Em 10/02/2026, fiz um ensaio, a partir do centro de Salvador, para registrar a ocultação da estrela Tycho-2 1823-285-1 (Figura 1) pelo asteroide do cinturão principal
(11978) Makotomasako, prevista para 11/02/2026, usando um telescópio Unistellar eVscope 2 do Planetário da UFBA. No site do fabricante, a previsão indicava uma janela de observação em UTC de 21:45:00 a 21:55:21, com coordenadas-alvo RA = 04h 15m 48s (63,95066°) e Dec = +26° 34′ 01″ (26,56692°).
Ocultações estelares são análogas a eclipses solares vistos da Terra, mas com asteroides no lugar da Lua e estrelas no lugar do Sol. Sua observação permite estimar, com alta precisão, as dimensões e a forma projetada do asteroide, além de possibilitar a detecção de satélites ou anéis. O albedo, isto é, a fração de luz refletida pela superfície, não é obtido diretamente pela ocultação; em geral, ele é inferido ao combinar o diâmetro medido na ocultação com a magnitude absoluta (H) do asteroide. O tipo taxonômico também pode sugerir valores típicos de albedo, por estar relacionado à composição e às propriedades da superfície, mas essa estimativa é indireta. Obter informações por observação direta da superfície é difícil para a maioria dos asteroides, devido ao baixo brilho e ao pequeno tamanho aparente.
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Figura 1 — Esta imagem é o resultado do empilhamento de sete exposições de 0,2 s, semelhantes à da Figura 2, o que aumentou a relação sinal-ruído em aproximadamente 2,6× (≈ √7) em relação ao registro individual. Imagem gerada pelo aplicativo online “Astrometry”.
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No ensaio, usei tempo de exposição de 200 ms (0,2 s) e ganho de 30 dB, conforme recomendado pelo fabricante. A estrela-alvo é listada com magnitude 11,51, e a queda prevista durante a ocultação é de 6,09 magnitudes.
O que significa “30 dB” aqui? É o ganho eletrônico (amplificação) aplicado ao sinal do sensor. Em termos de amplitude, 30 dB ≈ 31,6× (1030/20) de amplificação. Isso aumenta o sinal, mas também amplifica o ruído e pode facilitar saturação em pixels brilhantes. Não é “contraste” e não é, por si só, uma medida direta de relação sinal-ruído.
O telescópio apontou corretamente para a estrela, com desvio inferior a uma dezena de segundos de arco em relação à posição catalogada em ascensão reta e declinação, e ela ficou facilmente visível a partir do centro de Salvador com tempo de exposição de 0,2 s (Figura 2).
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Figura 2 – Primeira imagem da sequência obtida
com tempo de exposição de 0,2 s. A estrela a ser ocultada está no
meio da imagem, cuja orientação vertical é a inversa da Figura 1.
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- A linha vermelha marca a linha central (centralidade) da faixa prevista da sombra.
- As linhas azuis indicam o caminho previsto e a escala associada ao tamanho estimado do asteroide.
- As linhas laranjas delimitam a incerteza de 1σ na predição da faixa.
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| Figura 3 |
O que é “1σ”? “1σ” significa um desvio-padrão da incerteza: é uma faixa que representa a dispersão esperada da posição prevista da sombra no solo. Em geral, essa incerteza é dominada pela incerteza da efeméride (órbita) do asteroide e, em menor grau, pela posição catalogada da estrela. O diâmetro do asteroide afeta principalmente a largura da sombra e as cordas possíveis, mas não é o principal responsável pelo deslocamento do caminho central previsto.
Não registrei o evento em campo por razões logísticas: a faixa prevista tocaria a Terra a algumas dezenas de quilômetros do centro de Salvador, numa região do município de Simões Filho, sem um local seguro para parada e operação. Além disso, por volta de 18:45 de 11/02/2026 (hora de Brasília), o céu ainda estava claro, o que dificultaria a aquisição.
Ainda assim, o ensaio mostra que é muito viável registrar ocultações estelares por asteroides (e, em princípio, por cometas) com este instrumento, mesmo em áreas urbanas com forte poluição luminosa, como no meu sítio observacional, onde o céu deve corresponder à classe 8 na escala de Bortle.