-se de OSO a ENE. Apresentava na sua parte superior uma curva mui sensível, cuja convexidade se voltava para o Noroeste. Foi visível por mais de um mês.”
Sobre o cometa Laugier foi também publicado no Jornal do Comércio, de 9 de março de 1843, extenso artigo assinado por Sautier De Sauve e datado de Genebra.
De tudo resulta que, como hoje, o aparecimento de um hóspede viajante suscitou aqui observações feitas com os poucos meios de que dispúnhamos.
Mais feliz que o de Halley, o viajante de 1843 teve para cantá-lo um grande poeta. Em vez de versos chatos e gaiatos entoados pelo pessoal da armada, teve a mimosa e sugestiva inspiração poética que se lê na Minerva Brasiliense. É da lavra de Dutra e Mello, genial mancebo falecido aos 23 anos de idade e autor de Uma Manhã na Ilha dos Ferreiros. Termina assim:
Oh! quem diz que não são místicos do Eterno!
Oh! quem diz que um tal astro ser não possa
O Anjo do sistema que passeia
Visitando os domínios que dirige?
Quem dir que não será cárcere errante
Cheio d’almas de réprobos dum mundo
Vivo, morto e julgado antes do nosso?
Ninguém; certo, ninguém. — Tais conjecturas
São como outras quaisquer soltas ao vento.
Deixemos, pois, vagar na imensidade
Globos que se revolvem:
Procuremos achar-lhes os caminhos,
E vejamos na prática os acertos
Como se cumprirão. — Nem mais devemos. —
Ide, pois, astros pálidos, girando
Solitários no ar. — O Anjo do Globo
Acenando co’a mão queira arredar-vos.
Sábado, 21 de maio de 1910.
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