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| Imagens do voo do SEBIT a partir do Centro de Lançamento de Alcântara. Reprodução/G1, via Diário do Centro do Mundo. |
Blog de divulgação científica em Astronomia e ciências afins, com textos sobre observação do céu, astrofotografia, ensino de Astronomia, tecnologia e curiosidades do cotidiano.
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
SEBIT tem voo interrompido em Alcântara: e o VSB-30?
sábado, 15 de agosto de 2026
12P/Pons-Brooks após o outburst de novembro de 2023
Imagem RGB do cometa 12P/Pons-Brooks obtida em 19/11/2023 UT, no Observatório Otívar, na Andaluzia, Espanha. A composição foi feita a partir de uma sequência BVR, usando o filtro R no canal vermelho, o filtro V no canal verde e o filtro B no canal azul.
domingo, 9 de agosto de 2026
Um adendo à Escala de Kardashev: energia, eficiência e megaestruturas
Excelente vídeo do canal Central Pandora sobre megaestruturas na ficção científica. O único adendo que eu faria é que a escala original de Kardashev vai apenas do tipo I ao III. Civilizações capazes de utilizar a energia de aglomerados de galáxias ou de todo o Universo são extensões posteriores da escala, populares sobretudo em vídeos mais sensacionalistas, mas não fazem parte da proposta original de Kardashev.
A escala surgiu no contexto das primeiras discussões sobre a possibilidade de detectar civilizações tecnologicamente avançadas. Na mesma época, Kardashev chegou a considerar a fonte CTA 102, então ainda pouco compreendida, como possível manifestação de uma civilização extraterrestre. Posteriormente, ela foi identificada como um quasar.
Há também uma limitação conceitual importante: a escala associa o avanço tecnológico ao consumo de quantidades cada vez maiores de energia. A evolução da microeletrônica mostra, porém, que o desenvolvimento tecnológico também pode ocorrer pelo aumento da eficiência energética, reduzindo a necessidade de megaestruturas.
Além disso, levantamentos no infravermelho já procuraram assinaturas do calor residual esperado de civilizações dos tipos II e III, sem encontrar até hoje evidências convincentes. Os candidatos identificados permanecem não confirmados e, em muitos casos, apresentam explicações naturais plausíveis.
sábado, 8 de agosto de 2026
Meteoro brilhante é registrado pela câmera all-sky do Planetário da UFBA
Na noite de 9 de julho de 2026, às 19h22, a câmera de monitoramento do céu do Planetário da UFBA registrou um meteoro brilhante sobre Salvador.
A trilha percorreu cerca de 69° no céu, atravessando uma grande parte do campo da câmera. O meteoro se destacou claramente em relação às estrelas registradas na mesma imagem.
A análise da trajetória não indicou associação segura com nenhuma chuva de meteoros ativa no período. Por isso, até o momento, o evento é considerado um meteoro esporádico, isto é, um meteoro que não pôde ser relacionado a uma chuva conhecida.
domingo, 2 de agosto de 2026
Uma visitante inesperada na câmera do Planetário
Durante a verificação dos registros da câmera do Planetário da UFBA, buscou-se identificar possíveis meteoros associados às chuvas Alfa-Capricornídeas e Delta-Aquáridas do Sul. Nenhum evento foi detectado, provavelmente em razão do tempo ruim, da magnitude-limite da câmera e do fato de o equipamento realizar exposições em intervalos regulares, o que pode fazer com que alguns meteoros ocorram entre uma imagem e outra.
Em compensação, foi registrada uma visitante inesperada: uma provável lagartixa-doméstica-tropical, Hemidactylus mabouia, empoleirada sobre o domo da câmera.
O animal permaneceu no local por cerca de 18 minutos. Não se sabe o que o levou a subir até aquele ponto, mas é preciso reconhecer que houve bastante esforço para conquistar seus minutos de fama.
domingo, 19 de julho de 2026
Cometas 12P/Pons–Brooks e 168P/Hergenrother após episódios de outburst
Imagens RGB produzidas a partir de observações CCD realizadas com telescópios robóticos localizados na Espanha, mostrando os cometas 12P/Pons–Brooks e 168P/Hergenrother após episódios de outburst.
Embora os dois eventos tenham a mesma classificação geral, o comportamento fotométrico das comas foi distinto. No 12P, os índices de cor B−V e V−R apresentaram variações acompanhadas de grande dispersão. O índice B−V não exibiu uma tendência monotônica clara, enquanto V−R sugeriu uma fase temporariamente mais avermelhada.
No 168P, observado entre 6 de outubro e 4 de novembro de 2012, os índices B−V e V−R permaneceram praticamente constantes e sistematicamente mais vermelhos que os valores solares, apesar da forte diminuição do brilho após o outburst.
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12P/Pons–Brooks — Imagem RGB obtida em 25 de julho de 2023 (UT), no Observatório Otivar, Andaluzia, Espanha. |
sábado, 4 de julho de 2026
ISS sobre Salvador e um objeto luminoso de natureza incerta
Registro da passagem da Estação Espacial Internacional (ISS) pelo céu de Salvador, Bahia, entre 18h23 e 18h25 de 03/07/2026, usando a câmera all-sky do Planetário da UFBA. Cada quadro da animação abaixo possui 19,6 s de exposição.
No último quadro, registrado às 18h28, aparece um objeto luminoso baixo, próximo ao leste do campo da imagem. Sua natureza ainda é incerta: pode tratar-se de um meteoro fraco ou de um satélite artificial. A pequena variação de brilho ao longo do traço dificulta uma classificação segura.
O crédito pela observação é do planetarista Caliel Mariano Gonzaga.
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Trajetória da ISS gerada pelo aplicativo do site Heavens-Above. |
sexta-feira, 26 de junho de 2026
O céu encarneirado de Salvador
Formação de nuvens do tipo Altocumulus stratiformis perlucidus, registrada às 17h02 de 26/06/2026, no bairro do Barbalho, em Salvador.
Essas nuvens se formam em altitudes médias, tipicamente entre 2 e 7 km, podendo alcançar cerca de 8 km em regiões tropicais. Surgem quando camadas de ar úmido são elevadas e resfriadas, produzindo pequenos bancos ou glóbulos de nuvens, com aberturas que deixam o céu azul visível entre elas.
Sua presença pode indicar ondulações ou instabilidade moderada na média troposfera, às vezes associada à aproximação de mudanças no tempo.
terça-feira, 23 de junho de 2026
Aglomerados globulares e galáxias vistos com o eVscope 2
Registros de objetos astronômicos de céu profundo obtidos com um telescópio eVscope 2, da Unistellar, em 21/06/2026, a partir do bairro de Santo Antônio, no Centro Histórico de Salvador.
Os nomes dos objetos e as especificações das imagens estão indicados nas próprias imagens. O tipo de objeto é informado em cada legenda.
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M80 — aglomerado globular na constelação do Escorpião. A claridade à direita da imagem foi causada por luz refletida em bandeirolas de São João. |
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| M10 — aglomerado globular na constelação do Serpentário. |
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| M4 — aglomerado globular na constelação do Escorpião. |
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| NGC 5139, Ômega Centauri — aglomerado globular na constelação do Centauro. |
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| NGC 5128, Centaurus A — galáxia e rádio-fonte na constelação do Centauro. |
segunda-feira, 22 de junho de 2026
O Sol no meridiano no solstício de inverno em Salvador
Nesta imagem obtida pela câmera all-sky do Planetário da UFBA, o Sol aparece próximo ao instante de sua passagem meridiana no dia 21 de junho de 2026, data do solstício de inverno no hemisfério sul.
A imagem foi registrada às 11h35min58s, horário muito próximo do trânsito solar local em Salvador. Nesse momento, o Sol atinge sua maior altura no céu naquele dia, cruzando o meridiano local.
No solstício de inverno, o Sol apresenta sua menor declinação anual para observadores do hemisfério sul. Por isso, mesmo em uma cidade de baixa latitude como Salvador, sua altura ao meio-dia solar é menor do que nos meses próximos ao verão.
A câmera all-sky permite visualizar essa geometria de forma bastante didática: o horizonte aparece nas bordas da imagem, enquanto a região central corresponde às maiores alturas no céu. O registro ajuda a ilustrar como a posição aparente do Sol muda ao longo do ano e como o meio-dia solar não coincide, necessariamente, com 12h no relógio civil.
Lua quase no zênite sobre Salvador
A Lua aparece praticamente no zênite nesta imagem obtida pela câmera all-sky do Planetário da UFBA. No canto superior direito, também são visíveis Vênus e Júpiter.
A configuração chama atenção porque, em Salvador, a Lua pode passar muito alta no céu quando sua declinação fica próxima da latitude local. Nesta data, ela culminou a cerca de 85° de altura, ou seja, apenas alguns graus abaixo do ponto exatamente acima da cabeça do observador.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
Conjunção entre Vênus, Lua e Júpiter em 17 de junho de 2026
Registro da conjunção entre Vênus, Lua e Júpiter em 17/06/2026, às 18h12, horário de Brasília.
Júpiter aparece no canto inferior esquerdo da imagem, enquanto Vênus está próximo à Lua, a aproximadamente 0,5° de distância angular do centro do disco lunar. Essa estimativa foi feita tomando como referência o diâmetro angular médio da Lua vista da Terra.
A imagem foi obtida com a câmera de um celular iPhone X, com abertura f/1,8, tempo de exposição de 1/4 s e ISO 1250.
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Visitante ilustre registrado pela câmera all-sky do Planetário da UFBA.
Provável bem-te-vi empoleirado sobre o domo da câmera all-sky do Planetário da UFBA ontem, 04/06/2026, às 7h39 da manhã.
Eventos assim não são incomuns: acesse a playlist de registros insólitos obtidos com a câmera all-sky utilizada em minha tese de doutorado.
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Sequência de keogramas e variação da nebulosidade
A animação abaixo mostra uma sequência diária de keogramas obtidos pela câmera all-sky do Planetário da UFBA, instalada no bairro de Ondina, em Salvador, entre 09 e 25 de maio de 2026. Keogramas são diagramas em que o tempo é mostrado no eixo das abscissas, enquanto uma faixa ou seção do céu registrada pela câmera aparece no eixo das ordenadas. Cada quadro da animação mostra a evolução do céu ao longo de uma noite, aproximadamente entre 19h e 05h.
O padrão observado não corresponde a uma variação puramente aleatória da nebulosidade. As imagens mostram que as nuvens surgem de modo irregular, mas frequentemente mantêm continuidade por intervalos relativamente longos, formando blocos, bandas ou camadas de cobertura. Esse comportamento indica um padrão estocástico temporalmente correlacionado: há variabilidade de uma noite para outra, mas as estruturas atmosféricas apresentam persistência enquanto atravessam o campo observado pela câmera.
Em termos simples, a nebulosidade não aparece como ruído sem memória. Ela reflete a passagem de estruturas atmosféricas organizadas, associadas a nuvens, camadas úmidas e variações locais de transparência do céu. Esse tipo de análise ajuda a avaliar a qualidade das noites observacionais e a identificar rapidamente intervalos de tempo em que o céu estava com menor cobertura de nuvens, favorecendo a realização de observações astronômicas com fins científicos e educacionais com a câmera all-sky.
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| Animação de keogramas diários mostrando a evolução da nebulosidade noturna entre 09 e 25 de maio de 2026. |
terça-feira, 19 de maio de 2026
Câmera All-Sky do Planetário da UFBA
A câmera all-sky do Planetário da UFBA, instalada no campus de Ondina, em Salvador, está em operação desde 08/05/2026.
O instrumento registra continuamente o céu sobre Salvador. As imagens apoiam ensino, extensão, divulgação científica e pesquisa, com aplicações no estudo de meteoros, bólidos e ciências atmosféricas.
O sistema utiliza uma câmera astronômica colorida ZWO ASI678MC, equipada com sensor CMOS Sony IMX678 de 8,3 megapixels, acoplada a uma lente de 1,8 mm, adequada para registrar uma grande área do céu em uma única imagem. O conjunto integra uma RC Astro Allsky Camera V1.2 e é controlado por um mini-computador OrangePi 3 LTS, responsável por automatizar a captura e o armazenamento das imagens.
Imagem atual da câmera all-sky
A imagem acima é atualizada automaticamente a partir do feed da câmera. Caso não carregue, acesse diretamente: allsky.planetario.ufba.br.
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| Câmera all-sky instalada na entrada do Planetário da UFBA, em 19/05/2026. |
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| Detalhe da câmera all-sky instalada no Planetário da UFBA. |
Ao acessar diretamente o site da câmera (https://allsky.planetario.ufba.br/), o menu localizado no canto superior esquerdo da página apresenta as seguintes funcionalidades:
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segunda-feira, 18 de maio de 2026
Arco-íris sobre o Bonfim em Salvador
Arco-íris registrado no bairro do Bonfim, em Salvador, às 16h31 do dia 17/05/2026. As imagens foram obtidas com a câmera de um iPhone 13 Pro.
terça-feira, 21 de abril de 2026
Uma curiosa imagem urbana
sábado, 18 de abril de 2026
Boletim SIOANI 1969: o que os números realmente mostram
Esta postagem foi motivada pelo uso recorrente, por parte de autoproclamados pesquisadores de objetos voadores não identificados (OVNIs), dos boletins do SIOANI, sigla de Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados, como suposta prova de seriedade institucional ou de validade científica de casos explorados pela literatura ufológica, bem como pela confiança acrítica depositada em relatos de “testemunhas”. O problema é simples: documentos burocráticos, por mais historicamente interessantes que sejam, não se convertem automaticamente em evidência empírica robusta. Tampouco se tornam menos frágeis apenas por circularem sob aparência oficial ou militar.
Esta postagem serve, portanto, como alerta contra leituras ingênuas de documentos oficiais ou semioficiais apresentados ao público como se, por si sós, bastassem para legitimar alegações extraordinárias. Em tempos de recorrente espetacularização política e midiática do tema dos OVNIs, inclusive com a divulgação seletiva de documentos e narrativas por governos estrangeiros, torna-se ainda mais importante distinguir valor histórico, valor burocrático e valor científico.
Para isso, os documentos analisados nesta postagem são os boletins do SIOANI ligados à Quarta Zona Aérea em 1969, no contexto da Força Aérea Brasileira e das rotinas de informação do MAER/COMDABRA. Convém, porém, definir melhor de que material se trata. Não estamos diante de um único boletim homogêneo, mas de pelo menos dois documentos distintos reproduzidos no dossiê: um primeiro, de 01/03/1969, relativo a “Objetos Aéreos não Identificados. Atribuições do SIOANI”, e um segundo, de 02/08/1969, relativo a “Objetos Aéreos não Identificados. Estatísticas”. Essa distinção é importante porque a leitura histórica e institucional do sistema depende de ambos, mas a análise quantitativa desenvolvida abaixo se apoia sobretudo no segundo, isto é, no boletim estatístico de agosto de 1969, enquanto o primeiro é fundamental para compreender a moldura doutrinária, administrativa e organizacional do SIOANI.
O material não é apenas uma coletânea de relatos. Ele também revela a tentativa de criar uma estrutura doutrinária, administrativa e estatística para receber, classificar e investigar ocorrências de objetos aéreos não identificados no Brasil. Isso, por si só, já lhe confere relevância histórica, pois mostra uma forma institucional de tratar o tema, muito diferente da ufologia puramente jornalística ou amadora. O ponto mais interessante, porém, é outro. Quando se lê o boletim como base de dados, e não como peça de mitologia ufológica, o que aparece é uma amostra fortemente enviesada. Os próprios quadros estatísticos do documento permitem extrair conclusões que, até onde pude verificar, não estão explicitadas no próprio boletim. Em vez de reforçar a ideia de um conjunto sólido de evidências físicas, eles sugerem uma casuística dominada por contexto humano, filtro institucional, observação subjetiva e repertório cultural.
O Project Blue Book Report No. 8, da USAF, não altera esse diagnóstico de fundo. Ao contrário, ele o reforça em plano mais geral. O relatório informa que, entre 1º de junho e 31 de outubro de 1952, 866 relatos foram recebidos, avaliados, indexados e arquivados, em meio a um surto de notificações que o próprio texto associa, em parte, à publicidade em revistas e jornais. Mostra também que os casos eram triados em categorias como unknown, insufficient data, aircraft, balloons, astronomical e other, e que grande parte da casuística permanecia dependente de insuficiência descritiva, ambiguidade classificatória e possibilidade de identificação convencional posterior, caso houvesse dados de fundo melhores. Esse é exatamente o tipo de informação que um relatório institucional pode fornecer com honestidade: evidência de um processo burocrático de recebimento, filtragem, classificação e tentativa de explicação dos relatos, e não prova autônoma de fenômenos extraordinários. Ao mesmo tempo, convém não exagerar o paralelo. Diferentemente do boletim estatístico do SIOANI, o Report No. 8 não publica, de forma agregada, distribuições de sexo, escolaridade, perfil urbano ou meios de observação comparáveis às do documento brasileiro. Ele sustenta uma conclusão análoga sobre fragilidade observacional e triagem institucional, mas não reproduz, no próprio relatório, a mesma sociologia quantitativa das testemunhas.
O primeiro resultado forte da análise do boletim do SIOANI vem do horário das observações. O Gráfico 005 resume 70 ocorrências: 9 ao alvorecer, 10 de dia, 9 ao anoitecer e 42 à noite. Se a distribuição fosse minimamente equilibrada entre essas quatro faixas, esperaríamos 17,5 casos por faixa. Um teste qui-quadrado simples fornece χ² = 45,77, com 3 graus de liberdade e p = 6,3 × 10^-10. Em termos práticos, isso significa que a concentração noturna é forte demais para ser tratada como flutuação casual. E essa concentração não favorece a interpretação extraordinária do material. Favorece, isto sim, a hipótese de ambiguidade perceptiva, porque é justamente à noite que referências de tamanho, distância, cor e movimento se tornam mais frágeis.
O segundo resultado vem do modo de observação. O boletim resume 66 casos quanto ao meio empregado: 56 observações a olho nu, 7 com óculos e 3 com binóculos. Aplicando um teste de aderência entre as três categorias, obtemos χ² = 79,18, com 2 graus de liberdade e p = 6,4 × 10^-18. O resultado é contundente. A amostra depende esmagadoramente de observação desassistida. Isso é crucial, porque um banco de relatos dominado por observação a olho nu é muito mais vulnerável a erro de interpretação, ilusão de perspectiva, memória reconstruída e sugestão cultural. Não se trata, portanto, de uma base forte para sustentar a existência de objetos extraordinários.
O terceiro resultado aparece no perfil social das testemunhas. O gráfico de sexo registra 64 homens e 19 mulheres, totalizando 83 casos. Em um teste binomial contra um nulo simples de 50/50, o p-valor é 7,4 × 10^-7. Isso mostra que a amostra está muito longe de qualquer neutralidade populacional. Não estamos diante de qualquer brasileiro vendo qualquer coisa. Estamos diante de uma casuística seletiva, formada por pessoas que circulavam mais em determinados ambientes, tinham maior legitimidade para relatar, mais acesso aos canais de registro ou eram mais facilmente aceitas pelos investigadores como testemunhas válidas.
O viés educacional aponta na mesma direção, e aqui a comparação com o Brasil da época é especialmente reveladora. No Gráfico 014, o boletim registra 8 analfabetos, 25 em grupo escolar, 13 em nível ginasial, 6 em nível superior e 11 universitários, totalizando 63 casos. Isso significa que 47,6% da amostra tinham pelo menos formação ginasial e que 27,0% estavam nas categorias superior ou universitário. Isso já indica, por si só, uma amostra relativamente escolarizada. Quando se compara esse perfil com o Censo de 1970, a discrepância se torna ainda mais clara. Para a população brasileira com 5 anos ou mais, o total era de 79,3 milhões de pessoas. Destas, apenas 893 mil, cerca de 1,1%, estavam na faixa de 13 a 17 anos de estudo, e 2,46 milhões, cerca de 3,1%, na faixa de 10 a 12 anos de estudo. Mesmo reconhecendo que as categorias do boletim e do censo não são idênticas, a diferença é grande demais para ser ignorada. O perfil educacional da amostra do SIOANI está muito acima do perfil educacional médio do Brasil naquele momento. Isso sugere um conjunto de testemunhas mais urbano, mais letrado e mais exposto a jornais, rádio, televisão, ficção científica e à própria casuística dos discos voadores em circulação na época.
Há outros sinais do mesmo padrão. O gráfico de área de observação concentra 33 casos em cidade, contra 12 em sítio, 10 em fazenda e 10 em vila. O boletim também registra 21 testemunhas com TV e 19 sem TV no subconjunto em que esse dado foi anotado. Somado ao perfil profissional listado nos casos, com piloto civil, bancário, engenheiro, policial, técnico, comerciante, industrial, médico-veterinário e funcionário público, isso reforça a leitura de uma amostra predominantemente urbana, letrada e socialmente integrada aos circuitos de informação do período.
Outro ponto decisivo é que o próprio documento não trata todos os relatos como igualmente confiáveis. Há uma seção de exames psicológicos com 18 examinados, dos quais 13 aparecem sem psicopatologia definida e 5 em categorias que incluem delírios, alucinações, questionamentos e tendência à mitomania. Essa informação, vinda do próprio boletim, enfraquece qualquer tentativa de usar o SIOANI como confirmação homogênea de casos objetivos. Os autores do documento sabiam que parte da casuística era frágil, contaminada ou psicologicamente problemática.
Quando se passa da estatística geral para os casos individuais, a mesma impressão persiste. Os relatos mais impressionantes não são os mais sólidos. Em geral, são os mais carregados de elementos narrativos típicos da cultura ufológica da época. O caso mais extremo é o XL-CI-040, cuja narrativa inclui um objeto semelhante a um carrossel, três tripulantes baixos do lado de fora, jato de luz paralisante, transporte para local desconhecido, seres semelhantes a humanos com voz rouca e tentativa audiovisual de comunicação. Esse tipo de relato é valioso como documento cultural, mas sua plausibilidade empírica é muito baixa.
Em contraste, há casos bem mais sóbrios, que apontam justamente na direção oposta à hipótese extraordinária. Um bom exemplo é o XLII-CI-042, observado por piloto civil em 13 de maio de 1969, às 18h30, na região de Botucatu-SP, com descrição de uma fonte luminosa com duas caudas flamejantes e um globo central esverdeado. Em seguida, segundo o boletim, as caudas se apagaram, o globo escureceu e pareceu descer em direção ao solo. Lido sem sensacionalismo, o episódio é muito mais compatível com a passagem de um meteoro muito brilhante, ou superbólido, possivelmente com fragmentação, do que com um “disco voador” em sentido forte na literatura ufológica. A presença de caudas, a coloração intensa, a rápida mudança de aspecto e a impressão de descenso são elementos clássicos desse tipo de fenômeno atmosférico luminoso. Em vez de reforçar a hipótese extraordinária, esse caso sugere o contrário: parte da casuística do boletim pode ser explicada de modo plausível por fenômenos naturais mal enquadrados pelo vocabulário ufológico da época.
O ponto central, portanto, é este: nenhuma estatística extraída desse boletim consegue provar que os relatos sejam verdadeiros ou falsos em bloco. O que os números conseguem mostrar é outra coisa, e isso já é bastante revelador. A amostra do SIOANI tem assinatura clara de viés humano: concentração noturna, predominância de observação a olho nu, filtro social masculino, perfil educacional relativamente alto, contexto urbano e presença explícita de casos psicologicamente frágeis. Tudo isso é compatível com um arquivo histórico de relatos selecionados e interpretados, e não com um corpo robusto de evidências físicas independentes.
O Project Blue Book Report No. 8 reforça honestamente essa direção apenas em plano mais geral: ele mostra uma máquina institucional de recebimento, triagem, classificação e tentativa de explicação convencional dos relatos, fortemente marcada por insuficiência de dados, publicidade, ambiguidade e necessidade de checagem meteorológica, aeronáutica e astronômica. O que ele não mostra, ao menos nesse relatório, é a mesma estrutura estatística sobre o perfil social das testemunhas que o boletim estatístico do SIOANI deixa entrever.
Lidos com cuidado, os boletins do SIOANI de 1969 continuam sendo documentos importantes. Mas o que mostram com mais força não é a prova de naves de origem extraterrestre. O que mostram é como instituições brasileiras do período tentaram dar forma burocrática, estatística e aparentemente técnica a uma casuística que, no fundo, permanecia profundamente dependente de percepção humana, contexto cultural e filtros sociais. E é justamente por isso que essa leitura quantitativa dos boletins é relevante: ela desloca o documento do campo do mito para o da análise crítica.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
Rosaly Lopes, um exemplo de pesquisadora
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| Imagem que mostra um momento do seminário da professora Rosaly. |
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Universidade pública: por que o Brasil ainda insiste no funil de entrada?
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| Quadro de esquete do programa Hermes & Renato retratando o personagem “Charlinho”. |
O ponto estrutural do ensino universitário público é este: no Brasil, o acesso às universidades públicas é, em regra, condicionado a processos seletivos (vestibulares e/ou ENEM/SISU), o que cria um funil de entrada. Em contraste, na Argentina, muitas universidades públicas adotam modelos de ingresso mais amplo, frequentemente com ciclos iniciais e filtros ao longo do percurso acadêmico (por exemplo, o CBC), em um arranjo historicamente associado às reformas universitárias iniciadas em 1918.
Minha Vivência com o Colonialismo Cultural na Ciência
Esta postagem tem um caráter de reflexão e registro para futuras gerações de cientistas brasileiros. Em 15 de dezembro de 2022, enviei uma...
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Primeiro meteoro esporádico detectado pela câmera grande angular do Barbalho (Salvador, Bahia) no ano de 2013. O registro ocorreu às 05:22 d...








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