sábado, 21 de fevereiro de 2026

Universidade pública: por que o Brasil ainda insiste no funil de entrada?


Quadro de esquete do programa Hermes & Renato retratando
o personagem “Charlinho”.

O ponto estrutural do ensino universitário público é este: no Brasil, o acesso às universidades públicas é, em regra, condicionado a processos seletivos (vestibulares e/ou ENEM/SISU), o que cria um funil de entrada. Em contraste, na Argentina, muitas universidades públicas adotam modelos de ingresso mais amplo, frequentemente com ciclos iniciais e filtros ao longo do percurso acadêmico (por exemplo, o CBC), em um arranjo historicamente associado às reformas universitárias iniciadas em 1918.


Esse arranjo vem sendo mantido apesar de restrições econômicas e fiscais, em um país cujo PIB nominal é significativamente menor que o do Brasil (da ordem de um quarto a um terço, a depender do ano e do câmbio). Diante disso, a questão é por que o Brasil continua tratando provas eliminatórias como mecanismo central de acesso, em vez de avaliar alternativas de entrada mais amplas, acompanhadas de políticas de permanência e de uma estrutura acadêmica capaz de absorver a demanda.

Quando esse tema fica fora da pauta, o debate público tende a se concentrar em episódios de alta repercussão emocional, como a aprovação de um estudante pobre de Salvador em medicina na USP. Isso acaba virando uma versão triste da narrativa do “menino Charlinho que só queria estudar”, célebre esquete do programa Hermes & Renato, que expõe como a superação quase sobre-humana é celebrada por nossa imprensa e por parte da sociedade, em vez de se discutir soluções estruturais. Com isso, questões como critérios de acesso, permanência e prioridades de política pública recebem menos atenção do que merecem.

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